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Enquanto Jair Bolsonaro não define quem apoiará para presidente, os outros pré-candidatos já anunciados da direita seguem avançando em seus planos para 2026. Depois do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), fechar contrato com o marqueteiro Renato Pereira, essa semana o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), também escolheu o seu estrategista.
Responsável pelas campanhas de Cláudio Castro (PL) ao governo do Rio, em 2022, e Fuad Noman (PSD) a prefeito de Belo Horizonte, em 2024, o mineiro Paulo Vasconcelos vai trabalhar para Caiado. O contrato com o União Brasil prevê o pagamento de cinco parcelas de R$ 150 mil até março, prazo-limite para a resposta da mais valiosa dúvida da política brasileira: Tarcísio de Freitas (Republicanos) deixará o governo de São Paulo para ser candidato ao Planalto ou o clã Bolsonaro vai fazer uma aposta familiar para enfrentar Lula? Em caso de segunda opção — que voltou a ganhar força nos últimos dias com a hipótese Flávio Bolsonaro para presidente — Caiado ganha força para se viabilizar.
Desde 5 de fevereiro, Zema já havia feito movimento semelhante ao do goiano de olho na própria comunicação. O Novo contratou a Triton Consultoria do antropólogo Renato Pereira, ex-marqueteiro de campanhas no Rio e na América Latina. O contrato de R$ 5,7 milhões vale tanto para atender o governador de Minas, quanto o seu vice, Mateus Simões, recém-filiado ao PSD de Gilberto Kassab e pré-candidato à sucessão no estado. O acordo prevê serviços até agosto do ano que vem, abrindo brecha para uma desistência de Zema caso, por exemplo, Tarcísio de Freitas o convide para ser vice numa chapa presidencial.
Garantir contratos em momentos de pré-campanha com recursos do fundo partidário pode garantir uma bolada ainda maior na hora que a campanha realmente começa abastecida pelo bilionário fundo eleitoral brasileiro. Em 2022, a empresa de Sidônio Palmeira, hoje ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), faturou R$ 25 milhões com o PT para organizar a campanha para o terceiro mandato de Lula.
À espera de Bolsonaro, Tarcísio de Freitas ainda não bateu o martelo sobre quem será o seu estrategista caso realmente embarque em uma corrida presidencial. É impensável o modelo heterodoxo da campanha de Bolsonaro em 2018, quando a maior cabeça pensante da comunicação nas redes era o filho e vereador Carlos. Também não há certezas sobre a repetição do estilo mais convencional da propaganda de Tarcísio para governador, em 2022, criada pelo argentino Pablo Nobel — neste momento engajado na pré-campanha do deputado federal Guilherme Derrite (PP) para o Senado em São Paulo. Há dúvidas no Palácio Bandeirantes sobre o fôlego de Nobel para uma disputa nacional.
Responsável pela campanha de Bolsonaro contra Lula no mesmo ano, o estrategista Duda Lima também parece carta fora do baralho. O núcleo ligado a Tarcísio considera o marqueteiro muito ligado ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Além disso, houve muitas críticas sobre a forma como Duda conduziu a comunicação de Ricardo Nunes (MDB) contra o ex-coach Pablo Marçal na disputa para prefeito de São Paulo, em 2024. O emedebista e o estrategista nem se falam mais desde então — o que é um problema, tendo em vista o esforço de Tarcísio em manter uma boa relação com o partido para 2026.
No início do mês, o governador promoveu um jantar com figuras do MDB mais alinhadas ao seu projeto. Estiveram presentes o presidente Baleia Rossi e três vice-governadores que podem ser candidatos no ano que vem: Gabriel Souza, do Rio Grande do Sul; Daniel Vilela, de Goiás; e Ricardo Ferraço, do Espírito Santo. No encontro, Tarcísio deu sinais de que a escolha de Bolsonaro para presidente ocorrerá no máximo até dezembro. Também disse entender a possível necessidade de neutralidade da legenda na disputa presidencial — especialmente pela postura pró-Lula de lideranças da sigla do Nordeste. Mas, frisou querer o apoio do MDB nos três estados.
Nas últimas semanas, Tarcísio, Zema e Caiado não foram os únicos governadores de direita a se animarem — e se mexerem — a partir do freio no crescimento da popularidade de Lula nas últimas semanas. Embora negue qualquer pretensão presidencial, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), empolgou-se com a subida na sua aprovação após a operação policial que matou 121 pessoas no Complexo do Alemão. Ele questionou o cientista político Felipe Nunes, dono da Quaest, sobre a ausência do seu nome na pesquisa ao Planalto divulgada na semana passada.
Recomendo
- "Tremembé"
É possível fazer uma crítica aos cinco episódios da série do Prime a partir de duas premissas: uma simplesmente artística, e aí é inegável a capacidade da produção de prender a audiência. Para quem estava vivendo em Marte nas últimas décadas, vamos lá: “Tremembé” reproduz a rotina do presídio de São Paulo que abrigou detentos responsáveis pelos mais brutais crimes brasileiros: estiveram por lá Suzane Von Richthofen, Elize Matsunaga, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, Roger Abdelmassih, entre outros.
O cuidado com a reprodução da cadeia é impecável. O elenco está excelente: “A semelhança dos atores com os criminosos reais impressiona”, escreveu a colega Anna Luiza Santiago ao dar nota 10 para a série no Segundo Caderno. No mesmo dia, ela também deu nota zero para a série, partido da segunda premissa de debate que a produção do Prime estimula: afinal, os cinco episódios criaram uma atmosfera de glamour para bandidos cruéis? “Ao debochar das futricas na prisão e da exploração midiática, a própria série cai no sensacionalismo”, escreveu Anna Luiza Santiago. De fato, a charmosa trilha sonora ajuda a criar a sensação: de “Psycho Killer”, do Talking Heads, a uma regravação de “Perigosa”, com Ana Canas, tudo contribui para a sensação de celebração de criminosos contumazes.
Jornalista do blog True Crime e profissional por trás da série do Prime, Ullisses Campbell rebateu a crítica em entrevista recente ao GLOBO: "As pessoas se sentem incomodadas por perceberem que a gente está falando de nós mesmos. O incômodo vem da percepção de que os acontecimentos estão em nosso bairro, na nossa cidade, no mesmo país em que moramos... O brasileiro fica muito à vontade para consumir true crime americano: são assassinos que estão muito longe, do outro lado do mundo. Quando a gente retrata crimes que estão aqui dentro, as pessoas passam a ficar incomodadas".
Ullisses, de fato, tem um ponto. Eu mesmo posso lembrar três exemplos de séries estrangeiras sobre bandidos sanguinários que me encantaram. “Narcos”, com Wagner Moura brilhante no papel de Pablo Escobar; “American Crime Story: o povo contra O. J. Simpson”, com o carismático Cuba Gooding Jr; e o “Assassinato de Gianni Versace”, com incrível atuação de Darren Criss como o psicopata Andrew Cunanan.
Há, contudo, um outro lado da discussão. Essa semana, Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, criticou a série para o jornal Folha de S. Paulo. "É doloroso perceber que, enquanto para muitos parece apenas uma série, para mim é o pior dia da minha vida sendo revivido".
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