A filiação ao PSD do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, abriu uma frente de disputa na direita e provocou uma corrida pelo apoio do governador Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, estado historicamente com votação decisiva na corrida presidencial. Caciques de dois partidos com intenção de levar adiante uma candidatura própria ao cargo, Valdemar Costa Neto (PL) e Gilberto Kassab (PSD) passaram a mirar o mineiro como peça estratégica em seus projetos, apesar de Zema se apresentar como pré-candidato ao Planalto.
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O movimento de Caiado fortaleceu o PSD como polo alternativo ao bolsonarismo, hoje representado pelo nome de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e ampliou o espaço de manobra de Kassab para negociar com partidos de centro.
A legenda hoje reúne três governadores com projeção nacional — além do próprio Caiado, Ratinho Júnior (PR) e Eduardo Leite (RS) — e preserva liberdade para composições regionais distintas. Esse desenho pode atrair partidos que resistem a um alinhamento antecipado com Flávio e já pressiona o PL a ampliar o leque de alianças.
No entorno de Flávio, Zema é descrito como “excelente aliado” e como nome capaz de equilibrar uma eventual chapa presidencial. O governador dialoga com setores do empresariado e com uma direita de perfil mais liberal. Além disso, Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país e um estado decisivo: desde a redemocratização, o vencedor nacional ganha também entre os mineiros. No pleito de 2022, Lula superou Jair Bolsonaro por apenas 0,4 ponto percentual no estado — ou menos de 50 mil votos—, distância proporcionalmente menor que a registrada nacionalmente.
Na ocasião, a atuação de Zema — reeleito com 56% dos votos no primeiro turno — como cabo eleitoral de Bolsonaro no estado ajudou o ex-presidente a conquistar 900 mil votos a mais em relação ao primeiro turno, mais que o dobro do ganho obtido pelo petista.

Elogio de Bolsonaro
O tema chegou a ser discutido por Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante a visita do paulista ao aliado na Papudinha, anteontem. Segundo interlocutores, os dois discutiram cenários eleitorais. Em um deles, Zema foi lembrado como uma boa opção a vice.
O ex-presidente disse achar viável que Zema desista de sua candidatura. Na conversa, eles citaram ainda os senadores Tereza Cristina (PP-MS) e Ciro Nogueira (PP-PI) como nomes que poderiam cumprir esse papel em uma aliança mais ampla.
Já Valdemar expôs publicamente o interesse do PL em atrair o mineiro:
— Zema seria um ótimo vice. O ideal é estarmos todos juntos no primeiro turno para vencermos as eleições. Vamos conversar com todos os partidos. Temos de trabalhar.
A governadores, porém, Zema insiste no argumento de que terá projeto próprio, mesmo após a mudança no tabuleiro da direita. Ele aposta na pulverização de nomes no mesmo campo e na criação de uma vitrine para o crescimento do Novo, seu partido.
Do lado de Kassab, o PSD integra a base do governo Zema e abriga o vice-governador Mateus Simões, apontado como candidato à sucessão. Simões avalia que a filiação de Caiado fortalece o seu partido e, ao mesmo tempo, melhora o cenário para Zema. Isso porque o PSD afunila a disputa ao concentrar três presidenciáveis — só um deles poderá ser cabeça de chapa.
O vice-governador também garante que o eventual candidato a presidente do seu próprio partido não estará em seu palanque:
— Em Minas, para me filiar, foi uma condição o PSD caminhar com o governador (Zema). Não vejo possibilidade de o Zema recuar do projeto próprio (para presidente) para aceitar ser vice.
Aproximar Zema de uma articulação nacional ajudaria o PSD a consolidar pontes no Sudeste e reforçar o diálogo com um eleitorado liberal que não se identifica automaticamente com o bolsonarismo. O presidente estadual da sigla em Minas, Cássio Soares, reconhece a articulação.
— Zema é um grande aliado e é natural que a gente tente uma composição antes mesmo do processo eleitoral. Respeitamos a posição dele de pré-candidato e o partido Novo, mas é evidente que seria uma excelente opção de vice. Vamos conversar — disse.
Em entrevista ao GLOBO, Eduardo Leite avaliou que mais candidaturas do mesmo campo podem favorecer os candidatos com maior rejeição, em uma referência indireta a Flávio e Lula.
— É legítimo que o governador Zema se apresente — disse Leite. — O problema é que uma dispersão tão grande pode acabar levando para o segundo turno candidaturas com alta rejeição, e acabar fazendo com que o resultado seja ainda mais distante daquilo que gostaríamos.
Apesar do gesto do patriarca do clã Bolsonaro, a eventual aliança de Zema com Flávio ainda enfrenta resistências em parte do PL. Uma ala da legenda defende que a vice seja ocupada por uma mulher. Michelle Bolsonaro é lembrada, assim como a senadora Tereza Cristina, por representar uma boa interlocução com o agronegócio.
No PL, integrantes da Executiva avaliam que a federação União-PP pode caminhar com Flávio e garantem que, nesse cenário, qualquer decisão passará por esse grupo.

Palanque incerto
Aliados de Flávio ressaltam a necessidade de uma aproximação com Zema: hoje, o senador não dispõe de um palanque estruturado em Minas. Sem o apoio do governador, a campanha dependeria de arranjos ainda incertos. Um dos nomes possíveis nesse cenário é o do senador Cleitinho (Republicanos-MG), que ainda não definiu se disputará o governo mineiro.
Dirigentes do Novo afirmam que o governador tem mantido diálogo com diferentes lideranças da direita e do centro, sem restringir as conversas aos dois partidos. Na quarta-feira, ele esteve em São Paulo em agendas que reuniram Leite e Caiado, e tiveram tratativas descritas como “alinhamento de cenário”.
Interlocutores do governo mineiro alegam que o objetivo central da eleição é derrotar Lula e que o melhor caminho para isso é Zema disputar o pleito. Internamente, a pressão de setores do Novo mais alinhados ao bolsonarismo é vista como um fator que pode aproximar o partido de Flávio, já que dificilmente será possível fazer alianças de peso.
Procurado, Zema não se manifestou. Vice-presidente do Novo em Minas, Fred Papatella diz que a multiplicidade de nomes à direita faz parte da estratégia e relativiza o capital político herdado por Flávio:
— Flávio tem rejeição alta, larga muito bem, mas tem um teto limitado. O assédio ao Zema é um sinal maravilhoso, demonstra que o governador tem densidade eleitoral e é estratégico no tabuleiro.