O PT anunciou, nesta quinta-feira, 19, a pré-candidatura do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao governo do estado de São Paulo. O partido repete, assim, a estratégia adotada há quatro anos, quando o político chegou ao segundo turno, mas foi derrotado pelo atual ocupante do cargo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A confirmação ocorreu por meio de pronunciamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo.
Lula fez um relato do modo como convenceu Haddad a entrar na disputa:
— Eu tive uma conversa com Haddad e disse o seguinte: a situação política do Brasil e do mundo é tão grave que se a gente não pegar as melhores pessoas que a gente tem em cada estado e fazer a luta pela democracia, corremos o risco de entregar mais uma vez a democracia na mão dos fascistas que fizeram um estrago tão grande — disse ele.
O anúncio era esperado desde semana passada e se concretizou após duas agendas de uma comitiva do governo federal no estado — uma caravana com prefeitos, pela manhã, e uma homenagem ao ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, no final da tarde. No sindicato, à noite, Lula e Haddad falam à militância em um local simbólico, onde o líder petista iniciou a sua trajetória política como dirigente da categoria e organizou greves de operários que dariam origem ao PT.
O evento teve a presença dos ministros Luiz Marinho (Trabalho), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral), Camilo Santana (Educação) e Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar), além do vice-presidente Geraldo Alckmin e parlamentares e aliados.
Haddad alegou que entra na disputa para ganhar e que foi escolhido dentro de um debate sobre o “melhor arranjo para apresentar a São Paulo, com as melhores chances de vitória e de transformação do nosso estado”.
— Não disputo eleição para barganhar qualquer coisa que seja, eu disputo eleição para ganhar. A vitória política é sempre possível, basta você se apresentar de cara limpa, com um bom projeto, que vai angariar apoio, crescer e despertar as pessoas. Vamos ter um debate duro pela frente, mas que pode resultar nesse despertar tão importante para o povo paulista — afirmou o pré-candidato.
Ele também rejeitou a afirmação de que estaria indo “para o sacrifício” ao ir às urnas:
— Eu não aceito viver em um país tão desigual. Dedicar uma parte da minha vida a essa causa jamais será visto por mim como um sacrifício. Quando vejo notícia que o Haddad está indo para o sacrifício, eu digo que essa pessoa não sentou comigo para tomar um chope — disse.

Lula falou logo após o agora candidato:
— Haddad vai ser o futuro governador de São Paulo. Ele está muito mais do que preparado para isso, ele é o ministro da Fazenda mais exitoso que esse país já teve. Obviamente que não conseguimos tudo o que a gente queria, mas não é assim que a gente faz política. Precisamos fazer uma avaliação do mundo que temos e aquilo que conquistamos frente ao que encontramos — declarou Lula.
— A gente nunca consegue 100% do que a gente quer, mas se medir o que conseguimos, a gente vai perceber que o que o Haddad conseguiu com a Câmara e o Senado está acima da média. Chegou a quase 80% de vitória, e não é pouca coisa. Temos o menor desemprego da história do país, o aumento da massa salarial, aprovamos a isenção do IR. Mas o povo quer mais, porque o povo está mais endividado e o padrão de consumo da sociedade também mudou — completou.
Haddad tem pela frente agora o desafio de reverter o favoritismo de Tarcísio nas pesquisas eleitorais e também de oferecer um palanque competitivo para o presidente Lula na eleição presidencial, em que o senador Flávio Bolsonaro (PL), do Rio de Janeiro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, aparece como principal adversário. São Paulo concentra mais de 20% dos eleitores do país.
O ministro da Fazenda resistiu por meses a aceitar a tarefa, mas recebeu um pedido direto do presidente e foi convencido de que sua participação no pleito era necessária. Aliados alegam que o receio não era de perder novamente nas urnas, o que representaria a quarta derrota eleitoral consecutiva, e sim por estar inserido hoje em uma agenda de pautas nacionais, em que se vislumbra, inclusive, uma possível sucessão em 2030.
Pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 3 e 5 de março, selou entre as lideranças o diagnóstico de que ele seria o candidato ideal, em vez do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) ou dos ministros do Empreendedorismo, Márcio França (PSB), e do Planejamento, Simone Tebet (MDB). Ele foi o candidato lulista que melhor pontuou nas simulações de primeiro turno, com 31% das intenções de voto, contra 44% de Tarcísio.
A tendência é que Alckmin participe ativamente da campanha do aliado, como ocorreu na eleição passada, mas não seja candidato em São Paulo, mantendo o posto de vice na chapa de Lula. O político já exerceu quatro mandatos como governador quando estava no PSDB. Devido a esse fato, costuma ter melhor entrada entre eleitores conservadores e com gestores municipais do que o PT.
Tebet pretende disputar o Senado, trocando o domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul para São Paulo, enquanto França e Marina Silva (Rede), ministra do Meio Ambiente, são alternativas para compor com Haddad na vice da chapa. Em 2022, o posto foi ocupado por Lúcia França, esposa do ministro do PSB, que agora não demonstra entusiasmo com a ideia depois de ser preterido por Lula.
— O Haddad vai ganhar essa eleição, e contem conosco para a gente percorrer a geografia de São Paulo — declarou Alckmin. — Ele vai apresentar a melhor plataforma, o melhor programa, para a gente sair da inércia hoje em São Paulo, num projeto humanista, com alma, em benefício da nossa população.
A estratégia do PT passa por martelar, na campanha paulista, dados econômicos favoráveis, como a queda da taxa de desemprego, o crescimento da renda salarial média e o controle da inflação, além de medidas de iniciativa do Executivo aprovadas no Congresso, como a isenção de Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês e a reforma tributária.
— Estamos apresentando para fazer esse debate de estado um quadro preparado, um professor, um educador, que também se mostrou um líder capaz de fazer as mudanças que a economia brasileira tanto precisava — afirmou o presidente nacional do PT, Edinho Silva.
Mas Haddad também precisará desgastar o governo Tarcísio para tentar sair vitorioso nas urnas ou, ao menos, garantir uma segunda rodada. Discursos durante a 17ª Caravana Federativa, pela manhã, deram o tom de pautas locais que devem ser exploradas na campanha. Ao se dirigir para uma plateia de prefeitos, Lula criticou a relação conflituosa do governador com prefeitos paulistas.
Outros temas, como a privatização da Sabesp e a disputa de "paternidade" por obras executadas no estado, mas que contam com recursos da União, também devem marcar a campanha em São Paulo.
Tarcísio, da mesma forma, tem se mostrado disposto a aceitar a nacionalização da disputa e ensaia críticas diretas à gestão econômica de Haddad sob o mantra de que o ministro “contratou uma crise fiscal” para o futuro ao gastar demais e “criou um imposto a cada 30 dias”. Sobre esse ponto, o ministro rebate dizendo que inverteu a lógica de tributação ao cobrar dos mais ricos, em vez da “base da pirâmide”.
Haddad pretende se afastar de agendas públicas nos próximos dias antes de se dedicar à pré-campanha. Seu primeiro desafio passa pela montagem da chapa, algo discutido num jantar ontem à noite, segundo o ex-ministro José Dirceu. Uma ala defende uma escolha estratégica na vice, privilegiando o diálogo com o interior.
Na Fazenda, Haddad será substituído pelo secretário-executivo Dario Durigan, que exerce a função desde junho de 2023. Internamente, sua atuação como número dois da pasta é elogiada em matérias como a reforma tributária e o pacote fiscal. Um dos primeiros desafios do novo ministro será ajudar a conter uma greve de caminhoneiros em razão da alta no preço dos combustíveis.
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