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Após controle do STF, parlamentares diminuem montante de emendas Pix para 2026

Após controle do STF, parlamentares diminuem montante de emendas Pix para 2026

Diante das cobranças do Supremo Tribunal Federal (STF) por mais transparência, deputados e senadores reduziram o montante que pretendem enviar via emendas Pix a seus redutos eleitorais no ano que vem. O Orçamento de 2026 prevê R$ 6,9 bilhões na modalidade, contra R$ 7,3 bilhões que foram indicados inicialmente neste ano.

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O movimento contraria a tendência dos últimos cinco anos, período em que os valores deram um salto de 36 vezes — foram mais de R$ 25 bilhões distribuídos a municípios e estados entre 2020 e 2025.

O crescimento chamou a atenção, já que a modalidade representa uma transferência direta ao caixa, num trâmite menos burocrático do que as emendas tradicionais, e fez o STF ser acionado. Em uma série de decisões, o ministro Flávio Dino determinou o bloqueio de repasses, mudanças nas regras para aumentar a transparência e um pente-fino sobre os valores já direcionados.

Movimentação dos recursos — Foto: Editoria de Arte
Movimentação dos recursos — Foto: Editoria de Arte

Em agosto, O GLOBO revelou que deputados e senadores estavam insatisfeitos com o ritmo de liberação das transferências especiais após a imposição de novas regras. No ano passado, Dino mandou suspender os pagamentos e só os liberou mediante algumas condições, como a apresentação de plano de trabalho com detalhes de como o recurso será usado e a abertura de uma conta específica pelo município para receber o dinheiro.

Rastreabilidade

Além disso, o ministro ampliou exigências relativas à transparência e rastreabilidade dos recursos, estabelecendo que estados, municípios e o Distrito Federal também adotem padrões semelhantes aos da União, com publicação detalhada de dados sobre repasses e execução.

O ministro Flávio Dino, durante sessão do STF — Foto: Antonio Augusto/STF/30-10-2025
O ministro Flávio Dino, durante sessão do STF — Foto: Antonio Augusto/STF/30-10-2025

Ao mesmo tempo, a nova obrigação legal de o governo pagar até julho ao menos 65% das emendas individuais para a Saúde e Assistência Social a partir de 2026 levou a um aumento de R$ 2 bilhões para as duas áreas em indicações de recursos dos parlamentares, aponta levantamento do GLOBO. Desta forma, parlamentares conseguem assegurar que os recursos chegarão a tempo de renderem dividendos eleitorais.

Uma outra regra explica a preferência pelas duas áreas: em anos eleitorais, como em 2026, é vedada a transferência de recursos para estados e municípios no período de três meses que antecede a eleição. Isso ocorre para evitar o uso de recursos públicos para beneficiar candidatos. Apenas são autorizadas transferências para obras já em andamento que tinham o repasse programado ou em casos de emergência.

Áreas de destino

Em 2025, o valor total de emendas individuais ficou em R$ 24,6 bilhões, enquanto no ano que vem ficará em torno de R$ 26,6 bilhões, um aumento de 7%. Tanto o Ministério da Saúde quanto o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social cresceram mais do que essa média. No caso da Saúde, o crescimento foi de 13%, chegando a R$ 14,8 bilhões, e, no da Assistência Social, de 38%, alcançando R$ 995 milhões.

O deputado Danilo Forte (União-CE), que em anos anteriores já foi relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), aponta que o endurecimento das regras e o aumento das exigências técnicas levaram à redução no número de indicações de emendas Pix. Na avaliação dele, o receio de questionamentos e de travamentos futuros fez com que muitos parlamentares optassem por não apresentar indicações, concentrando as prioridades em áreas como saúde e assistência social.

— Houve uma queda clara nas indicações de emendas Pix, muito por medo. As exigências aumentaram demais, e muitos parlamentares preferiram não indicar para não correr risco. O dinheiro está lá, mas a insegurança afastou as indicações, o que é um sinal ruim para a execução do ano que vem — disse Forte.

Um dos exemplos de parlamentares que mudaram a estratégia é Duarte Júnior (PSB-MA). Em 2025, ele indicou R$ 18 milhões em emendas Pix para o Maranhão. Em 2026, suas indicações não terão sequer um centavo nesse tipo de transferência. Todos os R$ 40 milhões indicados pelo deputado vão para a Saúde — ou seja, com tramitação acelerada em 2026.

— Quem já teve experiência com transferência especial sabe que o recurso pode ser usado para outro propósito, e o parlamentar só fica sabendo depois. E aí o julgamento acontece no “tribunal do Facebook”, que não tem contraditório e aplica penas perpétuas. Fora das emendas Pix, a chance de um governador ou prefeito utilizar o recurso de maneira inadequada é menor. As formalidades e as exigências são as mesmas. A diferença é que agora o resultado aparece mais rápido na Saúde — afirmou Duarte Júnior.

De acordo com a diretora de programas da Transparência Brasil, Marina Atoji, a decisão dos parlamentares em relação à liberação de emendas em 2026 também tem o impacto das eleições. Diferentemente de 2024, ano de pleitos municipais, dessa vez toda a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado serão renovados. Atoji lembra que, nos últimos anos, deputados e senadores têm buscado alternativas mesmo após determinações judiciais para impor regras às emendas.

— O Congresso vem sempre encontrando brechas, ou caminhos, para a liberação de emendas e tem a prerrogativa de fazer essas alterações na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Para 2026, é algo que ganha um pouco mais de gravidade, porque é ano eleitoral. O peso das emendas invariavelmente tem influência. Há uma espécie de financiamento eleitoral por meio de emendas, tanto que emplacaram esse pagamento de 65% — afirma.

Cerco fechado

A atuação do STF sobre as emendas Pix tem se intensificado nos últimos meses. Em dezembro de 2025, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal (PF) investigue cerca de R$ 72,3 milhões na modalidade por supostas irregularidades, após auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) indicar a “permanência de um quadro generalizado de ilegalidades” na execução desses recursos em diversos municípios. A CGU encontrou falhas nos planos de trabalho, no acompanhamento e na prestação de contas, incluindo contratações de serviços ou aquisições de bens sem conformidade com exigências legais.

Além disso, Dino ordenou à CGU a elaboração de um plano de auditoria específico para as emendas de 2026, com mapeamento regional e foco em áreas consideradas sensíveis, como saúde e infraestrutura, reforçando mudanças no monitoramento para o próximo ciclo orçamentário.

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