Prováveis adversários na eleição de outubro ao governo do Rio, o deputado estadual Douglas Ruas (PL) e o ex-prefeito da capital Eduardo Paes (PSD) têm feito movimentos opostos relativos ao comando da máquina administrativa estadual — vacante desde a renúncia de Cláudio Castro (PL) na última segunda-feira. Ruas, que recebeu a chancela de partidos da base de Castro para sucedê-lo, busca assumir o quanto antes o posto do ex-governador, que lhe daria recursos e exposição cruciais antes de ser testado nas urnas. A lista de atrativos à disposição do Palácio Guanabara inclui um cofre mais robusto a partir da alta internacional do petróleo e a possibilidade de atrair apoio de prefeitos e parlamentares com inaugurações de obras, o que é permitido até o início de julho.
- Crise política: STF deve decidir no início de abril sobre eleições no Rio e ala da Corte avalia que pleito direto deve se consolidar
- Ex-governador: Último ato de Castro no governo permitiu a aliados influenciar na sucessão da Alerj
Em sentido contrário, Paes vem se esforçando para impedir, ou pelo menos adiar, que o rival tenha acesso a esses trunfos. Para isso, o PSD lançou mão de uma série de ações judiciais que brecaram os planos do PL para a sucessão estadual até aqui, e aliados do ex-prefeito tentam costurar um cenário para que o presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto, permaneça como governador em exercício até o fim do ano.
A princípio, Couto só ficaria no posto até a eleição de um novo presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), no lugar do deputado cassado Rodrigo Bacellar (União). Conforme a lei estadual, o substituto de Bacellar passaria a encabeçar a linha sucessória do estado, que ficou vaga com a renúncia de Castro devido à ausência de um vice-governador — Thiago Pampolha tornou-se conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.
A base governista chegou a eleger Ruas à presidência da Alerj a toque de caixa, na quinta-feira, com o intuito de já colocá-lo na cadeira de governador interinamente. A eleição, porém, foi anulada pela Justiça do Rio por desrespeitar os trâmites previstos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Reservadamente, aliados de Ruas avaliam que essa “pressa”, mal recebida no Judiciário, acabou fragilizando as chances do deputado no jogo sucessório.
Nesta sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin atendeu a um pedido de liminar do PSD para manter Couto à frente do governo até que a Corte decida o tipo de eleição que o Rio terá, o que trava a linha sucessória. O julgamento, no plenário da Corte, deve ocorrer no início de abril, depois da Semana Santa. Aliados de Paes desejam prolongar ainda mais a estadia de Couto:
— Para garantir moralidade e isenção, o presidente do TJ deveria ficar no governo até a eleição de outubro. O bolsonarismo é um obstáculo hoje a essa moralização do estado — diz o vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá.
Em outra ação para assumir a máquina, Ruas assegurou que concorrerá a governador na eleição-tampão exigida pela renúncia de Castro, prevista para o primeiro semestre. Se esse pleito for indireto, ou seja, realizado pela Alerj, Ruas poderia, caso eleito, ser efetivado governador no fim de abril. O PSD de Paes, porém, acionou o STF para que, a exemplo da de outubro, essa primeira disputa já ocorra de modo direto, sinalizando, inclusive, que o ex-prefeito poderia concorrer. Zanin e os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes já disseram ser favoráveis a esse formato.
Inauguração de obras
A legislação eleitoral permite inaugurações de obras até o dia 4 de julho, e Ruas pretende aproveitar um eventual período de governador-tampão para esse tipo de agenda — várias dessas obras estavam sob sua alçada até o início do mês, quando deixou a Secretaria estadual das Cidades. Há 20 dias, por exemplo, ele inaugurou um parque com 35 mil metros quadrados em São Gonçalo, na Região Metropolitana. O espaço é tido como um ativo político na cidade comandada pelo pai de Ruas, Capitão Nelson (PL), o terceiro maior colégio eleitoral fluminense.
Outra cartada prestes a ser entregue no município é a construção de um corredor de ônibus com 18 quilômetros de extensão. Nos últimos dias, Ruas também divulgou reuniões com prefeitos de cidades como Saquarema e Araruama, na Região dos Lagos, e Resende e Barra Mansa, no Sul Fluminense, para atualizar o estágio de obras de pavimentação e acenar com “mais projetos” nesses locais.
— É importante que alguém da base permaneça à frente do governo para manter o avião na rota, garantindo a governabilidade no período de transição de mandatos — sustenta o deputado estadual Fred Pacheco (PMN), um dos aliados de Castro e de Ruas na Alerj.
O calendário de inaugurações será prejudicado caso o STF determine a eleição-tampão direta — também chamada de “suplementar” — para substituir Castro. Neste caso, como toda a população vota, o prazo de organização é maior, e o primeiro turno tenderia a ficar para o fim de junho.
Ainda assim, a cadeira de governador oferece outros atrativos. A máquina inclui o comando das polícias Militar e Civil, em um ano eleitoral que tem a agenda de segurança pública como um de seus temas mais quentes. No fim de 2025, a megaoperação policial que deixou 122 mortos na capital, com alta aprovação popular, foi interpretada como a principal explicação para o salto de popularidade do então governador Cláudio Castro, algo que o animou a deixar o cargo antecipadamente para se candidatar ao Senado.
Além disso, o governo do Rio tenta tirar do papel ainda neste ano o “Programa Sentinela”, que prevê a aquisição de 200 mil câmeras de segurança, a um orçamento total de R$ 2 bilhões. A licitação seria um dos últimos atos da gestão Castro, mas acabou suspensa pelo TCE, que pediu esclarecimentos sobre a iniciativa.
Alta do petróleo
Paes, por sua vez, tenta emplacar a própria marca na segurança pública. Pouco antes de deixar a prefeitura, lançou a nova “Força Municipal”, uma divisão armada da Guarda Municipal, e vem usando suas redes sociais para divulgar a atuação dos agentes em apreensões de armas de fogo e prisões de assaltantes. Em estratégia similar à de Ruas, a prefeitura do Rio — agora a cargo do antigo vice Eduardo Cavaliere (PSD) — também lançou nova fase do programa “Asfalto Liso”, com gasto de R$ 315 milhões na região central e na Zona Sul.
A gestão estadual ainda tem pela frente um possível reforço nas receitas a reboque da alta do preço do petróleo, devido à guerra entre Estados Unidos e Irã. A estimativa da Agência Nacional de Petróleo (ANP) era de que o setor rendesse R$ 102 bilhões ao país neste ano em royalties e participações especiais, dos quais cerca de R$ 25 bilhões ficariam com o Rio, responsável pelos principais campos ativos no Brasil. O cálculo foi feito com o barril a um preço médio de 70 dólares, mas o valor disparou nas últimas semanas em meio ao conflito no Oriente Médio e hoje ultrapassa 100 dólares.
Um estudo da consultoria CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura) projeta que a arrecadação nacional com participações governamentais pode chegar a R$ 160 bilhões com o barril nesse patamar. Neste caso, mantida a proporção, o Rio receberia R$ 40 bilhões ao longo do ano, 65% a mais do que o arrecadado em 2025. Um efeito similar ocorreu em 2022, quando eclodiu a guerra entre Rússia e Ucrânia. À época, a receita do Rio com royalties e participações especiais foi de R$ 30 bilhões, um salto de 50% comparado ao ano anterior.
A capital também é beneficiada com a alta de preços, mas a gestão Paes sinalizou disposição, no início do ano, de abrir mão de parte dos royalties justamente em favor de São Gonçalo. O objetivo era uma costura em prol da campanha a governador, num momento no qual Ruas ainda não se colocava abertamente como candidato. Esse novo rateio aguarda uma decisão do STF, onde o acordo tramita.
Colaborou Mariana Muniz