O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o tom na terça-feira ao afirmar, em entrevista a correspondentes internacionais, que a megaoperação policial que deixou 121 mortos, na semana passada, nos complexos da Penha e do Alemão, foi uma “matança”. Em Belém, onde participa de eventos preparatórios para a COP30, o petista pediu ainda uma investigação sobre a ação do Estado do Rio, que classificou como “desastrosa”.
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Munido de pesquisas que mostram aprovação da atuação das forças de segurança, o Palácio do Planalto tentava contornar o tema e preferiu, desde o início da crise, evitar crítica pública ao governo de Cláudio Castro (PL) e usar tom propositivo, focando em projetos como a PEC da Segurança e o pacote antifacções, enviado ao Congresso. A nova manifestação de Lula, porém, foi o combustível necessário para que oposição e governo entrassem em confronto verbal tanto no Congresso quanto nas redes.
— Houve uma matança e creio que é importante investigar em que condições ocorreu — disse Lula, de acordo com a agência AFP.
Segundo Lula, só a versão do governo estadual foi divulgada e seria preciso “saber como tudo aconteceu”.
— O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa — disse Lula. — Estamos tentando, inclusive, ver se é possível os legistas da Polícia Federal participarem do processo de investigação da morte. A decisão do juiz era uma ordem de prisão. Não tinha ordem de matança e houve uma matança.
Petista recorre às redes
Durante a tarde, segundo integrantes do governo, Lula participou de um despacho com alguns ministros sobre o tema da segurança. Nas redes, após a repercussão da fala, o presidente disse que o país está atuando para “quebrar a espinha dorsal do tráfico de drogas” e destacou a importância da tramitação de textos do Executivo no Legislativo.
No Planalto, mesmo aliados mais próximos dizem que não sabiam que Lula mudaria de ideia sobre se pronunciar publicamente e criticar a operação. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, tem mantido discurso diplomático e acompanha de perto a agenda no Congresso.
“O governo enviou ao Congresso o PL antifacção, que endurece as penas e asfixia financeiramente as facções; e a PEC da Segurança Pública, que moderniza e integra as forças policiais, incorpora as Guardas Municipais e garante recursos permanentes para estados e municípios. Essas medidas completam o ciclo da segurança: investigação mais eficaz, integração institucional e base legal sólida”, escreveu Lula nas redes.
Nos dias seguintes à operação no Rio, Lula evitou fazer um contraponto à ação da polícia e adotou o silêncio em eventos públicos, como a posse de Guilherme Boulos na Secretaria-Geral da Presidência. A estratégia adotada por pessoas próximas ao presidente era usar a parceria acertada com o governador para dar fôlego à PEC da Segurança.
Na semana passada, a primeira manifestação de Lula após o episódio ocorreu nas redes. O petista reiterou a necessidade de combater as facções. Na ocasião, não houve críticas a Castro ou menção a eventuais mortes de inocentes.
No dia da operação, o governador chegou a criticar a suposta falta de colaboração do governo federal, por ter tido seus pedidos de blindados negados três vezes. O próprio Castro, no entanto, admitiu que não tem a intenção de pedir ao governo federal a decretação de uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), requisito para a cessão dos blindados.
No Congresso, após a fala de Lula, enquanto parlamentares ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro acusaram o petista de “desrespeitar” as forças policiais, aliados do Planalto afirmaram que o presidente apenas expressou uma preocupação humanitária.
O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), saiu em defesa de Lula:
— O que o presidente Lula fala expressa a opinião do governo. Nas mortes dos bandidos que aconteceram lá houve inocentes no meio. Isso não pode ser assim. É uma reação correta do presidente Lula.
Nas redes, o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) afirmou que Lula “desmoraliza quem combate o crime”, enquanto o senador Ciro Nogueira (PP-PI) escreveu que “o presidente escolheu o lado dos bandidos”.
— Ao falar sobre a operação no Rio, que tirou de circulação bandidos, (Lula) chamou de “matança”, mas esqueceu dos policiais mortos, que perderam a vida na luta contra o crime — disse Alfredo Gaspar (União-AL), relator da CPI do INSS.
Também se manifestaram Magno Malta (PL-ES), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Cabo Gilberto (PL-PB) e o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), todos em tom de ataque.
Exclusão de postagem
O confronto entre governo e oposição, em ao menos um caso, chegou à Justiça. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal deu prazo de 48 horas para que a rede social X exclua um post do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) que descrevia o PT como “partido dos traficantes”. A decisão afirma que a postagem causaria “prejuízos imediatos à imagem e à honra objetiva” do partido. Em resposta, Nikolas postou que “Lula recebeu 4 de cada 5 votos de eleitores presos”.
A mesma expressão foi usada como tag no X e, nas últimas 48 horas, teve mais 2 milhões de menções, segundo levantamento feito pela consultoria Ativaweb para o GLOBO. Entre essas, 74,2% foram negativas, 14,1% neutras e 11,7% positivas.
O PT também entrou com representação contra outros quatro parlamentares, exigindo indenização de R$ 30 mil de cada um, por replicar a frase que associava o partido a facções. Além de Nikolas, estão sendo processados os deputados Gustavo Gayer (PL-GO), Bia Kicis (PL-DF), Carlos Jordy (PL-RJ) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Juntos, eles realizaram ao menos 12 postagens sobre o assunto, que chegaram a 2,8 milhões de visualizações no X.
(Colaborou Fernanda Alves)
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