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No último sábado, dia 30, o senador Renan Calheiros (MDB) cumpria agenda na pequena Pariconha, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes de Alagoas, quando foi abordado pelo Portal Ítalo Timóteo, um site de notícias do Sertão. De olho na campanha pela reeleição, Renan esteve no município para inaugurar uma escola e um posto de saúde, além de prometer aos eleitores uma nova creche e a pavimentação de 11 quilômetros de uma rodovia.
O repórter local deixou o emedebista contrariado quando perguntou sobre a possibilidade de haver uma dobradinha entre ele e o arquirrival Arthur Lira (PP) para a disputa das duas vagas ao Senado. A aliança chegou a ser vislumbrada pelo Planalto como uma boa solução para o palanque do presidente Lula (PT) no estado, mas o senador não aceita o acordo:
— Com o Arthur Lira eu não vou fazer aliança nem no sertão, nem em lugar nenhum de Alagoas. O Arthur Lira, se você recordar nos últimos anos, ficou contra todos os interesses do nosso estado. Foi presidente da Câmara e no momento que tinha mais poder não ajudou Alagoas. Perseguiu o estado, por isso é que ele não vai ter a satisfação de subir no mesmo palanque que eu — respondeu.
Lira passou a semana sem reagir à provocação do rival, postura diferente da adotada nos meses que antecederam a última eleição. Em maio de 2022, o deputado chamou Renan de “cachorro sem dente que se aproveita da miséria do povo alagoano” após o senador insinuar que havia corrupção em compras de caminhão de lixo feitas pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf). A autarquia, na época, era comandada por aliados de Lira.
Desta vez, o ex-presidente da Câmara tem preferido atuar em silêncio nos bastidores para buscar uma nova aproximação com o Planalto — afinal, não interessa ser candidato a senador em Alagoas em oposição à força do lulismo no Nordeste. Depois de ajudar o governo a aprovar a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, agora Lira vai trabalhar para a federação União Brasil e PP ficar neutra na eleição.
Os dois partidos eram tidos como apoiadores certos de uma candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas o xadrez eleitoral mudou no fim de 2025 a partir de dois lances no tabuleiro da política: o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi o escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ser o candidato da direita ao Planalto; e as investigações sobre o Banco Master avançaram, lançando luz nas relações dos presidentes do União Brasil, Antonio Rueda, e do PP, Ciro Nogueira, com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Nas últimas semanas, aliados de Flávio passaram a temer que Rueda e Ciro Nogueira não caminhem juntos do filho do ex-presidente na crença de que o não-alinhamento à direita poderia oferecer blindagem aos dois das investigações da Polícia Federal. Ciente que o assunto Master incomoda demais o consórcio União Brasil e PP, Renan Calheiros voltou do recesso cheio de apetite para explorar o tema. Enquanto os pedidos de CPI do caso não avançam no Congresso, o emedebista decidiu usar a estrutura da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que ele mesmo preside, para investigar o Master.
Na última quarta-feira, o senador esteve com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e avisou depois que buscará o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Edson Fachin, e o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Passos. Renan quer ter acesso a informações sigilosas da investigação. Disse a jornalistas que “vai a fundo na elucidação dessa trapaça bilionária”.
O movimento do senador contra o banco tem outro pano de fundo: o prefeito de Maceió, JHC (PL) segue deixando aberta a possibilidade de ser candidato a governador contra os Calheiros — o ministro dos Transportes, Renan Filho, é pré-candidato ao cargo que já ocupou entre 2015 e 2022. A CAE também deseja investigar porque a previdência municipal de Maceió aplicou R$ 97 milhões dos pensionistas no Master.
JHC está para Maceió assim como João Campos está para Pernambuco. É jovem (tem 38 anos), adota linguagem digital moderna e, mesmo estando apenas no comando de uma capital, já aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenções de votos para governador. Embora menor na política nacional, ficou maior eleitoralmente em Alagoas que os caciques Renan e Lira.
O Planalto considera que a candidatura a governador de JHC trairá um acordo feito no ano passado. Em agosto,Lula indicou a tia do prefeito de Maceió, a procuradora Maria Marluce Caldas Bezerra, para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), esperando reciprocidade do prefeito a favor dos Calheiros.
JHC tem outra hipótese no horizonte. Ser candidato ao Senado, o que trairia, neste caso, os planos de Arthur Lira, seu tradicional aliado no estado. Ontem, Júnior Leão, secretário de governo da Prefeitura de Maceió, deu a seguinte declaração à imprensa alagoana para o arrepio de Renan e Lira:
— O prefeito JHC vai ser candidato. Será candidato a majoritária, com certeza. O povo quer, não é? Político faz aquilo que o povo quer, a vontade do povo — disse, deixando em suspense se o chefe vem ao Senado ou ao governo do estado.
Recomendo
• Ângela Diniz: assassinada e condenada
Um espetáculo a atuação de Marjorie Estiano nessa série de seis episódios disponível na HBO Max - a colega Anna Luiza Santiago deu nota 10 no Segundo Caderno. Em tempos de epidemia de feminicídios pelo Brasil, vale demais ver a produção dirigida por Andrucha Waddington baseada na pesquisa do podcast Praia dos Ossos.
Explicando para quem nunca ouviu falar do caso: a produção retrata a vida da socialite mineira Ângela Diniz e seu relacionamento conturbado com o empresário Doca Street. Em 1976, na Praia dos Ossos em Búzios (por isso o nome do podcast), Doca assassina Ângela com quatro tiros após ela tentar terminar a relação.
Durante o julgamento de Doca, na década de 1970, os advogados do réu usaram a tese de “legítima defesa da honra” — invalidada somente em 2023 pelo Supremo Tribunal Federal — para justificar o ato, e movimentos feministas se mobilizaram em torno do caso.
Além de Marjorie, Antônio Fagundes e Thiago Lacerda estão muito bem na série. Fagundes dá vida ao advogado Evandro Lins e Silva. O momento do julgamento em que a expressão "vênus lasciva" foi usada para difamar Ângela é o clímax da atuação no tribunal. Já Lacerda interpreta o jornalista Ibrahim Sued, o influente colunista social do período. Sued foi fundamental na construção da imagem pública de Ângela Diniz. Além de uma forte amizade, os dois mantiveram um relacionamento aberto.
Há quase uma unanimidade na imprensa com relação à série, bem diferente da crítica ao filme de 2023 sobre o mesmo tema. "Ângela", dirigido por Hugo Prata e estrelado por Ísis Valverde no papel da socialite, recebeu mais críticas negativas do que a produção da HBO.
Em entrevista a Marie Claire, Marjorie Estiano contou como foi difícil fazer o papel. Esse trecho da reportagem explica a dificuldade de interpretar a socialite: "Construir uma versão de Ângela Diniz não é tarefa tão fácil. Primeiro porque os registros que se têm dela são sempre de terceiros — seja como a Pantera de Minas nas colunas sociais, seja nas falas que a violentam no julgamento de Doca. Para se ter ideia, o único registro em áudio e vídeo que se tem de Ângela é de um comercial de televisão, em que fala apenas por alguns segundos."
Antônio Fagundes teve mais facilidade para fazer Evandro Lins e Silva. Há vídeos no YouTube que mostram os melhores momentos do advogado no julgamento de Doca Street. Em entrevista para a revista Veja, Fagundes brincou com o papel: "Depois de interpretar Deus duas vezes, fica difícil falar em surpresa (risos)", em referência ao filme 'Deus é Brasileiro".
- Jogo Político