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Jogo Político: Eduardo Cunha avança para reabrir a Jovem Pan no Rio, mas negociações com partidos em Minas travam

Jogo Político: Eduardo Cunha avança para reabrir a Jovem Pan no Rio, mas negociações com partidos em Minas travam

Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político.

O ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos) transferiu o domicílio eleitoral para Minas Gerais, mas ainda mantém o seu celular com o DDD 021 do Rio de Janeiro. Ele atende o telefone, aceita uma conversa de pouco mais de 27 minutos e confirma o que ainda era tratado como segredo: está por trás da volta da Jovem Pan para os ouvintes cariocas, com estreia prevista no próximo mês. A emissora terá o espaço de notícias na faixa 90,7 FM, e o de músicas, na 95,3 FM. Seus estúdios estão sendo montados no mesmo prédio onde há décadas funciona o escritório político de Cunha no Edifício Rodolpho De Paoli, no Centro.

A estratégia de voltar aos negócios envolvendo concessões de rádios é um dos pilares da sua pré-campanha mineira para se eleger deputado, agora que passou a morar na Savassi, uma região nobre de Belo Horizonte. Após a mudança no ano passado para não concorrer com a filha, a deputada federal Danielle Cunha (União Brasil), ele já comprou seis emissoras em Minas — a principal delas a Rádio Maravilha, na qual aparece diariamente lendo passagens bíblicas em um quadro chamado “Versículo da Hora”. Foi com esse tipo de presença na rádio que o ex-parlamentar tornou-se conhecido no Rio com o bordão “o nosso povo merece respeito” na Melodia FM, do aliado e ex-deputado federal Francisco Silva.

— Rádio ainda funciona demais para o público evangélico de mais de 35 anos das classes C, D e E. Tenho números que mostram que o fiel fica ouvindo cerca de três horas por dia esse tipo de mídia — afirma Cunha, que rebate as especulações em Minas sobre os supostos valores milionários das suas aquisições — Fala isso quem não sabe nada do ramo. Comprei a Maravilha em uma cidade do interior por um preço mais barato do que se comprasse na capital, além de ter financiado a outorga em dez anos. Gasto apenas R$ 30 mil por mês, tudo por dentro. Depois que a transferi para Belo Horizonte, aí que ela se valorizou. A ação com a Jovem Pan no Rio terá um modelo semelhante. Estou transferindo uma rádio de Rio Bonito para a capital — diz o ex-parlamentar, dono de patrimônio de R$ 14 milhões, segundo declaração entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2022.

Enquanto os negócios de Cunha avançam, na política há obstáculos. O ex-presidente da Câmara precisa decidir por qual partido disputará a eleição. A permanência no Republicanos ficou inviável devido ao péssimo relacionamento com a maior liderança da sigla em Minas, o senador Cleitinho Azevedo, primeiro colocado nas pesquisas para a sucessão de Romeu Zema. Cleitinho já chamou o ex-deputado de “canalha” e “vagabundo”, além de ter dito que tinha vontade dar “um murro” na sua cara — o que acabou rendendo um processo no Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos últimos dias, o deputado federal Nikolas Ferreira se insurgiu contra a hipótese de entrada de Cunha no PL. O Podemos, que poderia ser outra opção para outubro, também fechou as portas. Apesar da boa relação com o pastor Everaldo Dias, hoje mandachuva da legenda ao lado de Renata Abreu, o diretório estadual definiu que não quer a filiação do ex-deputado. Cunha rejeita a tese de que seja radioativo para os partidos diante do seu passado controverso. Embora tenha encarnado o espírito antipetista em 2016 ao liderar o impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff, acabou marcado pelas acusações da operação Lava-Jato de recebimento de propina e de ser dono de conta não declarada no exterior.

— Não estar em um partido ainda não tem nada a ver com o fato de eu ser Eduardo Cunha. Na verdade, o ponto é que sou visto como um deputado de 80 mil a 100 mil votos e, com esse sistema proporcional que depende de nominatas, acabo sendo visto como um competidor. Posso acabar com a reeleição de qualquer um que hoje tem mandato.

Minas Gerais elege a cada quatro anos 53 deputados federais. Em 2022, Nikolas Ferreira foi o mais votado com quase 1,5 milhão de votos, seguido de André Janones, do Avante (238 mil votos), e Duda Salabert, do PDT (208 mil votos). O último eleito no estado foi Samuel Viana, do PL, com 62 mil votos. Naquele ano, Cunha não conseguiu se eleger. Filiado ao PTB de Roberto Jefferson, transferiu o título para São Paulo, mas recebeu apenas cinco mil votos para a Câmara.

Em busca de não repetir o fiasco da eleição paulista, Cunha vem amarrando apoios de algumas das principais igrejas evangélicas brasileiras. Embora a saída do Republicanos implique em enfraquecimento na relação com a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada pelo bispo Edir Macedo, o ex-deputado caminhará em Minas com o Apóstolo Valdemiro Santiago e o Missionário R.R. Soares. Além da presença constante em cultos no estado, Cunha tem aberto espaço para outras agendas de cunho eleitoral: frequenta leilões de gado em sinalizações para o agronegócio e entrou no mundo do futebol, colocando a Rádio Maravilha para patrocinar o Uberaba Sport Club e transmitir os seus jogos na segunda divisão do campeonato mineiro.

— Em São Paulo há quatro anos, não me preparei. Agora já fechei dobrada com 25 candidatos a deputado, sendo 10 com mandatos. Também já estou presente em quase 300 dos 853 municípios mineiros. Não estou mais disputando o voto de opinião pública — afirma, refutando o mote de campanha ideológica antipetista de 2022 que não funcionou.

Recomendo

  • "Sete anos"

O livro que reúne as melhores crônicas de Fernanda Torres mostra como a atriz é tão espetacular no mundo das letras quanto na frente das câmeras. Fernanda começou a ter textos publicados na imprensa em 2007, quando estreou na revista piauí. Depois, assumiu uma página quinzenal na Veja Rio e, em seguida, uma coluna mensal na Folha de S. Paulo . Em 2013, escreveu seu primeiro romance, que também recomendo demais: "Fim" conta a história de cinco amigos cariocas desde a juventude até a velhice e a morte. Em 2023, virou série no Globoplay.

O jornalista Mario Sergio Conti recebe homenagens de Fernanda logo no início do livro. Foi ele que a convidou para escrever uma crônica pela primeira vez no ambiente do jornalismo impresso. Os dois já ficaram sem se falar por anos, como ela conta na crônica chamada "Mario Sergio". O motivo: Conti acabou sendo mais repórter que amigo em uma determinada situação. Situação que faz refletir sobre a complexidade de existir relação de amizade entre fonte e jornalista.

"Certa vez, durante uma gripe violenta, ele (Conti) me ligou de São Paulo. Conversamos uns bons vinte minutos sobre coisa nenhuma, eu reclamando da saúde, até que Mario disse que um médico passara a informação de que eu estava com AIDS, jurava ter visto meus exames, e ele queria saber se era verdade. Me arrependi de ter mencionado a virose. Fiz um exame no dia seguinte e lhe pedi que entregasse ao doutor. Por muitos anos, mantive a nossa amizade em suspenso, sem saber se eu estava diante do amigo ou do profissional de imprensa. Era uma mescla dos dois".

Os textos de Fernanda Torres do período pré-Lava-Jato são um prato cheio para o bolsonarismo, que partiu para cima da atriz após o comercial das Havaianas em dezembro. Em 2012, ano do julgamento do mensalão, ela escreveu o seguinte sobre o PT:

"A alegação de que o caixa dois não é corrupção demonstra o quanto o PT operou dentro das controversas regras monetárias que imperam na política. Caso permanecesse fiel à retidão acusatória dos tempos de oposição, o partido enfrentaria o paradoxo do inflexível delegado de "Medida por medida", do mesmo W. Shakespeare, que descobre ser impossível governar sem violar a lei".

Sobre Sérgio Cabral, escreveu em 2013, o ano das manifestações históricas pelo Brasil que colocou o então governador do Rio como inimigo público número um da opinião pública:

"Sérgio Cabral foi o melhor governador que o Rio elegeu em décadas - o que não é muito, quando se pensa nos anteriores, mas foi um avanço. Hoje, um ano antes de encerrar o segundo mandato, enfrenta a danação bíblica pela soberba e usura".

A crônica "Buquê" é a minha preferida do livro. Conta a hilária história de um casal. Em uma conversa hipotética, o rapaz se queixa para a própria Fernanda Torres que a namorada o proíbe de beber Coca-Cola e comer chocolate. Nada a ver com dieta saudável, o motivo é outro, ele explica: "Ela se irrita porque... por que ela diz que muda o gosto...do gozo".

Neste mesmo texto, escrito em 29 de novembro de 2013, Fernanda Torres escreveu um parágrafo ironizando a personagem mulher da sua crônica e a exigência inusitada. Nos dias de hoje, talvez ela fosse cancelada:

"As mulheres têm o dom de surtar. A fragilidade atávica lhes permite perder a cabeça, chorar além do suportável, entrar no túnel, sofrer até sair da pele. Aos homens, resta o recuo, a obrigação do amparo. A posição de vítima é, por conquista, da mulher".

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