O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) impôs uma derrota à oposição ao articular a rejeição do relatório final da CPI do INSS, após reveses na comissão que geraram apreensão no Palácio do Planalto diante do potencial desgaste político provocado por acusações contra integrantes do Executivo e até mesmo do núcleo próximo de Lula, como um de seus filhos, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O desfecho dos trabalhos da comissão, na madrugada deste sábado, ocorreu ainda num momento de tensão política, marcado pelo avanço das investigações do escândalo do Banco Master, tensionando a relação entre os Poderes, e pela proximidade do ciclo eleitoral.
Na sexta, o governo conseguiu maioria, com apoio de aliados do Centrão, para barrar o relatório de Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), que previa o indiciamento de Lulinha e pedia medidas como prisão preventiva de investigados. Foram 19 votos favoráveis e 12 contrários, após uma sessão que durou mais de 16 horas, com bate-boca, troca de acusações e ofensas e uma “guerra de relatórios”.
Apesar da vitória no desfecho da comissão, aliados do presidente reconhecem que o governo foi desgastado politicamente ao longo dos trabalhos e que esse tema ainda deverá ser explorado por adversários na campanha eleitoral.
A primeira falha da articulação política do Planalto, dizem, ocorreu na instalação da própria CPI, em agosto de 2025, quando cargos-chave, como a relatoria e presidência do colegiado, ficaram sob controle da oposição —Alfredo Gaspar e Carlos Viana (Podemos-MG), respectivamente. O cenário permitiu que parlamentares oposicionistas conduzissem o ritmo dos trabalhos e amplificassem acusações contra o Executivo, tendo como pano de fundo o debate eleitoral.
Um governista afirma, sob reserva, que isso foi um “descuido enorme do Planalto, que estava de salto alto” e não identificou a movimentação da oposição naquele momento. Além disso, diz que faltou ao governo a percepção de que uma CPI que investigaria um dos casos que mais vinha sendo usado para atacar a gestão petista deveria ser um tema prioritário para o Planalto.
— Sabíamos desde o início que a CPI iria tentar atacar Lula e o governo. Com o relator e o presidente que foram escolhidos, isso amplificou a possibilidade de a oposição criar factoides. A gente correu atrás da derrota, do prejuízo para minimizar esses efeitos — afirma o deputado Rogério Correia (PT-MG), um dos mais atuantes no colegiado.
Criada para apurar irregularidades em descontos sobre aposentadorias e pensões — estimadas por órgãos de controle em mais de R$ 6 bilhões—, a CPI realizou dezenas de reuniões e depoimentos e teve seu andamento marcado por divergências sobre o foco das investigações e por disputas entre os dois grupos.
O colegiado também foi marcado por disputas com a cúpula do Congresso, que se opôs ao movimento dos parlamentares de analisarem os desdobramentos do caso Master no âmbito da CPI, e com o Supremo Tribunal Federal (STF), que deu decisões que contrariam congressistas que atuavam no colegiado, entre elas a possibilidade de investigados não comparecerem às comissões, além de restrições à quebra de sigilos dos envolvidos.
Mudança de rota
Após o primeiro revés ao governo com a cúpula da CPI nas mãos da oposição, a Secretaria de Relações Institucionais do governo federal, responsável pela articulação do Executivo com o Congresso, teve de mudar de rota e voltar as atenções ao colegiado. A pasta passou a realizar ao menos duas reuniões semanais com os parlamentares para discutir os rumos dos trabalhos. A partir dali, articulou maioria interna com votos suficientes para barrar temas considerados problemáticos, a exemplo do suposto envolvimento de aliados do petista nas acusações do esquema de desconto irregular de benefícios do INSS.
Dois casos que geraram maior apreensão foram as acusações a familiares do presidente, como o sindicalista Frei Chico, um de seus irmãos, e Lulinha. Na avaliação de um governista, a oposição, apesar de ter sido derrotada com a rejeição do relatório, saiu vitoriosa no que ele chama guerra de narrativas. Na avaliação dele, oposicionistas deram maior visibilidade ao nome de Frei Chico e de Lulinha, enquanto o governo atacava a gestão Jair Bolsonaro como um todo, sem um personagem ou outro.
Um dos episódios de maior desgaste ao governo ocorreu quando a oposição conseguiu aprovar a quebra do sigilo bancário e fiscal do Lulinha, num movimento que foi contestado por governistas, que diziam que não tinha base regimental. A sessão teve de ser interrompida após confusão e briga entre os grupos. Petistas recorreram ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que manteve a votação, num revés para os governistas e numa sinalização da insatisfação do parlamentar com o Planalto. O caso foi levado ao STF, e o ministro Flávio Dino suspendeu o envio de dados de Lulinha para o colegiado.
Reta final
Como O GLOBO mostrou, governistas elaboraram um “relatório paralelo”, com apoio do Centrão, diante da avaliação de que o relator, por motivos eleitoreiros, usaria o documento para desgastar a imagem do Executivo e do próprio Lula.
A iniciativa também teria peso político importante, segundo aliados do petista, reforçando que o governo incentiva as investigações. Além de ter elaborado esse relatório, houve uma força-tarefa entre governistas para impedir a prorrogação dos trabalhos, garantir a rejeição ao documento proposto pelo relator que contou com reuniões no Planalto, trocas de integrantes, apelo pela presença física dos parlamentares e até mesmo a exoneração de um ministro. Carlos Fávaro (Agricultura), senador pelo Mato Grosso do Sul, foi exonerado do cargo para evitar que a sua suplente Margareth Buzetti (PP-MT), que poderia votar contra o governo, perdesse sua vaga na comissão.
Apesar de não ter sido votado o relatório paralelo, governistas dizem que esse material deverá ser entregue para órgãos como a Controladoria-Geral da União (CGU), a Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR), num movimento de reforçar a ideia de que o governo tem atuado para colaborar com as investigações e resolver esse problema.
O núcleo central da articulação na CPI ficou a cargo dos deputados Paulo Pimenta (PT-RS), Alencar Santana (PT-SP) e Rogério Correia (PT-MG), além do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), que é líder do governo no Congresso. Esse grupo era responsável por discutir mais intensamente com os demais parlamentares aliados, além de dar o tom e eixo político das discussões.
Aliados de Lula no Congresso reconhecem que o tema será explorado nas eleições, mas afirmam que é preciso um movimento articulado para reforçar a narrativa do governo de que foi sob Lula que o escândalo veio à tona, com a determinação das investigações e as medidas para ressarcir os lesados, e direcionar os ataques à gestão Jair Bolsonaro (PL).
Um governista que despacha no Planalto diz que a diretriz será a de sempre comparar com a gestão Bolsonaro, além de apontar que o presidente não interfere nas investigações e até mesmo já declarou que elas devem seguir “doa a quem doer”, em referência às suspeitas contra seus aliados.
Alencar Santana diz que caberá aos governistas mostrar que não há “fatos nem provas” que mostrem o envolvimento de Lulinha no escândalo.
— A oposição não tem o que falar sobre o governo Lula no caso do INSS então usa o Lulinha, que virou um símbolo. Nas eleições vamos continuar mostrando a nossa verdade, que não há provas e que eles criam ficção. Temos que mostrar que quem investigou e está punindo é o governo Lula, diferentemente do que o governo Bolsonaro fez. Vamos mostrar isso na campanha — afirma o deputado.
- INSS