Em uma tentativa de trazer os movimentos sociais para mais perto do governo a um ano da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou na segunda-feira a nomeação do deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) para a Secretaria-Geral da Presidência no lugar de Márcio Macêdo. A 13ª troca na equipe ministerial neste mandato foi consolidada após meses de especulação sobre uma possível mudança.
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Com a troca, Lula quer ter no comando da Secretaria-Geral, pasta que faz interlocução com movimentos sociais e a sociedade civil, um nome que tenha canal direto com esses grupos e capacidade de mobilização. O presidente, segundo interlocutores, gostaria de ver as entidades mais engajadas em pautas do Palácio do Planalto, mirando ganhos de popularidade e a campanha de 2026.
Boulos iniciou sua atuação política como líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e tem amplo alcance nas redes sociais, o que na avaliação do Planalto pode dar mais capilaridade também para a comunicação do governo com os mais jovens.
‘Ouvir as demandas’
“Minha principal missão será ajudar a colocar o governo na rua, levando as realizações e ouvindo as demandas populares em todos os estados do Brasil. Minha grande escola de vida e de luta foi o movimento social brasileiro e levarei esse aprendizado agora ao Planalto”, escreveu Boulos nas redes sociais.
Com a nomeação, o PSOL passará a estar à frente de dois ministérios, já que comanda a pasta de Povos Indígenas, com Sonia Guajajara. Em choque com uma parcela do Centrão, que vem forçando, sem sucesso, a saída de ministros, Lula vê partidos que têm ministérios se aproximarem de uma candidatura de oposição em 2026, seja com os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ou do Paraná, Ratinho Junior (PSD).
As cúpulas de União Brasil, PP e PSD afirmam publicamente que estarão no campo oposto ao PT no ano que vem, enquanto os dirigentes do Republicanos por ora adotam postura mais comedida. Ao mesmo tempo que busca rachar esses partidos e construir ao menos apoios regionais, Lula vai tentar, segundo auxiliares, “reenergizar” a base de esquerda pensando em uma disputa que tende a ser polarizada mais uma vez.
O novo ministro também deve ter papel na negociação para a criação de regras para trabalhadores que atuam por meio de aplicativos, seja de entregas ou de transporte. Essa foi uma promessa de Lula na eleição de 2022 não cumprida até agora.
Ainda sem a oficialização, mas já com todos os sinais de que seria escolhido, Boulos esteve no Planalto à tarde para o lançamento do programa Reforma Casa Brasil, uma nova política habitacional que busca facilitar o acesso ao crédito para reformas. Depois, retornou no começo da noite a pedido de Lula para uma reunião da qual também participaram Macêdo e os ministros Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Rui Costa (Casa Civil) e Sidônio Palmeira (Comunicação Social). Uma nota do Planalto tornou pública a demissão de Macêdo e a chegada de Boulos.
A expectativa é que ele fique no cargo até o fim do terceiro mandato, em dezembro do ano que vem. Assim, não deverá disputar a eleição de 2026, o que fará o PSOL sair em busca de outro puxador de votos em São Paulo para não perder espaço no Congresso. Ele foi o recordista de votos no estado em 2022, com 1.001.453.
Lula e Boulos têm uma relação próxima. Nas eleições municipais de 2024, o novo ministro foi o único candidato para o qual o presidente realmente se empenhou na campanha. Além de ter costurado a escolha do vice da chapa, Marta Suplicy, foi o fiador do repasse de fundo eleitoral do PT e gravou propaganda eleitoral na casa do aliado, em São Paulo. Na ocasião, o candidato do PSOL chegou novamente ao segundo turno, mas perdeu para o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Antes disso, o então líder sem-teto esteve com o petista no momento da sua prisão em 2018. Boulos era, inclusive, defensor da tese de que Lula deveria resistir e não se entregar à Polícia Federal após a decretação da prisão em virtude da condenação no caso do tríplex do Guarujá, que depois foi revertida.
No mesmo ano, Boulos foi o candidato a presidente da República pelo PSOL. Lula enviou um vídeo para evento de lançamento de sua pré-candidatura, apesar de, naquele momento, ainda se colocar como postulante ao mesmo cargo (em seguida, o líder petista foi substituído por Fernando Haddad).
Em 2020, Boulos concorreu a prefeito de São Paulo pelo PSOL. A poucos dias do primeiro turno, Lula tentou forçar o então candidato do PT, Jilmar Tatto, a sair da disputa para apoiar o psolista. Boulos acabou passando para o segundo turno e perdeu para Bruno Covas (PSDB).
Já neste ano, em meados de abril, Lula sondou Boulos sobre a possibilidade de assumir o cargo com assento no Planalto. O presidente quis saber se o aliado aceitaria abrir mão de disputar a eleição do ano que vem e recebeu sinalização positiva. No mês passado, em um novo capítulo, Lula já havia indicado a interlocutores que faria a troca na Secretaria-Geral. Na ocasião, Macêdo chamou a possibilidade de “fogo amigo” e disse que nunca havia tratado do assunto com o chefe.
A vaga de Boulos na Câmara deverá ser ocupada pelo físico Ricardo Galvão (Rede-SP), ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e ex-presidente do CNPq. Galvão ganhou projeção nacional em 2019, quando enfrentou o então presidente Jair Bolsonaro ao defender os dados do Inpe sobre o avanço do desmatamento na Amazônia, episódio que levou à sua saída do cargo.
Durante a gestão de Macêdo, Lula reclamou publicamente do ministro em mais de uma ocasião. Em dezembro de 2023, no evento Natal dos Catadores, em São Paulo, o presidente pediu “menos discurso e mais entrega” a Macêdo e cobrou que o ministro e os catadores tivessem uma pauta de reivindicações.
Em maio de 2024, Lula reclamou de falta de “esforço necessário” para levar público ao ato do Dia do Trabalho convocado pelas centrais sindicais em São Paulo.
— (Macêdo) é responsável pelo movimento social brasileiro. Não pensem que vai ficar assim. Disse para o Márcio que o ato está mal convocado. Não fizemos o esforço necessário para levar a quantidade de gente que era preciso levar — afirmou Lula, diante de uma plateia esvaziada.
Campanha a deputado
No período em que esteve à frente da Secretaria-Geral, Macêdo foi alvo de críticas no Planalto e de alas do PT. A avaliação era que tinha atuação apagada em uma pasta que sempre teve protagonismo em governos petistas. Nos primeiros dois mandatos de Lula, a cadeira foi ocupada por Luiz Dulci, aliado histórico do petista e um dos fundadores do PT.
Líder estudantil nos anos 1990, Macêdo é considerado um quadro relevante da burocracia partidária do PT, que ganhou a confiança de Lula quando organizou as caravanas pelo país antes de o petista e ser preso, em abril de 2018. Foi tesoureiro do PT e comandou as finanças da campanha de 2022, que foram aprovadas por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral.
“Em conversa com o presidente Lula, ficou definido que deixarei o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República para disputar as eleições de 2026. Saio com o sentimento de dever cumprido e com a certeza de que entregamos tudo o que prometemos durante a campanha”, afirmou Macêdo na segunda-feira em publicação nas redes sociais.
(Colaborou Luísa Marzullo)
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