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Esquerda recua e evita defesa de Maduro após críticas nas redes e embaraços em eleições recentes

Esquerda recua e evita defesa de Maduro após críticas nas redes e embaraços em eleições recentes

Explorada pela oposição nos últimos dias, na esteira do ataque dos Estados Unidos, a relação entre a esquerda brasileira e o venezuelano Nicolás Maduro é marcada pelo alinhamento até 2023 — o que rendeu acusações de adversários em eleições, incluindo a última presidencial —, mas vivenciou um distanciamento de lá para cá. No terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dois episódios ilustram a inflexão: depois de receber o líder no Palácio do Planalto, o presidente não reconheceu o resultado da última disputa venezuelana, realizada em julho de 2024 sob acusações de fraude.

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Nos últimos dias, os posicionamentos do governo, do PT e de outras lideranças do campo político se concentraram sobretudo na condenação do ataque, que não encontra amparo na legislação internacional, do que na defesa do regime chavista. Como mostrou o GLOBO de segunda-feira, a orientação é reforçar o mote da soberania, bem-sucedido na época do tarifaço americano contra o Brasil. Segundo um auxiliar de Lula, não haverá defesa de Maduro. É a vacina aplicada para se prevenir de críticas que tendem a se intensificar na próxima campanha.

— A ideia de soberania unifica o país, o eleitorado, é algo que vai além da esquerda. Me parece que a estratégia do Lula vai ser essa, contra qualquer agressão e sem entrar no mérito da Venezuela — avalia o cientista político Josué Medeiros, professor da UFRJ.

Levantamento da consultoria Ativaweb sobre a repercussão do ataque americano apontou menções positivas à prisão na maioria das postagens nas principais redes sociais. No Brasil, foram identificadas 2,7 milhões de menções à captura. Delas, ao menos 56% são favoráveis à prisão, o dobro das 28% contrárias — os números podem variar para 62% e 20%, respectivamente, de acordo com a margem da pesquisa. Outras 16% são consideradas neutras. Apesar do termômetro das redes, contudo, ainda não há uma pesquisa que meça a opinião da sociedade brasileira sobre o caso.

Reação — Foto: Editoria de Arte
Reação — Foto: Editoria de Arte

Ação contra Nikolas

A estratégia do PT ocorre em um momento em que a oposição volta a usar o tema para atacar Lula e o partido, o que também tem motivado reação da esquerda na Justiça. O vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (PSD), por exemplo, se referiu na segunda-feira à sigla como um partido “narcoafetivo” ao comentar a operação dos EUA. Na mesma linha, o deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) publicou um vídeo em que associou o PT ao narcotráfico, o que levou a legenda a entrar com uma ação judicial por dano moral.

Em outra frente, representantes do PSOL acionaram a Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) após ele sugerir a captura de Lula pelos EUA nas redes. O argumento é de que o deputado “atenta diretamente contra a soberania nacional e a integridade das instituições democráticas brasileiras”, ao compartilhar uma montagem na qual o petista aparece sendo preso por agentes americanos, em uma mimetização da foto da detenção de Maduro.

Imagens antigas de Lula também voltaram a circular. Em 2013, o então ex-presidente brasileiro chegou a gravar um vídeo de apoio à candidatura de Maduro, que chegou ao poder naquele ano ao suceder o falecido Hugo Chávez, aliado de primeira hora do petista.

“Maduro presidente é a Venezuela que Chávez sonhou”, afirma Lula na peça enviada à campanha e que foi resgatada pela direita nos últimos dias para atacar o petista.

Naquela época, entretanto, eram reduzidas as suspeitas de fraude no país vizinho. Com o governo estabelecido, as acusações se intensificaram. A partir de 2014, quando o cerceamento à atuação de opositores na Venezuela ganhou tração, adversários do PT passaram a explorar com frequência o que consideravam uma “posição passiva” do Planalto em relação ao país, nas palavras do então senador e presidenciável do PSDB naquele ano, o mineiro Aécio Neves.

As defesas que Lula fez de Maduro dali em diante variaram. Em um dos casos, fora da Presidência, comentou as ameaças de Trump feitas ainda no primeiro mandato do republicano, em 2017.

— O “Seu Trump” precisa aprender que a gente não resolve conflitos políticos com armas, mas com diálogo, conversa, acordos. Se ele não sabe fazer, nós aqui na América Latina podemos ensinar — disse, quando o americano já indicava anseios intervencionistas. — A gente não pode permitir que, qualquer que seja o erro que o Maduro tenha cometido ou que venha a cometer, permita que um presidente americano diga que vai utilizar a força para poder derrubá-lo.

O momento de maior controvérsia, no entanto, se deu em 2023, já neste mandato e com Maduro considerado ditador por diversos observadores internacionais. O venezuelano foi recebido no Planalto, e Lula disse que havia sido construída uma “narrativa” contra o regime chavista. A reunião bilateral, que marcou a retomada das relações entre os países após o rompimento no governo Bolsonaro, foi criticada não só pela oposição, mas por aliados regionais, como o chileno Gabriel Boric.

O cenário mudou em julho de 2024, quando Maduro conseguiu um novo mandato amplamente contestado pela comunidade internacional e descumpriu acordos que buscavam dar transparência ao processo eleitoral.

— No caso do Lula, a relação ficou rompida porque o Brasil mediou um acordo entre Maduro e a oposição antes das eleições, e nessa reunião acertaram o procedimento da entrega das atas de votação após a eleição, mas o Maduro descumpriu. Para Lula, isso foi muito grave — avalia Josué Medeiros.

Em relação à esquerda como um todo, a postura também mudou. A nota do PT em repúdio ao ataque dos Estados Unidos é concentrada na intervenção em si, alinhada com o posicionamento de Lula. Fala no compromisso com “soluções construídas no âmbito de organizações multilaterais, em especial a Organização das Nações Unidas”, e reitera que “ a soberania dos povos, a solução pacífica das controvérsias e o respeito ao direito internacional constituem princípios centrais da política externa do Partido dos Trabalhadores”.

Impacto em SP

Mesmo nas eleições municipais, a relação entre esquerda e Venezuela foi pedra no sapato. As críticas levaram a uma inflexão na postura do então candidato à prefeitura de São Paulo e hoje ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL).

— Um regime que persegue opositor, um regime que faz eleição sem transparência, para mim, não é democrático — disse na campanha, a fim de deixar no passado as defesas que fez de Maduro e que continuavam sendo usadas eleitoralmente. — É um regime ditatorial.

A postura contrasta com o histórico da esquerda. Depois da eleição legislativa venezuelana de 2020, boicotada por opositores, a nota do PT exaltou o pleito como “uma grande manifestação da vontade popular no processo de transformação política, social e econômica daquele país ao longo das duas últimas décadas”. O texto era assinado pela então presidente do partido e hoje ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e pelo secretário de Relações Internacionais da sigla, Romênio Pereira.

No ano anterior, depois da contestada reeleição de Maduro em 2018, Gleisi havia comparecido à posse do presidente venezuelano, em contraponto à ausência oficial do governo Bolsonaro na cerimônia. Ela evitou entrar no “mérito” das acusações contra o regime e disse que não cabia ao partido analisar uma vitória que se deu “dentro do marco constitucional” do país. Bolsonaro, inclusive, associou o PT à Venezuela em campanhas. No debate da Bandeirantes de 2022, por exemplo, mencionou o país:

— Quem o ex-presidiário apoiou no passado? Apoiou Chávez, apoiou Maduro. Para onde foi a Venezuela? — questionou o então presidente.

Venezuela como arma eleitoral

  • 2014: críticas à postura

Antes mesmo da eleição de 2014, a oposição começou a martelar críticas ao PT por causa da relação com o chavismo. No Senado, o então presidenciável do PSDB, Aécio Neves, acusou o governo Dilma de ter uma postura “passiva” em relação ao cerceamento a opositores no país caribenho. Aquele ano marcou a intensificação das suspeitas envolvendo Maduro.

  • 2018 e 2022: auge com Bolsonaro

Jair Bolsonaro usou a Venezuela como bandeira política em vários momentos da carreira. Em 2022, nas considerações finais do debate da Bandeirantes, mencionou o país para dizer que o “ex-presidiário”, como se referia a Lula, defendia Chávez e Maduro. Ele acabaria derrotado nas urnas e preso por tentativa de golpe no Brasil.

  • 2024: pauta até em eleição municipal

Além de campanhas presidenciais, o tema Venezuela apareceu em disputas locais. Antigo defensor do chavismo, o agora ministro Guilherme Boulos precisou repudiá-lo em 2024, quando concorria à prefeitura de São Paulo. Classificou o governo como ditatorial e disse que ele “persegue opositores” e faz eleições “sem transparência”.

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