O influenciador Pablo Marçal se filiou, nesta sexta-feira (6), ao União Brasil. Em seu primeiro discurso no partido, Marçal pregou a "união", disse que está no partido "para servir" e evitou falar em cargos específicos que quer disputar, acenou aos seus eleitores da eleição municipal para a prefeitura de São Paulo em 2024, quando ficou em terceiro lugar, e pediu perdão a adversários políticos daquele pleito. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidência da República, enviou um vídeo elogiando Marçal, a quem chamou de "amigo".
Ao lado do presidente do União, Antonio Rueda, e do presidente do PP, Ciro Nogueira, Marçal lembrou suas passagens pelo PROS, em 2022, como um partido que "não tinha palavra" e pelo PRTB, que era "um partido pequeno", como exemplos de siglas que não deram certo em sua trajetória política. Dirigindo-se a Rueda e Nogueira, ele disse que agora só não irá dar certo "se esses dois não quiserem".
— Esse ano vai ser um ano onde pessoas que não dependem de política e não precisam da política vão invadir a política, eu quero deixar a minha declaração para vocês. Esse é o último partido meu, se esses dois falarem "você vai ser gandula", eu vou ser gandula. Eu vou ajudar a eleger o maior time — falou, sem citar para qual cargo pretende concorrer.
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O partido pretende lançar Marçal ao cargo de deputado federal, como um dos principais puxadores de voto para o Legislativo federal em São Paulo, ou até mesmo ao Senado. Entretanto, para a candidatura se concretizar, ele teria que reverter uma inelegibilidade de oito anos. Em dezembro, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve uma condenação de Marçal por uso indevido dos meios de comunicação no pleito de 2024.
A condenação se refere à realização de um “concurso de cortes”, revelado pelo GLOBO, em que colaboradores eram incentivados a produzir vídeos para as redes sociais da campanha, com promessa de remuneração e distribuição de brindes. Em outro processo, constatou-se que a maquiadora da esposa de Marçal financiou anúncios no Google que direcionavam usuários ao site oficial do candidato. Na ocasião, a Corte também confirmou a multa de R$ 420 mil aplicada por descumprimento de ordem judicial, também durante o período eleitoral de 2024. O influenciador recorreu, e aguarda julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Indagado pelo GLOBO sobre como ele pretende concorrer a algum cargo eletivo mesmo com a condenação que lhe tirou seus direitos políticos, Marçal negou estar inelegível porque "não está transitado em julgado". Entretanto, o entendimento da Justiça Eleitoral é que para alguns crimes eleitorais, a inelegibilidade vale a partir do julgamento por órgão colegiado, como é o caso do TRE.
— Eu não estou inelegível, como não chegou no último estágio judicial, como não transitou em julgado, não existe inelegibilidade. O juiz de primeiro grau, tudo o que chegou no TRE foi revertido. Só quando chega em último estágio — falou em coletiva de imprensa, ainda que o julgamento relacionado aos cortes tenha sido mantido pelo Tribunal Regional Eleitoral. — Está aberto ainda, falar isso é um equívoco. Se eu recorrer, chegar em último grau e não tiver o que fazer, eu aceito. Eu estou tranquilo, pronto para servir. Se for para ficar, em última instância não resolver, eu estou satisfeito também.
Ausente do evento por ter passado por uma cirurgia no olho, Flávio Bolsonaro deu “boas vindas ao time” a Marçal, e pregou “unidade e equilíbrio” para as eleições de 2026.
— Meu amigo Pablo Marçal, eu entrei na política em 2002 e sempre defendi que as pessoas de bem precisavam ocupar os espaços na política. Eu fico muito feliz com alguém com seu perfil, um cara família, cristão, que aguenta pancada, cadeirada, que também trabalha para essa virada de chave dos brasileiros, que mostra que é possível não depender de governo nenhum para levar o sustento para sua casa e para sua família — falou.
O senador criticou o governo Lula (PT), citando “taxação, impostos altíssimos e violência”, e falou que “o caminho para tirar o Brasil dessa areia movediça é vencer as próximas eleições”.
— Você, Pablo, tem a plena consciência de que o momento é de unidade, de equilíbrio, de olhar para frente, de concentrar naquilo que nos une, que é a grande maioria das coisas. E você sabe da guerra espiritual que a gente vai enfrentar. Se você está aí é porque Deus tocou no seu coração para você entrar para a política, bem-vindo ao time que vai resgatar o nosso Brasil, em nome de Jesus — acrescentou.
Marçal falou que pretende auxiliar Flávio na campanha "do jeito que ele quiser" e que já conversou com o pré-candidato sobre isso.
— O que ele precisar de mim, eu estou à disposição dele, até onde ele quiser. Eu falei com ele ontem, ele me ligou. Como a gente tem uma amizade boa, eu vejo o Flávio como um cara muito nobre. Flávio, conta comigo — acrescentou.
Perdão a Nunes e Tarcísio
No palco, Marçal se dirigiu ao prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), e ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), e pediu “perdão” para os dois. Na campanha de 2024, o influenciador fez uma série de ataques ao prefeito, que era seu principal adversário na disputa de votos na direita, e o governador foi um dos principais apoiadores de Nunes e foi crítico de Marçal durante a campanha.
— Eu quero fazer um pedido que a gente possa se unir. Ao prefeito de São Paulo, eu te peço perdão publicamente porque não há união sem arrependimento, se a pessoa não tiver humildade. Ricardo, a gente conversava antes da eleição, todo mundo veio bater em mim e eu acabei devolvendo com muita força em você. Exagerei, passei da conta. Você não vai ter nunca mais um cara como eu contra você. E ao governador Tarcísio, que quase esteve entre nós, eu passei do limite também com o governador. Tarcísio, peço perdão público para você, porque eu sei o homem honesto e correto que você é – falou.
Marçal disse não ter “ego com cargos” e que se os presidentes da federação disserem que ele não será candidato, ele vai “servir”, e não deixará o partido.
— Se for para ser qualquer coisa, me coloque. Se eu tiver que esperar, eu vou esperar. Eu entrei em partido que não tem palavra, deu tudo errado. Em partido pequeno, deu tudo errado. Só vocês para fazer não dar errado agora — disse para Ciro e Rueda.
O influenciador levou sua esposa e seus quatro filhos ao palco, fez elogios ao presidente municipal do União Brasil, o ex-vereador Milton Leite, e ao partido, e acenou aos seus 1.719.274 de eleitores nas eleições de 2024.
— O voto que você fez na uma está aqui dentro, você não perdeu seu voto. Esse voto vai dar fruto, eu vou carregar ele. Eu não vou desperdiçar seu voto — disse.
Laudo falso contra Boulos
A eleição de 2024 rendeu alguns processos eleitorais contra Marçal, e alguns ainda não foram julgados. Uma delas foi suspensa no mês passado após Marçal fazer um acordo com a Justiça. O caso se refere à propagação de um laudo falso contra o então candidato Guilherme Boulos (PSOL).
Na véspera do primeiro turno de 2024, Marçal divulgou um documento falso de internação por uso de drogas — a falsidade do documento foi atestada por perícias das Polícias Federal e Civil. Poucas horas após a publicação, a Justiça Eleitoral determinou a derrubada da publicação das redes sociais. Marçal foi o terceiro colocado na disputa eleitoral daquele ano, enquanto Boulos foi para o segundo turno contra Ricardo Nunes (MDB).
Para que a ação fosse paralisada por dois anos, o empresário aceitou um acordo com a Promotoria Eleitoral do Ministério Público que prevê a imposição de uma série de restrições, como comparecimento judicial a cada três meses, proibição de sair de sua cidade sem prévia autorização, além de não poder frequentar bares, boates e casas de prostituição. No âmbito cível, o caso do laudo falso foi julgado no mês passado. Na ocasião, Marçal foi condenado a pagar uma indenização de R$ 100 mil a Boulos.
Marçal ainda responde a outras ações que podem culminar em novas condenações eleitorais e mais declarações de inelegibilidade. Uma delas se refere a promessas que Marçal fez de dar apoio para candidatos a vereadores que doassem R$ 5 mil para sua campanha. Neste caso, ele foi condenado em primeira instância, mas recorreu e conseguiu uma vitória no TRE-SP, que entendeu que apesar da conduta ter sido ilícita, não há provas que isso influenciou nos resultados do pleito. A coligação de Boulos, autora da ação, recorreu ao TSE, mas o julgamento ainda não foi realizado.
Outro processo é relacionado a sorteios de bonés e dinheiro, em troca de divulgação de sua candidatura. Ele foi condenado em primeira instância em julho de 2025, e ainda não houve julgamento do TRE-SP.
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