Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político.
Ameaçado de perder o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas para o PL, o Republicanos acaba de fechar um contrato milionário com a agência PLKT, do marqueteiro Pablo Nobel, para atuar no período da pré-campanha eleitoral. Os valores giram em torno de R$ 6 milhões para vários serviços, entre eles a contratação de profissionais, a criação de programas de TV e a remuneração do estrategista argentino e seus sócios.
Embora mantenha o discurso público de que será candidato à reeleição em São Paulo, Tarcísio se movimenta de olho na disputa pelo Planalto — e é justamente diante do cenário de possível enfrentamento a Lula que se insere o gesto do Republicanos. O partido comandando pela Igreja Universal do Reino de Deus tenta segurar a sua principal estrela diante do assédio da sigla liderada por Valdemar Costa Neto.
A quem lhe questiona, Marcos Pereira, presidente do Republicanos, garante que Tarcísio não vai mudar de partido em 2026. Seu rival, o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara e ligado ao pastor Silas Malafaia, ironiza o contrato de comunicação para o governador de São Paulo:
— O Republicanos está rasgando dinheiro. Antes de ser preso, Bolsonaro determinou: se Tarcísio for candidato a presidente, terá que se filiar ao PL e usar o “22”. Não tem nem discussão.
Se o único fator a balizar a decisão fosse a vontade de Tarcísio, de fato não haveria a transferência de partido no ano que vem. Assim como, se dependesse apenas do governador, nenhum integrante da família Bolsonaro estaria na sua chapa para presidente. Mesmo leal ao clã nas falas públicas, Tarcísio e seu time de comunicação sabem que Michelle, Flávio, Eduardo e Carlos atraem rejeição. A troca de farpas da semana entre os quatro acabou ajudando o governador nos seus planos. Quem esteve o ano todo defendendo a chapa Tarcísio-Michelle no PL passou a dizer nos últimos dias que a hipótese foi implodida pela mulher do ex-presidente.
No debate sobre a melhor estratégia para a direita no Ceará, o governador de São Paulo se calou, mas internamente manifesta-se favorável à posição dos filhos de Bolsonaro de apoiar a candidatura do ex-governador Ciro Gomes, pelo PSDB. O estado é considerado estratégico no Nordeste assim como a Bahia. Tarcísio aposta que tanto Ciro quanto ACM Neto ajudarão a campanha presidencial a reduzir a diferença que Lula teve nesses estados em 2022 contra Bolsonaro.
O governador de São Paulo vem sendo estimulado a pensar na alternativa Romeu Zema (Novo) para vice. O mineiro tem dois obstáculos para entrar na chapa: além da família Bolsonaro querer estar representada na candidatura, o Centrão também almeja a posição.
— Zema não faz sentido. Talvez a melhor ideia seja colocar uma mulher na vice. É o segmento onde enfrentamos maior rejeição desde a última eleição — analisa Sóstenes Cavalcante.
Recomendo
- “O dilema das galinhas felizes”
Uma troca de mensagens de dois intelectuais entre 26 de fevereiro e 26 de abril virou um livro fácil de ler em uma tarde. De um lado, o historiador badalado Leandro Karnal, autor de "O dilema do porco espinho" e "Pecar e perdoar", além de responsável por um canal no Youtube ("Prazer, Karnal") e pelo podcast "Platitudes", com a advogada Gabriela Prioli. Do outro, o professor Gustavo Arns, pesquisador de felicidade e bem- estar e autor de "Ser feliz: é possível?".
O título da obra transmite a essência do diálogo entre os dois: trata-se de uma ironia da mensagem que um dia Karnal leu ao se preparar para fazer seu omelete matinal: "Ovos de galinhas felizes", dizia a embalagem. Nas conversas, o historiador assume o papel de cético e provocador com relação à obsessão contemporânea pela felicidade como se fosse algo imperativo, um produto a ser consumido, uma meta a ser atingida até pelas galinhas. Arns tem mais a pegada de pensar que métodos podemos adotar no dia a dia para o processo contínuo de construção da felicidade (jamais um pódio permanente, mas um caminho que aceita dores, perdas e a dimensão trágica da existência).
Gosto muito da parte do livro que fala sobre o tema religião e espiritualidade. Arns destaca essa dimensão como importante para o desenvolvimento de um bem-estar interno: "A associação entre espiritualidade e saúde está documentada em diversas pesquisas científicas. Há evidências de que pessoas com espiritualidade bem desenvolvida tendem a adoecer menos e ter hábitos de vida mais saudáveis (...). A espiritualidade envolve a crença de que existe uma dimensão da vida além da compreensão do intelecto humano, mas que pode ser concretizada nas nossas relações pessoais, por nosso senso de esperança, perdão, humildade, gratidão, sentido, significado, estado de presença... É um posicionamento interno do qual resulta uma atitude ante a vida".
O ateu Karnal reage: "Há muito sofrimento em muitas religiões, muita culpa, violência e muito preconceito. Muitas pessoas diminuem sua capacidade de felicidade porque seus desejos, como os sexuais, por exemplo, não batem com a perspectiva da sua crença. Assim, a religião em certos contextos, pode ser boa para a paz interior e felicidade, mas também pode ser um elemento de reunião de psicopatas que vigiam a vida alheia e punem quem diverge deles, na tentativa de exorcizar seu próprio desejo".
Ao longo de 143 páginas, são muitas as referências históricas de pensadores do passado sobre o tema felicidade. Escolhi cinco para dividir por aqui:
"Felicidade é seguir desejando aquilo que já se possui", de Santo Agostinho, em perfeita definição do que é gratidão.
"Ser imbecil, egoísta e ter boa saúde: eis as três condições necessárias para ser feliz. Mas, se a primeira faltar, tudo está perdido", de Gustave Flaubert, em fina ironia sobre a importância da ignorância em alguns momentos para se manter a sanidade.
"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade", de Carlos Drummond de Andrade.
"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem", de Guimarães Rosa.
"Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário. Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas. Se achar que precisa voltar, volte. Se perceber que precisa seguir, siga. Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se perder um amor, não se perca. Se o achar, segure-o", de Fernando Pessoa.
- Jogo Político