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Jogo Político: a 'Carruagem do Além' de São Gonçalo vai ter coragem de enfrentar Paes pelo governo do Rio?

Jogo Político: a 'Carruagem do Além' de São Gonçalo vai ter coragem de enfrentar Paes pelo governo do Rio?

Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político.

Em novembro do ano passado, o secretário das Cidades do Rio, o deputado licenciado Douglas Ruas (PL) — nome da vez da direita fluminense para a disputa ao Palácio Guanabara —, esteve no podcast “Papo Reto” . No programa de bate-papo com três policiais recheado de perguntas sobre segurança pública e propaganda de armas para venda, um Ruas sorridente e de fala mansa vestiu o figurino linha-dura que o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, busca para o seu palanque no estado.

Nos primeiros minutos da conversa de 1h30, o secretário de 37 anos de Cláudio Castro se divertiu com a memória dos entrevistadores dos tempos do pai como policial militar. Ruas — que se tornou inspetor da Polícia Civil em 2013 — é filho do Capitão Nelson, prefeito de São Gonçalo que passou duas décadas como sargento de uma temida equipe do 7º BPM (Alcântara) apelidada de “Carruagem do Além”; depois, o deputado fez críticas ao Judiciário, seja por soltar bandidos ou por promover, via Supremo Tribunal Federal (STF), a ADPF das Favelas, que, na sua opinião, transformou o Rio em “Spa dos vagabundos” ; por fim, ensaiou uma plataforma de promessas de campanha ao falar da necessidade de construção de novos batalhões da PM em São Gonçalo e em Nova Iguaçu.

— Às vezes escutamos um monte de especialista na imprensa, mas ninguém entende mais de segurança que o próprio policial — disse Ruas, em discurso que soa como música para eleitores afinados com a agenda da bancada da bala.

Depois da operação do ano passado no Complexo do Alemão que matou 122 pessoas — aprovada por 64% da população do Rio, segundo a pesquisa Quaest — , Paes e seu grupo político não desejam enfrentar um nome que se conecte com o desejo “tiro, porrada e bomba” de parte da opinião pública. Ruas também preocupa por ser popular no segundo maior colégio eleitoral do Rio, além de ter conquistado relevante cacife com prefeitos do interior a partir do orçamento bilionário para obras de pavimentação via secretaria de Cidades.

Desde o fim do ano passado, Paes faz gestos para evitar a candidatura. Primeiro, levou a prefeitura do Rio a abrir mão de parte da receita dos royalties para que o município de São Gonçalo recebesse mais recursos. Depois, passou a sinalizar que, se Ruas for candidato a deputado estadual, no ano que vem poderia ser o seu presidente da Assembleia Legislativa, fator importante para manter o seu grupo político no comando de São Gonçalo nas eleições de 2028, quando o Capitão Nelson buscará eleger um sucessor.

Os tempos de bonança que fizeram o bolsonarista se reeleger em 2024 ficaram para trás. A cidade virou um grande canteiro de obras no período alicerçada em duas fontes milionárias de receita — o dinheiro da concessão da Cedae e das emendas via Orçamento Secreto influenciadas pelo deputado federal Altineu Côrtes (PL), homem forte de Valdemar Costa Neto no Rio e aliado da família Ruas. Com o fim dos recursos da área do saneamento e o estancamento dos repasses sem transparência dos parlamentares pelo ministro Flávio Dino, do STF, São Gonçalo teve um ano mais difícil em 2025. Em dezembro, virou notícia o protesto dos profissionais da educação reclamando do não pagamento do 13º salário de maneira correta, além de adicionais como horas extras e dobras de salário. Medidas impopulares foram anunciadas, como a mudança na forma de arrecadar o IPTU, de olho em aumento do caixa do município.

Os cálculos em São Gonçalo passam pelo seguinte cenário: um Paes rancoroso na cadeira de governador por ter enfrentado Douglas Ruas nas urnas teria na manga uma dupla de jovens gonçalenses que poderia ser uma ameaça à sucessão de Capitão Nelson em 2028: o secretário de Educação, Renan Ferreirinha, e o secretário de Proteção e Defesa do Consumidor, João Pires, ambos do PSD. Os dois farão dobradinha este ano, um como candidato a deputado federal e o outro a estadual, e esperam ter votação expressiva na região onde nasceram. Com o apoio dos prefeitos de Niterói, Rodrigo Neves (PDT), e Washington Quaquá (PT), de Maricá, influentes na região, o consórcio de centro-esquerda poderia desalojar o PL da cidade daqui a dois anos.

Ruas deixou a decisão sobre a sua candidatura para depois do julgamento no STF do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB), que tenta reverter a sua inelegibilidade pela condenação por crime ambiental. O caso entrará na pauta no próximo dia 11 de fevereiro.

Reis é o candidato preferido de Flávio Bolsonaro, mas a reversão da sua situação jurídica é considerada pouco provável. Além disso, o emedebista está em meio a um tratamento de câncer: ele conta que em pouco mais de dois meses está tendo que consumir 112 comprimidos, sendo dois por dia, para reduzir os níveis de testosterona no organismo. Depois, fará 40 sessões de radioterapia a partir de abril, o que torna imprevisível a participação em campanhas.

Se Douglas Ruas realmente se colocar como candidato a governador, poderá ser o segundo voo mais alto que São Gonçalo arriscará dar na política esse ano. O deputado Altineu Côrtes anda articulando silenciosamente para garantir uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU). Ele aposta que Augusto Nardes deixará a Corte para se candidatar a deputado federal pelo PP no Rio Grande do Sul.

Recomendo

  • “Análise", de Vera Iaconelli

Tipo de livro que mais tenho gostado nos últimos tempos. Mistura relato autobiográfico, análises e opiniões de quem escreve - no caso a psicanalista que acompanho há tempos.

Vera se expõe ao lembrar da difícil relação com o pai. Ele é tema de várias passagens, como esta em que é descrito como um homem duro que jamais recuava de atitudes grosseiras mesmo quando machucava integrantes da família. A psicanalista tenta olhar a característica por outro ângulo:

"Ele tinha o bom gosto de não pedir que o perdoássemos, ao contrário do marido que espanca e traz flores no dia seguinte. Pelo menos tínhamos o direito inalienável de odiá-lo, ainda que sem deixar transparecer."

Não havia sorrisos falsos na família, apenas os silêncios não-resolvidos. Vera depois reconhece o lado ruim desta característica:

"A minha família, como inúmeras outras, tem por hábito não falar nada sobre o que dói, transformando o sofrimento em adoecimento. Silêncios e omissões são o modus operandi deixado por meu pai e pactuado por nós. Nada poderia ser mais distante do que propõe a psicanálise."

Os trechos que falam sobre o que a autora pensa da profissão dela também são muito ricos. Selecionei três partes com comentários de Vera para você, leitor, se sentir estimulado a comprar esse livro.

A primeira delas, sobre uma certa ilusão a respeito da eficácia instantânea da psicanálise.

"As demandas por uma análise encerram um paradoxo central da paixão pela ignorância apontada por Lacan. Levamos nosso sintoma para o analista como um apêndice que não reconhecemos, pedindo com ardilosa ingenuidade para que ele o estirpe, nos conforte e nos livre de todo mal. Passadas quatro décadas, lembro que era assim que eu me imaginava chegando nesse espaço que prometia me curar. Eu contaria uma história de sofrimento, revelaria minha sensibilidade e amadurecimento precoce e seria acolhida por alguém que: 1) me daria razão; 2) me perdoaria; 3) me amaria; 4) me curaria; e então, ao fim e ao cabo do processo, eu me tornaria uma pessoa melhor, mais completa e realizada."

A segunda, uma dica para que o trabalho de psicanálise tenha resultados:

"As respostas que damos para as insondáveis causas dos acontecimentos em nossa vida são de nossa responsabilidade e nos orientam. É por isso que, é terrível, por mais que a sua vida tenha sido um show de horrores, o analista quer saber qual a sua parte nesse latifúndio. Freud traz isso desde o começo de sua obra. 'Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?' Não há análise onde não houver implicação do analisante em relação ao seu sintoma. Se o analisante não se reconhece como parte do seu sofrimento, a queixa então deve ser dirigida a um advogado, um médico, um professor… Não a um analista."

Por fim, uma ironia com a clássica dúvida: qual a hora certa de deixar a psicanálise?

"O fim da análise é da ordem de um ato que, por ser ético, só pode ser assumido pelo analisante. Basicamente, você encara o olho do furacão e diz para si mesmo — não sem o testemunho do analista — “Ah! Então é isso”. Brochante assim, sem qualquer glamour ou rufar de tambores.

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