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'Esquerda errou ao não ouvir trabalhadores de app', diz Boulos, novo ministro de Lula, em entrevista

'Esquerda errou ao não ouvir trabalhadores de app', diz Boulos, novo ministro de Lula, em entrevista

De capacete e colete, representantes de entregadores por aplicativo se aglomeravam na porta da Secretaria-Geral da Presidência, no quarto andar do Palácio do Planalto, na quinta-feira. Empossado na véspera, o ministro Guilherme Boulos deixou o gabinete e cumprimentou um a um, numa de suas primeiras reuniões de trabalho. O ex-líder sem-teto avalia que a esquerda errou ao colocar o que quer para a categoria sem ouvi-la e defende a aproximação para que a promessa de Lula de regulamentar esse tipo de trabalho seja cumprida. Em entrevista ao GLOBO, ele também defendeu que a esquerda “destrave” a relação com os evangélicos.

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O senhor terá pouco mais de um ano como ministro. O que vai ser possível entregar?

A primeira missão dada pelo presidente é rodar o Brasil. Vou para todos os estados até maio. Conversar com os movimentos sociais e os setores com os quais às vezes temos dificuldade de dialogar. Ao mesmo tempo, levar o que o governo tem feito. Também vou constituir grupos de trabalho com trabalhadores de aplicativo e outro com pequenos empreendedores. A ideia é construir soluções para um setor que em geral está na informalidade e que às vezes tem um grau de resistência às políticas do governo. A classe trabalhadora mudou.

O projeto enviado pelo governo em 2024 já trazia ideias que o senhor tem para os trabalhadores de aplicativos e ficou emperrado no Congresso. Por que andaria agora?

Tem diferenças. O trabalho daquela primeira iniciativa do governo foi muito importante. Os trabalhadores querem uma garantia, mas a remuneração mínima tem um peso maior para eles. Por que as plataformas ficam com uma fatia tão relevante de cada viagem? Só pela intermediação tecnológica? Isso precisa ser regulamentado. Sobre a Previdência, a extrema direita insistiu que significaria taxar o trabalhador pela contribuição. Isso gerou ruído e ajudou a travar o projeto. A esquerda errou muitas vezes — e aqui não é o governo — porque sempre colocou o que quer para os trabalhadores dessas novas formas de trabalho. Poucas vezes parou para ouvir o que eles querem.

Rodar o país não pode ser visto como uso da máquina para turbinar a campanha à reeleição?

Diálogo com a população não pode ser só de quatro em quatro anos apertando um botão na urna. Isso é uma democracia limitada. Esse tipo de crítica só viria de alguém que não reconhece a legitimidade e a importância da participação popular e da escuta das pessoas no governo federal.

O senhor citou os evangélicos no discurso de posse. Vai ajudar na interlocução?

Quero dialogar com evangélicos, católicos, gente de todas as religiões. Se o presidente me der essa atribuição, farei com gosto. Venho de um movimento social, os sem-teto, que tem pastores na coordenação e a maior parte da base social evangélica. Eles estão concentrados nas periferias e se beneficiam com políticas do governo. Muitas vezes, esse diálogo está truncado. É essencial para o futuro das ideias progressistas no Brasil destravar a conexão com milhões de evangélicos nas periferias.

Sua chegada representa uma guinada do governo à esquerda?

Quem teve 60 milhões de votos para conduzir o governo é o presidente Lula. Ele vai definir a minha atuação. Há um equilíbrio na frente que ajudou a elegê-lo. Eu não ouvia que o governo estava dando um giro à direita quando partidos de centro-direita indicaram ministros para a composição da governabilidade. Da mesma forma, não se trata disso quando são figuras mais identificadas com a esquerda.

O correto é baixar a temperatura da polarização ou enfrentá-la?

A questão não é gostar ou não da polarização. Ela está aí. Olha o desaguar melancólico do PSDB. E todos os partidos que tiveram uma posição mais em cima do muro na polarização estão definhando no mundo inteiro.

O senhor disse que o governador Cláudio Castro fez pirotecnia com sangue na operação do Rio. Isso não acirra os ânimos entre o Planalto e o governo estadual, no momento em que a população espera solução?

O que acirra é o governador, depois de fazer uma operação sem pedir ajuda, querer jogar a conta no governo federal. A PEC da Segurança Pública foi enviada ao Congresso há meses, e o Cláudio Castro foi contra. Uma coisa é ter relação institucional, outra é apanhar calado. Cada ataque vai ter resposta.

A Câmara aprovou uma proposta para recompor parte do Orçamento, mas o PSOL foi contra. O seu partido é contrário à agenda do ministro da Fazenda, Fernando Haddad?

O PSOL não é contrário à agenda do ministro da Fazenda. O partido apoiou a MP alternativa ao IOF, que foi derrotada pela direita no Congresso, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a tributação de super-ricos. Não estou mais na bancada nem respondo por ela. Essa votação, inclusive, foi no dia da minha posse. Estava trabalhando na transição.

O senhor defende o fim da escala 6x1, mas o governo não faz nenhum movimento favorável no Congresso. Há uma contradição?

O governo fez movimentos, mas não comanda o Congresso. O projeto do Imposto de Renda, que era mais consensual, ficou seis meses parado na gaveta... Eu estava lá (no Congresso) até a semana passada, as coisas não são fáceis. A posição do presidente Lula é pelo fim da escala 6x1 e vamos intensificar o trabalho para que avance no Legislativo.

Muita gente vê o senhor como sucessor do presidente Lula no futuro. Está nos planos?

Acho muitas vezes até desrespeitoso a forma como se coloca esse debate. Ele é presidente do Brasil pela terceira vez e será eleito novamente no ano que vem. Fazer um debate sobre sucessão é extemporâneo.

Está fora de cogitação o senhor se candidatar em São Paulo em 2026?

A minha perspectiva é ficar no governo até o final. Se eu tiver que me desincompatibilizar para ser candidato, não vou ter nem seis meses de trabalho. Agora, o debate eleitoral vai ser feito no ano que vem, e sei da minha responsabilidade para ajudar a construir o palanque de São Paulo.

O presidente Lula indicou dois homens para o Supremo Tribunal Federal (STF) e deve indicar o terceiro. Ele está certo em colocar em segundo plano a agenda identitária?

O dia que eu tiver 60 milhões de votos, posso comentar. Isso é prerrogativa presidencial. Mas é importante dizer: Lula é o presidente que mais indicou mulheres e pessoas negras no Judiciário. Não estou justificando o passivo histórico que temos em relação à sub-representação de mulheres e negros nas instituições. Isso tem que ser enfrentado. Mas não se pode botar este passivo na conta de Lula, que foi quem mais fez para diminuí-lo.