Em meio à acirrada disputa entre o vereador Carlos Bolsonaro (PL-SC) e a deputada federal Carol de Toni (PL-SC) para concorrer ao Senado Federal por Santa Catarina, o governador do estado, Jorginho Mello (PL), permanece sem se manifestar abertamente sobre o imbróglio. Principal parte interessada no assunto, o mandatário começou a ser cobrado por bolsonaristas por seu apoio ao atual senador Esperidião Amin (PP-SC), que concorrerá à reeleição, deixando apenas uma vaga para o PL na chapa. Ao mesmo tempo, no final de semana, ele elogiou publicamente a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), uma das principais críticas no partido à candidatura de Carlos.
O acordo com Amin e o PP busca garantir a Jorginho mais tempo de TV e o palanque de um dos políticos mais experientes do estado, na tentativa de conquistar um novo mandato no ano que vem. No fim de outubro, o vereador carioca chamou Campagnolo de "mentirosa" quando ela explicou a apoiadores que o acordo de Jorginho foi uma negociação do próprio PL com o PP, e que Carlos estaria tirando a vaga de Carol de Toni.
Bolsonaristas têm acusado Jorginho, no entanto, de quebrar outro acordo. Em um vídeo publicado no sábado, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) afirmou, sem citar o governador, ser "martelo batido" que seu pai poderá indicar Carlos para uma das vagas. Um eventual "recuo", segundo o parlamentar, poderia ser visto como uma derrota para o ex-presidente Jair Bolsonaro e um convite para que outros políticos "se rebelem" e deixem de seguir as ordens e acordos firmados com a principal liderança do partido.
— Ana Campagnolo está praticamente, talvez não intencionalmente, convidando todo mundo a se rebelar. Imagina nos 27 estados ter o problema de Santa Catarina, de o deputado estadual mais votado (Campagnolo) não seguir uma diretriz do líder do movimento, e acontecendo isso tudo — frisou o parlamentar em outro momento.
Com o avanço da crise e o silêncio de Jorginho, as redes sociais do governador passaram a ser alvo de críticas de apoiadores, que apontam “decepção” por não endossar a candidatura de Carlos. Outra crítica pública foi do deputado estadual por São Paulo Gil Diniz (PL), que cobrou “explicações aos bolsonaristas de por que deixou Bolsonaro ser tão desgastado" com a indefinição.
Na publicação mais recente do governador na rede social X, sobre a entrega de materiais escolares para estudantes do estado, grande parte dos comentários foi em tom de cobrança a Jorginho. "A culpa dessa briga também é sua, não fuja da responsabilidade", escreveu um apoiador. "Só aceitamos o que foi combinado com Bolsonaro, você não vai querer os bolsonaristas todos os dias em suas publicações", publicou outro internauta.

'Ela sabe colocar as palavras'
No evento Rota 22, promovido pelo PL na noite da última sexta-feira em Blumenau (SC), Jorginho abraçou e elogiou Campagnolo no palco após a deputada discursar. Ele destacou que a parlamentar faz um "grande trabalho" no estado e afirmou que sua votação "vai dobrar" nas eleições de 2026. Também estiveram no local os senadores Jorge Seif (PL-SC) e Rogério Marinho (PL-RN) e os deputados federais Ricardo Ghidi (PL-SC) e Zé Trovão (PL-SC).
— Essa moça bonita e querida aqui, Ana Campagnolo, inteligente, escritora, orgulha o parlamento de Santa Catarina pelo que representa. Eu gosto muito de ouvi-la. Ela tem cultura, sabe colocar as palavras. Eu tenho muito prazer e muito orgulho em ela ser nossa deputada — ressaltou o governador, sob aplausos.
No discurso, a deputada também fez declarações direcionadas a Jorginho. Segundo ela, o estado tem um governador que "gera vida" e faz de Santa Catarina "o melhor lugar do mundo para se viver, não só do Brasil". Nas redes sociais, ao publicar o vídeo da declaração, a parlamentar também escreveu que os catarinenses têm a "tradição da política propositiva, na qual o Estado serve aos interesses do cidadão, e não o contrário".

O afago do governador aconteceu horas depois de Campagnolo discutir com a deputada federal Julia Zanatta (PL-SC), em uma live nas redes sociais, sobre a disputa interna no partido. Zanatta defendeu uma “chapa pura”, ou seja, com as duas vagas para o Senado sendo ocupadas por membros do PL — Carlos e Carol de Toni.
Durante a live, Campagnolo reclamou dos ataques e acusações de "traição" que passou a sofrer de bolsonaristas por conta da discordância. Zanatta, por sua vez, defendeu que a deputada estadual deve se desculpar com Carlos, já que teria angariado a maioria de seus votos apenas pelo apoio da família Bolsonaro.
Eduardo, que em outro momento já teceu críticas a Campagnolo por conta das divergências em relação à candidatura do irmão, já destacou que Jorginho "mostra disposição" para atender aos pedidos do clã Bolsonaro, segundo informou a colunista Bela Megale em maio deste ano. Apontado como um nome com o qual a família do ex-presidente pode contar, ele é um dos poucos governadores de direita poupados por Eduardo nos últimos meses e, ao mesmo tempo, mantém relação próxima com os gestores estaduais já atacados pelo parlamentar.
No final de outubro, em meio à disputa, Jorginho foi visitar Bolsonaro em Brasília, onde cumpre prisão domiciliar. Após o encontro, Carol de Toni informou à rádio catarinense Princesa Xanxerê que, caso não consiga resolver a questão dentro do partido, irá buscar outra legenda para concorrer. De acordo com a deputada, Bolsonaro irá apoiá-la mesmo em outra sigla, mas sem abrir mão de ter Carlos na chapa do PL.
No início deste mês, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou apoio à candidatura de Carol de Toni ao Senado "independentemente da sigla partidária". Já no próximo dia 21, Campagnolo estará com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), em Florianópolis, para o lançamento de um livro de autoria de ambos direcionado ao público infantil.
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