O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou ontem a transferência de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a carceragem da Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília, marco do início do processo de uma delação premiada. O banqueiro chegou de helicóptero no início da noite às dependências da corporação, depois de firmar um termo de confidencialidade com a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR).
- Política: ‘Master é o ovo da serpente de Bolsonaro e Campos Neto e não deixaremos pedra sobre pedra’, afirma Lula
- Malu Gaspar: Transferência de Vorcaro para Superintendência da PF é pontapé para delação
Vorcaro estava preso desde o dia 6 de março na penitenciária federal de Brasília, para onde foi levado depois de dois dias de detenção em Potim, no interior de São Paulo. A última transferência foi ordenada pelo magistrado após pedido da defesa, que menciona a intenção do banqueiro de colaborar.
Na mesma decisão, que está sob sigilo, Mendonça rejeitou um pedido de prisão domiciliar.
Mesma sala de Bolsonaro
O dono do Banco Master foi alocado na mesma sala onde Jair Bolsonaro ficou preso e começou a cumprir a pena pela condenação na trama golpista, segundo pessoas que acompanharam os eventos de ontem. Atualmente, o ex-presidente está no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”.
Vorcaro desceu do helicóptero às 19h04, algemado nas mãos e na cintura. Ele estava de chinelo e com roupas do sistema penitenciário.
“A Polícia Federal informa que, em cumprimento à decisão judicial proferida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, no âmbito da PET 15.711, realizou, nesta quinta-feira (19/3), a transferência do custodiado Daniel Bueno Vorcaro do Sistema Penitenciário Federal para a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal”, registrou a corporação.
Segundo pessoas próximas do caso, Vorcaro já vinha rascunhando, em presídio federal, informações que podem ser importantes para a colaboração.
Na última sexta-feira, a Segunda Turma do Supremo formou maioria, em julgamento no plenário virtual, para manter a prisão preventiva do banqueiro, com os votos dos ministros André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. A formação da maioria acelerou a movimentação do banqueiro, que trocou os advogados.
- STF: Ministros defendem Moraes em meio à crise do Master, e Gilmar diz que inquérito das fake news foi 'corajoso e irretocável'
No julgamento sobre a manutenção da prisão preventiva, Gilmar Mendes ainda não votou e Dias Toffoli, que deixou a relatoria do Master após ser citado em um dossiê entregue pela Polícia Federal ao Supremo, se declarou suspeito. O prazo de votação, em plenário virtual, termina hoje.
A transferência do banqueiro para uma carceragem menos rígida vinha sendo pleiteada pela defesa de Vorcaro desde sua ida para Brasília. Vorcaro contratou o advogado José de Oliveira Lima, o Juca, que costurou a delação do empreiteiro da OAS Léo Pinheiro no âmbito da Operação Lava-Jato. E passou a dar sinais, segundo a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, que está disposto a fazer uma “delação séria”.
No meio político, a eventual delação de Vorcaro é compreendida como um movimento explosivo, com possível efeito dominó nos três Poderes da República. O banqueiro é suspeito de comprar influência e “proteção política” para tentar encobrir as fraudes ocorridas na gestão da instituição financeira, liquidada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025.
Um dos pontos não esclarecidos no escândalo é a extensão da relação de Vorcaro com os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do STF.
Integrantes do governo temem que Vorcaro use a sua eventual delação para envolver membros do Executivo. Do lado do Palácio do Planalto, o argumento é que Vorcaro não tem nada a perder e, por isso, tente provocar confusão.
Nos bastidores, auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contestam a pertinência da delação do banqueiro. Dizem que dados de suas contas bancários e seus aparelhos celulares já estão em posse da PF e que esse material é suficiente para fundamentar a apuração sem necessidade de colaboração do réu.
O governo tem adotado até o momento o discurso de que o caso Master envolve mais políticos da direita do que da esquerda. Perfis simpáticos ao governo chegaram a divulgar nas redes sociais material em que batizam o escândalo de Bolsomaster.
Ligações com governistas
As ligações de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, são minimizadas. A alegação é que não surgiu até agora nenhum fato concreto que comprove que Lima foi beneficiado no Credcesta, um cartão de crédito consignado para funcionários públicos que era operado pelo governo da Bahia, mas foi privatizado em 2018. Logo depois da privatização, um decreto do então governador Rui Costa alterou as regras do uso do cartão e permitiu a ampliação do seu mercado. Neste semana, foi revelado que a nora de Jaques Wagner recebeu, por meio de sua empresa, pelo menos R$ 11 milhões do Master, segundo o portal Metrópoles.
Além disso, Lula recebeu Vorcaro em dezembro de 2024 no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial. O então banqueiro foi levado ao encontro pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que prestava consultoria para o Master. Em janeiro, foi revelado também que o escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski recebeu R$ 5 milhões do Master para prestação de serviços de consultoria jurídica. O contrato foi mantido mesmo depois que ele assumiu o cargo de ministro da Justiça, em fevereiro de 2024.
- Alexandre de Moraes
- Daniel Vorcaro
- Dias Toffoli
- Gilmar Mendes
- Lula