Pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), que deixou o Ministério da Fazenda nesta sexta-feira (20), afirmou que vai começar a conversar com integrantes do PT e de outros partidos aliados nas próximas semanas para definir quem será seu vice e quem concorrerá para o Senado, mas disse ser “natural” que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) siga no cargo na chapa à reeleição do presidente Lula (PT).
Na noite desta quinta (19), Haddad oficializou sua pré-candidatura ao governo paulista e, na ocasião, Lula deixou em aberto o destino de Alckmin, sugerindo que ele poderia compor a chapa de Haddad em São Paulo como candidato ao Senado.
— É natural que o Alckmin seja o vice, todos nós estamos muito confortáveis com a solução que foi dada em 2022 da qual eu participei intensamente, eu sou a pessoa mais entusiasta do fato de que os dois compõem uma chapa muito importante para o Brasil. Mas eu quero ouvir a opinião do governador Alckmin sobre as nossas chances aqui e qual é a melhor composição para lograrmos êxito — disse, em café com jornalistas na manhã desta sexta em um hotel no bairro de Higienópolis, zona Oeste de São Paulo.
O pré-candidato disse não ter “preconceito” com apoio de partidos conservadores e que espera ao menos manter a mesma coalizão que teve em 2022, quando também foi candidato ao governo de São Paulo com o apoio de PSB, PSOL, Rede e Agir, além do PCdoB e PV, que fazem parte da federação com o PT. No estado, alguns partidos do Centrão que integram o governo Lula devem apoiar Tarcísio de Freitas (Republicanos), como o União Brasil, o PSD e o MDB.
— Estou começando a estudar esse quadro mais detidamente, mas penso que no mínimo vamos ter a coalizão que tivemos em 2022. Eu estou trabalhando com esse cenário, é daí para mais. Mas se ficar nisso, vou ficar muito confortável — afirmou. — Não tenho nenhum preconceito contra apoio de partidos conservadores, mas de princípios e valores não se abre mão. Eu aceitei de bom grado o apoio do PP em 2012, e foi decisivo para mim. Mas não abri mão de nenhum princípio ou valor. Apoios e sugestões são bem-vindos, respeitado o plano geral que nós vamos elaborar para o estado e não tenho nenhuma dificuldade de conversar.
Além de Alckmin, Haddad disse que vai conversar com os ministros Márcio França (PSB), Marina Silva (Rede), Guilherme Boulos (PSOL), e os deputados Tabata Amaral (PSB), Erika Hilton (PSOL-SP) e Caio França (PSB) nos próximos dias para tentar chegar a um consenso.
— Eu evitei conversar com as demais forças políticas do nosso campo até consolidar, junto ao presidente, essa pré-candidatura. Teria sido um erro e muito inapropriado colocar a carroça na frente dos bois — afirmou, acrescentando que não é possível definir um “perfil ideal” de vice pois precisa se basear nas “possibilidades concretas” e no que “tem na mão”.
Neste momento, a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), é o nome confirmado para concorrer ao Senado na chapa da esquerda, mas os outros cargos ainda estão em aberto. A ministra, entretanto, deverá trocar de partido para concretizar a candidatura, e seu destino mais provável é o PSB.
Eleger maioria no Senado Federal é uma das prioridades do PT neste ano, junto com a reeleição de Lula, sob o argumento de que isso permitiria aprovar projetos e reformas com mais facilidade no Legislativo em um eventual novo governo do petista. A esquerda também visa fazer frente à direita, cujas lideranças têm destacado a importância de eleger mais representantes na Casa para poderem encaminhar pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
— Não teremos dificuldade de apresentar uma chapa bonita, que encha os olhos, que anime as pessoas. A posição que cada um vai ocupar vamos ver nas negociações, não só o cargo de vice, mas os dois senadores são muito importantes para nós. Tudo é importante, mas um senador não é menos que um vice-governador. Hoje, São Paulo nem tem senador, o que representam os atuais senadores de São Paulo? Não têm projeto, não têm presença no Senado Federal. Temos que qualificar — disse.
Indagado sobre um possível “desânimo” para concorrer ao governo de São Paulo, já que passou meses resistindo ao projeto até ser enfim convencido pelo presidente Lula, Haddad lembrou que Tarcísio cogitou concorrer ao Senado por Goiás em 2022, e que só decidiu disputar o governo paulista após ser convencido por Jair Bolsonaro (PL). Ele criticou falas de aliados de Tarcísio que apontaram que Tebet não poderia concorrer ao Senado em São Paulo por ser do Mato Grosso do Sul.
— Depois de três anos e meio, você pode entender que a sua melhor colaboração seja na coordenação de um plano de governo, como eu entendia. Tudo isso pesado, a gente teve várias conversas e chegamos à conclusão de que a minha vinda para a disputa em SP era mais importante — disse. — O próprio Tarcísio, eu me lembro o tempo que levou para ele (Tarcísio) abandonar o desejo de ser senador por Goiás. Ele não tem familiaridade até hoje com o estado de São Paulo. A Tebet tem muito mais raízes em São Paulo do que o Tarcísio.
Críticas a Tarcísio
Haddad adiantou que pretende fazer uma campanha “programática” e de “alto nível”, mas disse estar preocupado com as finanças do estado e com os índices da educação estadual. Nessa toada, ele pretende usar suas experiências como titular da Fazenda e do Ministério da Educação para trazer o tema à tona. A segurança pública também foi citada por ele como tema relevante de discussão no estado.
— Vamos discutir finanças, como estão as finanças do estado e da prefeitura, como eu recebi o país, e o que aconteceu com o país. Nunca a União investiu tanto aqui quanto está investindo agora, e nem assim está ajudando. Comparando com o governo Bolsonaro, o que se fez com o governo Lula, de orçamento da União, financiamentos, aval do Tesouro, BNDES, comparem os três anos do governo Bolsonaro com o governo atual — falou.
Segundo Haddad, há “muitas vulnerabilidades”, e ele ainda citou o crescimento do feminicídio no estado, que chegou ao número recorde em 2025, com 266 casos, um aumento de 8,1% em comparação com o ano anterior.
— Eu tenho visto muitas vulnerabilidades, uma falta de encantamento com o destino do estado e com a própria gestão, áreas problemáticas demais que não avançaram, algumas retrocederam. Eu vou me basear sempre em dados para fazer um diagnóstico do que o estado está perdendo, e superar as suas dificuldades na área de segurança, educação, que é uma área com a qual estou muito preocupado, é uma das áreas mais frágeis — acrescentou.
Haddad repetiu um discurso feito por Lula nesta quinta, durante o evento Caravana Federativa, direcionado a prefeitos e vice-prefeitos, sobre os investimentos federais feitos no estado de São Paulo, e afirmou que muitas vezes esse tipo de informação “não chega ao eleitorado”.
— A gente faz um investimento e não aparece. Tem obras que metade é Orçamento Geral da União, metade é financiamento, ou seja, o dinheiro todo é do governo federal. Então é importante informar. Eu penso que isso não desmerece uma eleição, mas enaltece quando você faz a informação fiel chegar ao eleitor. Eu acredito que 50% do investimento do estado de SP tem participação federal — afirmou.
Além das conversas sobre a composição da chapa, Haddad deve se concentrar na construção do plano de governo nos próximos meses, e disse que ouvirá integrantes da classe política, gestores, ambientalistas, pesquisadores, universitários, entre outros setores para definir as prioridades.
Apesar de criticar os rumos do governo Tarcísio e dizer que “não teria privatizado a Sabesp”, por exemplo, o ex-ministro da Fazenda afirmou que vai “respeitar contratos” firmados pela atual gestão caso seja eleito governador. Uma das principais bandeiras do governo Tarcísio são as privatizações e concessões, que passam desde a companhia de saneamento até linhas de metrô, obras viárias, gestão de escolas e o Novo Centro Administrativo.
— Os governos do PT respeitam contratos porque entendemos que o desrespeito ao contrato acaba trazendo muito mais prejuízos. Aqui, um governo de direita erra e a gente conserta, respeitando os contratos, levando em consideração que aquela decisão produziu efeitos jurídicos. Nós fazemos valer a nossa opinião, mas respeitamos o ato jurídico perfeito — explicou.
- Fernando Haddad