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Analistas apontam principais desafios de Haddad na disputa pelo governo de São Paulo

Analistas apontam principais desafios de Haddad na disputa pelo governo de São Paulo

A decisão do presidente Lula de escalar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), para reeditar a disputa ao governo de São Paulo contra Tarcísio de Freitas (Republicanos) traz como principais desafios, na opinião de analistas, o perfil conservador do estado, a rejeição classificada como estrutural ao PT desde a Lava-Jato e o próprio jogo duplo da candidatura.

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Isso porque, segundo lideranças do próprio partido, a tarefa de Haddad passa mais pela perspectiva de fortalecer o palanque de Lula no estado do que propriamente derrotar o governador, favorito à reeleição de acordo com as pesquisas eleitorais recentes. O mote da campanha do petista deve ser a inclusão social, com discurso muito vinculado às entregas do governo federal na seara econômica, e não tanto a gestão do adversário.

O ministro do Empreendedorismo, Márcio França (PSB), que foi preterido para a vaga, vinha adotando uma estratégia diferente, voltada para as pautas locais com potencial de desgaste para o governador. Entre elas, a implantação de novos pedágios nas rodovias estaduais com tecnologia “free flow”, a crise hídrica, os apagões frequentes no estado e o relacionamento conturbado de Tarcísio com os prefeitos paulistas.

— Apostaria as minhas fichas que ele vai adotar uma agenda nacional para fazer vitrine aos projetos sociais do Lula — afirma Marcelo Vitorino, professor de marketing político da ESPM.

Isenção do IR

Uma das bandeiras, nesse sentido, deve ser a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, proposta pelo Executivo e aprovada no Congresso. O ministro deve investir ainda em indicadores econômicos favoráveis, como a queda na taxa de desemprego e o aumento da renda média. Por outro lado, o analista entende que o eleitorado historicamente conservador de São Paulo não reage bem a impostos.

Vitorino avalia que essas pautas devem ocupar lugar central na disputa, até mais do que a sempre lembrada gestão mal avaliada de Haddad na prefeitura de São Paulo que custou a reeleição, em 2016, contra João Doria, então no PSDB.

— Ele não vai ser julgado pelo que fez na prefeitura, porque muita gente já esqueceu, e sim pelas medidas econômicas — opina.

Outra aposta é o enfoque de Haddad nos grandes centros urbanos, como forma de driblar o enraizamento bolsonarista no interior. Pesquisa Datafolha divulgada no último dia 7 mostrou que a vantagem de Tarcísio chega a 19 pontos percentuais no interior, contra 6 na capital paulista, números que podem variar quatro pontos para mais ou para menos dentro da margem de erro do instituto.

O cientista político Marco Antônio Teixeira, professor da FGV, ressalta ainda uma dificuldade prática para a montagem de palanques regionais: a falta de capilaridade do PT nos municípios paulistas. A sigla venceu apenas em quatro prefeituras em todo o estado em 2024, sendo a principal delas Mauá, na região do ABC. Enquanto isso, a aliança de Tarcísio se desenha com PSD (207 prefeitos eleitos), PL (104), Republicanos (85), MDB (68), PP (47) e União Brasil (36), entre outras legendas menores.

— Se ele tiver aliados que possam fazer com que a presença dele no interior do estado seja mais forte, tentando uma reversão do quadro, acho que faz sentido, porque ele já é bastante conhecido na região metropolitana e não se tem ali grandes perspectivas de ganhos adicionais. Haddad enfrenta algum grau de desconhecimento no interior, mas, ao mesmo tempo, não parece contar com muitos aliados estratégicos — analisa.

Teixeira acredita que o candidato do PT terá que adaptar parte do discurso para uma realidade mais local, porque “não tem como fugir” de assuntos como a privatização da Sabesp e as políticas estaduais de segurança pública, educação e saúde. Ainda assim, acredita numa polarização aguda, retomando a aversão ao bolsonarismo como pauta. Até porque o seu prestígio como ministro da Fazenda, na avaliação dele, não parece ter uma capacidade considerável de reverter votos neste momento para além de setores de classe média e do pequeno empresariado.

Em palestra a estudantes da USP, no começo do mês, Haddad brincou sobre a sua posição como ministro da Fazenda. Disse que foi apelidado de “austericida” pela esquerda, por perseguir o equilíbrio fiscal, e de “gastão” pela direita, ala que adverte sobre a elevação das despesas do governo e déficits nas contas públicas. Ele ainda resistia, à época, a concorrer novamente ao governo de São Paulo.