Após visitar o pai na cela especial na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta terça-feira que o ex-presidente Jair Bolsonaro está “indignado e inconformado” com o fato de ter sido preso preventivamente. Ele relatou que o pai teve uma crise de soluço "entre hoje e ontem", precisou ser atendido por um agente, mas melhorou após ser medicado.
– Ele teve crise de soluço de ontem para hoje. Eu fico preocupado com isso. Ele acaba broncoaspirando e pode acarretar numa infecção no pulmão. Isso pode ser letal — disse o senador em entrevista a jornalistas em frente ao prédio onde o pai está preso.
Questionada sobre o incidente, a PF informou que "por questões de segurança institucional não comenta detalhes de rotina, horários ou procedimentos específicos" da detenção dos seus custodiados.
O ex-mandatário foi levado para o local no sábado, a pedido da PF, que apontou risco de fuga após Flávio convocar uma mobilização de apoiadores em frente ao condomínio onde o pai cumpria prisão domiciliar. Além disso, pouco antes da prisão, Bolsonaro violou sua tornozeleira eletrônica ao tentar abrir o equipamento com um ferro de solda.
— Ele está indignado e inconformado. [Ele tem dito]: 'O que eu fiz para estar aqui?' A visita foi dura. É triste ver uma pessoa inocente passar pelo que ele está passando — relatou Flávio.
Segundo o senador, Bolsonaro pediu a ele para levar um “pedido direto” ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para que paute o projeto de anistia aos envolvidos nos atos golpistas.
– Acabei de sair daqui. É um pedido direto dele a Motta e Alcolumbre – afirmou ele.
De acordo com o parlamentar, Bolsonaro deu orientações de que não é o momento de discutir a sucessão na direita e que o foco deve ser a pauta da anistia.
Em reunião realizada ontem pelo PL, partido de Bolsonaro, Flávio foi escolhido pela família para centralizar as manifestações públicas do pai após a prisão preventiva. Em declaração após o encontro, ele afirmou que o “objetivo único” da oposição agora é aprovar o perdão aos condenados e investigados pelos atos do 8 de Janeiro, o que beneficiaria diretamente o ex-presidente.
A fala foi feita após a reunião de emergência convocada nesta segunda-feira na sede do partido que reuniu, além de Flávio, Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Jair Renan, o advogado Paulo Bueno e parlamentares alinhados ao núcleo mais ideológico da legenda.
Na frente da PF, Flávio também voltou a dizer que o pai tentou violar a tornozeleira em um momento de “confusão mental e não havia nenhuma chance de fuga que justificasse o decreto de prisão.
— Ainda que ele desse marretada na tornozeleira era impossível fugir. Moraes queria fazer e fez (decretar a prisão). Foi uma confusão mental da parte dele — explicou o filho 01.
O ex-presidente recebeu nesta terça-feira as visitas dos filhos Flávio e Carlos Bolsonaro na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. A ida dos filhos foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
De acordo com a decisão judicial, cada um teve 30 minutos com o pai, separadamente. Na quinta, Bolsonaro deve ser visitado por outro filho, o vereador Jair Renan, que também pediu autorização ao Supremo.
Nesta segunda-feira, Bolsonaro teve sua prisão preventiva mantida por unanimidade na segunda-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A Primeira Turma referendou a decisão de Moraes, segundo o qual o ex-presidente “violou dolosa e conscientemente” a tornozeleira eletrônica, danificada com um ferro de solda. O voto de Moraes rebate o argumento tanto da defesa e do próprio Bolsonaro, que alegaram “confusão mental” por uso de remédios pela tentativa de romper o equipamento de monitoração.
O ex-presidente está detido em uma sala especial na Superintendência, que tem cerca de 12 metros quadrados, cama de solteiro, ar-condicionado, frigobar, banheiro privativo e televisão. O espaço na PF passou por uma reforma recente diante da possibilidade de Bolsonaro ser preso em função dos processos a que responde.
A sala tem características semelhantes com o local onde ficou detido o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Superintendência da PF em Curitiba. Na época, o petista cumpria pena de 12 anos por condenação no caso do tríplex do Guarujá (SP), que depois foi anulada pelo Supremo.
A legislação brasileira prevê que autoridades com prerrogativa de função, como ex-presidentes, tenham direito a espaço compatível com a chamada "sala de Estado-Maior". Essa medida busca assegurar condições dignas e evitar riscos à integridade física do preso.
Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe após as eleições de 2022 e cumpria detenção domiciliar desde agosto.