Com a demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeará um sucessor que terá o desafio de enfrentar forte cobrança interna e de melhorar o relacionamento da pasta com o Congresso. Neste momento, a principal missão do núcleo político do petista é ter um nome que possa transformar em vitrine as ações de combate ao crime organizado, área considerada um ponto fraco do projeto de reeleição. Ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF), Lewandowski deixou o cargo após acumular desgastes com a Casa Civil e com a Secretaria de Comunicação Social (Secom), além de sofrer fogo amigo dos colegas de Esplanada.
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O agora ex-auxiliar de Lula abandonou o governo sem a aprovação da principal bandeira de sua gestão: a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, cuja tramitação pode atrasar devido à incerteza sobre o novo comando do ministério.
No Legislativo, as dúvidas são pertinentes, já que auxiliares de Lula nem sequer dão certeza sobre o possível desmembramento das áreas de Justiça e Segurança Pública — publicamente, o presidente disse que só faria esta mudança no caso de aprovação da PEC.
Interino assume
O que está acertado é que o secretário-executivo Manoel Carlos será nomeado ministro interino, até que o escolhido seja confirmado por Lula. Como informou O GLOBO, um dos favoritos para o posto é o advogado-geral da Petrobras, Wellington Cesar Lima e Silva. Ex-secretário de Assuntos Jurídicos (SAJ) da Casa Civil, Lima e Silva é descrito por diferentes auxiliares como uma pessoa da estrita confiança de Lula.
Parlamentares afirmam que a mudança na pasta desmonta a articulação política construída até aqui, além de abrir margem para mudanças no texto que desvirtuem os pontos principais da PEC da Segurança.
Apresentada pelo Executivo com o objetivo de reorganizar a política de segurança e fortalecer a integração entre União, estados e municípios, a PEC só começou a avançar no fim do ano passado, quando o debate passou a ficar cada vez mais contaminado pela disputa eleitoral. Neste contexto, até petistas reconhecem que a troca é “preocupante”.
— Acho preocupante, mas, ao mesmo tempo, penso que, de toda forma, a PEC sofre resistência do Congresso, independentemente de que ministro esteja de plantão. O Congresso, apelidado pelo povo de “inimigo do povo”, não quer segurança pública de verdade. Quer blindar-se. Quer proteger as grandes corporações. Quer enfraquecer a Polícia Federal — afirmou o deputado Reimont (PT-RJ).
Já o relator na Câmara, Mendonça Filho (União-PE), discorda.
— Creio que não vai atrapalhar a aprovação. Nossa previsão é que votaremos até a primeira quinzena de março — declarou.
Lewandowski assumiu em fevereiro de 2024 a pasta da Justiça para atender a uma convocação de Lula e ficou no cargo por quase dois anos.
Apesar da relação histórica que mantinha com o presidente, passou a ser obrigado, em muitos momentos, a se submeter à intermediação do chefe da Casa Civil, Rui Costa, a quem cabe gerenciar as ações do governo, para ter contato com Lula.
Em outubro de 2024, ele finalizou a elaboração da PEC, mas o texto ficou parado por meses na Casa Civil, que questionou pontos da proposta como, por exemplo, o empoderamento da Polícia Federal.
Lewandowski se mostrou mais contrariado, segundo integrantes do governo, quando surgiu a ideia de criar uma secretaria extraordinária vinculada à Casa Civil para concentrar as ações do governo na área da segurança pública.
A proposta, que foi apresentada pelo ministro da Secom, Sidônio Palmeira, seria uma resposta do governo à operação policial mais letal da história, que deixou 122 mortos no Rio no fim de outubro.
A ideia não foi aprovada por Lula, mas o ministro da Justiça entendeu que havia uma pressão interna para enfraquecer o seu ministério.
Durante uma reunião tensa em novembro, Lewandowski reagiu, dirigindo-se a Rui:
— Se quiser a segurança pública, pode ficar para você.
A saída começou a ser construída há pelo menos três meses. Em novembro, o então ministro havia sido chamado para uma reunião às pressas com Lula, em Belém, no barco onde o chefe do Planalto despachava durante a COP-30. O assunto eram as ações do governo na área da segurança.
— Percebi que o senhor quer um xerife na segurança pública. Acho que não tenho esse perfil — disse ele a Lula, colocando seu cargo à disposição do presidente, logo após o encontro.
Uma semana antes, a polícia do Rio havia realizado a megaoperação e integrantes do governo Lula vinham pressionando Lewandowski a propagandear mais as ações federais no estado.
Segundo pessoas que acompanharam as discussões, Lula teria respondido que não queria “um xerifão como Erasmo Dias na Segurança Pública” — uma referência ao coronel e ex-secretário de segurança de São Paulo da ditadura militar, que ganhou notoriedade por posar para fotos com pistolas e ter instituído prêmios a policiais que matavam bandidos.
Atuação nas redes sociais
Desde que tomou posse, Lewandowski deixou claro seu perfil “conciliador” e “discreto”, sem a disposição para enfrentamentos políticos. Mas, diante do ano eleitoral, Planalto e PT passaram a cobrar posicionamentos como os de Flávio Dino, o antecessor e hoje ministro do STF, conforme descreveu um integrante da pasta.
Havia uma orientação para que Lewandowski fosse às redes sociais, desse entrevistas e declarações públicas a cada operação da Polícia Federal. Ele, contudo, não se via como esse “garoto propaganda”. O agora ex-ministro nem sequer tem perfil na rede X.
Lewandowski, por outro lado, costumava destacar a seus interlocutores as boas relações que mantinha com políticos, empresários e magistrados. Uma das queixas dos petistas era que ele recebia mais gente da oposição.
Internamente, Lewandowski dizia que não se sentia “bem tratado” pelo governo e se sentia isolado nas articulações no Congresso. Um secretário próximo costumava dizer que a sua cadeira era como um “para-raio de problemas”. Por fim, a questão familiar também pesou para a saída, conforme ficou explicitado na sua carta de demissão entregue a Lula — havia a pressão para que ele passasse mais tempo com os filhos e netos, em especial pela iminência de novos embates neste ano eleitoral.
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