O ministro das Cidades, Jader Filho (MDB), afirma ter “sinceras dúvidas” quanto à viabilidade econômica da tarifa zero no transporte público em escala nacional, apesar de o governo ter passado a defender estudos sobre o tema, em um ensaio para a campanha eleitoral de 2026. O ministro defende que a discussão ocorra de forma articulada entre União, estados e municípios, e não como uma política imposta “de cima para baixo”.
- Barroso vota pela descriminalização do aborto: 'Deve ser tratado como uma questão de saúde pública'
- Sem aval de Alcolumbre: Projeto da dosimetria completa um mês parado na Câmara sem previsão de votação
O ministro Fernando Haddad disse que a Fazenda estuda a tarifa zero no transporte público, tema que o governo vai tentar emplacar como bandeira eleitoral. É viável?
O presidente (Lula) comentou na reunião ministerial que teria endereçado ao ministro Haddad um estudo. No Ministério das Cidades, a gente já vem discutindo as alternativas de subsídio. Estamos preparados para levar os dados quando formos chamados.
Os dados mostram que a tarifa zero é viável no Brasil?
Precisa ser feita uma grande discussão nacional sobre a tarifa de transporte. Em diversas cidades, o transporte público é um dos grandes problemas sociais. Mas essa discussão tem que ser feita nos três níveis: federal, estadual e municipal. Confesso que tenho sinceras dúvidas se o caminho correto é a tarifa zero.
Há cerca de 120 cidades com algum tipo de tarifa zero, a maioria de médio ou grande porte. Seria possível estender o modelo para cidades menores?
Não. O assunto é muito mais complexo do que discutir “sim” ou “não” à tarifa zero. Determinados municípios têm capacidade de bancar. Em outros, a frota média tem idade maior do que dez anos, apesar de o Código de Trânsito proibir. É disso que a gente está falando.
Estimativas privadas apontam um custo de dezenas de bilhões por ano. Qual a estimativa do ministério?
Na hora que formos chamados, nós temos isso. Mas para quem fala de ajuste fiscal, corte de gastos… Temos que entender a realidade estado por estado, chamar os prefeitos... É muito complexo tomar uma decisão única e isso servir de cima para baixo. Não dá para ser assim, porque o serviço é municipal. O governo federal, no máximo, pode induzir.
A discussão vai se estender além deste mandato?
Provavelmente. Temos conhecimento disso a partir do estudo que está sendo feito pela Fazenda. Depois que nos for apresentado, se for, eu vou poder responder.
Os programas habitacionais e a reforma do Imposto de Renda são as principais bases da campanha à reeleição?
O papel do governo é resolver os problemas. Tem déficit habitacional, famílias que precisam ter um banheiro... Tem um problema grave econômico, que é a taxa de juros elevada, que não permite que uma parcela importante da sociedade obtenha financiamento. O Imposto de Renda foi uma plataforma eleitoral, e o presidente tinha que honrar. Mas passou apenas uma parte, né?
Como assim?
Houve votos do MDB na votação que fez com que a MP perdesse a validade.
O MDB sempre teve suas posições regionais e muito respeito às lideranças locais. Isso não vai mudar. Agora, como cidadão, não vejo nenhuma pessoa de bem que não se indigne com isso.
O governo demitiu indicados de parlamentares que votaram contra a MP. O que acha?
Tem que analisar caso a caso. Quem é o padrinho? A ministra Gleisi (Hoffmann) é muito experiente e tem compromisso com o sucesso do governo. As decisões que ela vai tomar serão acertadas.
O MDB vai apoiar a reeleição?
Se depender de mim, o MDB apoia o presidente Lula desde a primeira hora.
O partido está dividido...
Quando a gente não resolve na conversa, resolve no voto na convenção (partidária).
Uma possibilidade é o MDB ficar com a vice-presidência?
O presidente Lula tem um vice. O (Geraldo) Alckmin tem demonstrado grande valor, sido muito leal e tem papel fundamental no tarifaço. É um grande vice-presidente e deveria ser mantido.
Vai se candidatar em 2026?
Existe essa possibilidade, mas tenho compromissos que precisam ser finalizados, como atingir a meta de dois milhões de casas entregues até dezembro. Se as coisas estiverem organizadas, serei candidato a deputado federal.
A COP30 ainda tem uma série de obras em andamento e já houve críticas às dificuldades de infraestrutura em Belém. O evento preocupa?
Não, a COP vai ser um sucesso. As obras centrais foram todas entregues. Está na fase final a parte vinculada à ONU, que está fazendo os galpões onde vão acontecer as reuniões.
O governo anunciou um novo modelo de financiamento da habitação. Quantas pessoas serão beneficiadas?
As classes mais altas não se importam de pagar os juros de mercado, mas tem uma classe no meio, a professora, o operário, que não tem condições de pagar a taxa de mercado no financiamento. Conseguimos ampliar o Minha Casa Minha Vida para até R$ 12 mil. Mesmo assim, tinha uma faixa que continuava desassistida. Foi lançado esse programa em que conseguimos limitar os juros a até 12% nos financiamentos de até R$ 2,25 milhões (na parcela de 80% direcionada ao Sistema Financeiro de Habitação). Se nós inserirmos 80 mil famílias, já não será uma grande vitória? Esse é só o escopo da Caixa.
O modelo visa incentivar que os bancos usem outros recursos, mas o montante principal ainda vem da poupança, que está minguando. Não há outra alternativa?
O que estamos fazendo é um processo de transição, um dos pedidos feitos pelos setores bancário e da construção civil. O que não dá é continuar do jeito que está. O governo tem que ter compromisso e nós não podemos fazer um processo de segregação e seleção de quem pode conseguir o financiamento da casa própria e de outras pessoas que não podem. Ninguém pode ficar para trás.
O presidente Lula foi muito crítico à gestão anterior do Banco Central devido à alta taxa de juros. Por que essa postura arrefeceu na nova gestão, mesmo com o aumento da Selic?
O presidente continua com a mesma opinião em relação à taxa de juros. Não mudou absolutamente nada na opinião dele. Não está nem um pouco confortável com essa taxa.