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'Jogo Político': assim como Haddad, Camilo Santana terá conversa com Lula para avaliar candidatura a governador em 2026

'Jogo Político': assim como Haddad, Camilo Santana terá conversa com Lula para avaliar candidatura a governador em 2026

Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político. Estamos na última edição do ano, é hora de uma rápida pausa! Voltaremos na primeira semana de janeiro! Um Feliz Natal e um excelente 2026!

No café da manhã de ontem com jornalistas, virou notícia a frase de Lula sobre uma possível candidatura em São Paulo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas passou despercebida as falas sobre outro petista graúdo da Esplanada: o ministro da Educação, Camilo Santana, com quem o presidente disse que precisa conversar sobre a eleição do ano que vem.

O que está por trás da indireta são quatro pesquisas divulgadas recentemente no Ceará. Nesta sexta-feira, o Ipsos-Ipec apontou que o neotucano Ciro Gomes — hoje arquirival da esquerda e em flerte aberto com o bolsonarismo — aparece com 44% das intenções de votos na disputa pelo comando do estado, dez pontos percentuais à frente do atual governador Elmano de Freitas (PT). Nas últimas semanas, os institutos Real Time Big Data e o Paraná Pesquisas divulgaram números que apontaram na mesma direção, mas também testaram cenários em que Camilo Santana, eleito senador em 2022, aparece como o único capaz de vencer Ciro.

Atualmente, Elmano é apenas o décimo governador mais bem avaliado do Brasil, indica pesquisa feita pelo Atlas/Intel essa semana. O petista vem tentando aumentar a sua popularidade com um discurso mais linha-dura na área da segurança. Em outubro — dias depois da operação que matou 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio —, a polícia cearense executou sete integrantes do Comando Vermelho. “Perderam a vida porque resolveram enfrentar a Polícia Militar”, disse Elmano, durante entrevista para a TV Verdes Mares Cariri, em declaração que gerou forte reação na esquerda.

Embora esteja dizendo que não quer ser candidato, Camilo vem deixando aberta a possibilidade de voltar a concorrer ao cargo que ocupou entre 2015 e 2022 — “a política é dinâmica”, disse ao GLOBO na última segunda-feira. O tema ganhou tração na Assembleia Legislativa cearense essa semana, em discursos feitos por opositores do PT provocando o ministro da Educação pela declaração.

Em São Paulo, o estímulo para vestir Haddad no figurino de candidato obedece a outra dinâmica. Além de montar um forte palanque contra a reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ou outro nome de direita que o governador apoie, há também o desejo de impedir que o ministro coordene a campanha pela reeleição de Lula. Haddad já deixou claro que não quer disputar e abrir brecha para a hipótese de uma quarta derrota consecutiva em corridas para o Executivo (prefeitura de São Paulo, em 2016, presidência da República, em 2018, e governo de São Paulo, em 2022).

O líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias (PT), vocaliza o sentimento geral no partido de querer empurrar o ministro para as urnas paulistas.

— O PT não pode se dar o luxo de não ter Haddad nas eleições. Se de vontade se trata, ninguém tem vontade de concorrer. É uma disputa difícil, mas vai chegando perto e vai nascendo um chamado, uma disposição. — afirma, em sintonia com o pensamento de figuras relevantes da legenda como o presidente do PT, Edinho Silva, e o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu.

Até agora, a campanha de Lula para 2026 tem poucas definições. Ainda não é possível dizer se Geraldo Alckmin (PSB) será candidato a vice-presidente de novo, muito menos quem vai coordenar a campanha do petista — em 2022, a função coube à ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffman. Na comunicação, no entanto, já há rumos mais definidos sendo traçados.

Na newsletter do jornalista Thomas Traumann há duas semanas, nota com o título “Em dois lugares ao mesmo tempo” afirma que o ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, ficará no cargo até o fim do mandato. Depois de Duda Mendonça (2002), João Santana (2006) e o próprio Sidônio (2022), a campanha pelo quarto mandato será tocada pelo ex-sócio e melhor amigo do ministro, Raul Rabelo.

Recomendo

  • "O Projeto: Como a extrema direita está transformando os Estados Unidos”

Escrito pelo jornalista David A. Graham, da revista The Atlantic, o livro mergulha no plano estratégico conservador liderado por uma fundação americana (o think tank Heritage Foundation) para guiar o projeto político do segundo mandato de Donald Trump nos EUA. Embora negue relação com o ideário, várias das políticas que estão no Projeto 2025 já começaram a ser colocadas em prática pelo presidente com a paulatina perda de independência de agências e departamentos federais. Uma maior restrição ao aborto, outra medida prevista no plano, caminha com mais dificuldade em Washington.

Ao longo de 155 páginas (super-rápido de ler), a obra trata da mudança na concepção da direita global ao longo dos anos: sai o neoliberalismo de corte de cargos e enxugamento da máquina, entra em cena a ocupação dos espaços públicos com pessoas ideologicamente alinhadas. Em setembro, Graham falou ao repórter Filipi Barini do GLOBO sobre a nova estratégia: "Isso marca uma grande diferença em relação ao primeiro governo de Donald Trump, quando ele lidava com pessoas que talvez não fossem as mais qualificadas para seus trabalhos, ou que não necessariamente estivessem alinhadas ideologicamente com ele. Agora, há pessoas em sua equipe que estão ao seu lado, dispostas a executar suas ideias, e que conhecem melhor o governo. Há pessoas que esperaram por anos uma chance para entrar no governo e aplicar essas políticas, e agora que estão ali, parecem determinadas a não perder essa oportunidade".

O projeto 2025 tenta dar a Trump uma consistência programática e teórica, elemento difícil de ser observado no primeiro mandato que acabou culminando com a derrota para Joe Biden. Quando refletiu sobre o caráter aleatório da Presidência de Trump em entrevista para a Folha de S. Paulo, Graham lembrou o envio recente de navios para pressionar a Venezuela de Nicolás Maduro. "Todas essas coisas são improvisadas. Trump simplesmente fica chateado com drogas e decide que vai enviar destróieres sem pensar em como isso se desenrolará", disse.

Extremistas e trumpistas divergem entre protecionismo e desregulamentação comercial, além de discordar sobre o tratamento dado às big techs. Talvez por isso as tantas idas e vindas em assuntos envolvendo o tema ao longo do ano. Voltar atrás, não é um problema para Trump: na campanha de 2022, ele chamou Lula de lunático nas redes sociais; depois, anunciou um tarifaço contra o Brasil em protesto ao tratamento dado pela Superior Tribunal Federal (STF) a Jair Bolsonaro; acabou fechando o ano dizendo que teve uma "química" com o presidente e desfazendo as medidas contra o Brasil.

Em artigo de setembro analisando o livro, o cientista político Rudá Ricci destaca o método adotado pelo think tank conservador para formar novos quadros da direita para o futuro: "a fundação Heritage produziu 30 cursos online com vídeos de 39 minutos de duração para treinar lideranças ultraconservadoras recrutadas pelo enfrentamento de gestores democratas, incluindo até mesmo mães que rejeitaram currículos focados em direitos sociais". Mais ou menos o que Olavo de Carvalho fez no Brasil, em alcance menor, claro, a partir dos anos 2000.

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