UNO MEDIA

CPI do Crime Organizado: Fundador da Reag nega empresa de fachada e diz que Master era apenas 'um cliente'

CPI do Crime Organizado: Fundador da Reag nega empresa de fachada e diz que Master era apenas 'um cliente'

Convocado pela CPI do Crime Organizado do Senado para prestar esclarecimentos sobre operações financeiras investigadas no caso do Banco Master, o empresário João Carlos Mansur, fundador da gestora Reag Investimentos, afirmou nesta quarta-feira que a empresa sempre operou com alto nível de governança e transparência e que acabou sendo “penalizada por ser grande e independente”. A oitiva durou menos de uma hora, uma vez que Mansur fez apenas uma breve fala e exerceu o direito de ficar em silêncio na maior parte dos questionamentos.

— Tínhamos aproximadamente 800 funcionários que trabalhavam nos fundos. A empresa sempre foi auditada por consultorias internacionais. Escolhemos o nível de governança mais alto possível justamente por isso. Tínhamos operações claras e transparentes e fomos penalizados por sermos grandes e independentes — disse.

Mansur também afirmou que o Banco Master era apenas um cliente da gestora e negou que a empresa tenha sido usada para operações irregulares.

— O Banco Master era um cliente como o senhor, como meu advogado, regulado pelo Banco Central. Nunca fomos empresa de fachada — declarou.

Em outro momento, afirmou que o Banco Master era cliente da Reag, assim como outras instituições financeiras. Questionado sobre a liquidação de sua antiga empresa, Mansur disse que não responderia por se tratar de uma opinião pessoal.

As declarações foram dadas após um apelo do presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES), para que o empresário apresentasse ao menos sua versão dos fatos.

— Qual a imagem que você está transmitindo aos seus filhos? Se fosse eu, diria que fui fundador da Reag, que tínhamos essa operação e que nunca tivemos relação com o PCC — afirmou o senador.

Contarato também ressaltou que a comissão deveria respeitar o direito constitucional do depoente de permanecer em silêncio.

Apesar do apelo, Mansur disse que responderia apenas o que chamou de “informações públicas” sobre a empresa e evitou comentar diretamente as investigações. A estratégia já havia sido antecipada pela defesa. O empresário obteve autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para não responder a perguntas que pudessem levá-lo à autoincriminação.

Outros integrantes da comissão também pressionaram Mansur a falar. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI, criticou a postura do empresário.

— Não vamos ficar aqui ensaiando um teatro de perguntas. O Master é um escândalo (...) e, da minha parte, encerro a minha participação — afirmou.

O senador Sergio Moro (União-PR) também questionou se o empresário não teria explicações a dar sobre suspeitas envolvendo fundos administrados pela gestora.

— O senhor não tem nenhuma explicação para dar sobre os fundos e lavagem de dinheiro? Saímos dessa comissão com a impressão de que a Reag era um lugar próprio para isso — disse.

Mansur respondeu que exerceria seu direito constitucional de permanecer em silêncio.

Mansur é citado em investigações sobre operações financeiras consideradas atípicas envolvendo fundos administrados pela Reag Investimentos e transações que teriam sido viabilizadas por empréstimos do Banco Master. O empresário foi alvo de busca e apreensão em uma das fases da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal para investigar suspeitas de fraudes financeiras relacionadas ao banco.

Mesmo evitando responder às perguntas sobre as investigações, a presença do empresário era considerada relevante por integrantes da CPI, que buscam esclarecer o papel de gestores de fundos e operadores do mercado financeiro nas transações sob análise.

Para esta quarta-feira também era previsto o depoimento do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), que não compareceu. Contarato afirmou que iria reforçar o convite para que Leite ou um representante de seu governo viesse ao colegiado prestar esclarecimentos.

Relator cobra STF e fala em 'corporativismo'

Após a sessão, o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), avaliou que o depoimento teve alcance limitado e afirmou que o empresário respondeu apenas a questões genéricas.

— Foi um depoimento realizado de forma limitada. Ele respondeu poucas perguntas, mas não avançou nas questões mais delicadas. A gente tem uma característica de não fazer teatro. Não vamos passar o dia inteiro aqui para ganhar like — disse.

Vieira também cobrou rapidez do Supremo Tribunal Federal (STF) na análise de três recursos apresentados pela comissão relacionados às investigações sobre o Banco Master.

Um deles tenta restabelecer a obrigatoriedade do depoimento do empresário Daniel Vorcaro, controlador do banco, após decisão do ministro André Mendonça que tornou facultativo o comparecimento. Outro questiona decisão do ministro Gilmar Mendes que suspendeu a quebra de sigilo da empresa Maridt Participações, ligada à família do ministro Dias Toffoli e citada nas investigações. A CPI também busca garantir acesso a documentos e provas coletados pela Polícia Federal nas apurações sobre o banco.

— Nós temos três recursos apresentados ao STF. Estamos cobrando urgência na resposta porque precisa ter respeito institucional. O corporativismo não pode ficar acima da Constituição — afirmou.