Ao lançar o novo modelo de financiamento imobiliário, em São Paulo, nesta sexta-feira, 10, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reclamou das condições deixadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disse que o país "está arrumado" e que “precisa de uma chance”, uma referência velada à disputa eleitoral de 2026.
— O Brasil está precisando de uma chance. Vocês percebem que as coisas demoram para acontecer no Brasil? Muitas vezes, a gente consegue andar um quilômetro para frente e, quando a gente menos espera, voltamos dois quilômetros para trás. Vocês têm noção da destruição que esse país sofreu nos últimos seis anos? Falta de crédito, de programa, de objetividade — declarou o petista, incluindo na conta a gestão de Michel Temer (MDB), inaugurada com o impeachment de Dilma Rousseff.
Ele criticou a necessidade de promulgar a PEC da Transição, que reorganizou o orçamento antes da posse do novo governo, em 2023.
— A gente teve que passar dois anos tentando reconstruir, teve que fazer uma coisa chamada PEC da Transição, que não deve ter no dicionário brasileiro porque não existe, para ter dinheiro para governar. Porque a tranqueira que governava não cuidou disso. E esse país agora está arrumado.
O petista alegou ainda que existe uma "indústria de jogar desconfiança na sociedade brasileira", porque dados de crescimento econômico não teriam tanta visibilidade quanto a pauta do déficit fiscal, e que o governo é "quem trata com mais responsabilidade" a questão para depois "não passar a vida inteira respondendo processo" por negligência administrativa.
Em outro momento, citou o fato de o país ter deixado o Mapa da Fome, da Organização das Nações Unidas (ONU), o que havia ocorrido em 2014, e repetiu o apelo por "uma chance". A crise econômica, iniciada no governo Dilma, e a pandemia de covid-19 contribuíram para o aumento das taxas de insegurança alimentar no país.
De olho na classe média
Lula direcionou o discurso para a classe média, parcela em que reconheceu existir dificuldade de acesso a alguns programas, e criticou a derrubada, pelo Congresso, da medida provisória que elevava os impostos sobre rendimentos de aplicações financeiras, que foi apelidada pelo governo federal como “taxação BBB”, em referência a “bancos, bets e bilionários”.
— A necessidade de continuar fazendo política de inclusão social é para fazer as pessoas subirem um degrau a mais na escala social e criarmos uma espécie de sociedade de classe média. Mas é nesse país que a gente manda um projeto acordado no Congresso Nacional para que pessoas que ganham mais de 600 mil reais, 1 milhão, paguem uma merrequinha a mais, as fintechs e as bets, e eles votam contra, porque o dinheiro poderia servir para fazer mais política de inclusão.
Houve recados também para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), um dos principais cotados para enfrentar o petista nas urnas em 2026, e para líderes do "Centrão". Tarcísio articulou com dirigentes de partidos e deputados a retirada de pauta da MP, que previa arrecadação de R$ 17 bilhões a mais à União no ano que vem, com eleições marcadas em outubro.
— Estamos fazendo reformas que abrem uma condição para o Brasil de oportunidade e de atração de investimentos que há muito tempo não se via. Aqueles que porventura imaginam que tentando sabotar o Brasil vão deter o curso dos acontecimentos, eles estão muito enganados. Não se ganha eleição sabotando o Brasil, impedindo o governo de fazer o bem. Vamos seguir a nossa vida e entregar o Brasil muito melhor — declarou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT).
O presidente alegou ainda que, antes do MCMV, a maioria das casas era feita pelo próprio povo, através de mutirão, e que o país virou uma “república de invasão de condomínio”. Percebendo o desconforto, sinalizou ao deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), ex-líder do MTST, que estava na plateia, que esses episódios ocorriam apenas porque não havia política governamental suficiente para dar moradias às classes mais pobres.
Diálogo com Trump
Ao final, em mais uma crítica a Bolsonaro e seus filhos, comentou a relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, depois do anúncio do “tarifaço” às exportações brasileiras. A medida, segundo consta em carta enviada por Trump à época, foi motivada por uma suposta perseguição do Judiciário contra o aliado, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão sob a acusação de golpismo.
— Acho que estabeleceu uma relação que nunca deveria ter sido truncada, porque eu nunca tratei presidente de outro país ideologicamente. Quem tem que fazer isso é o povo que o elegeu. Eu não, eu tenho que tratá-lo com respeito de alguém que foi eleito e ele me tratar como alguém que foi eleito e se equipara. O Brasil não tem interesse em brigar com os Estados Unidos.
Lula disse ainda que não tem medo de negociar porque, se os americanos não quiserem comprar os produtos brasileiros, as empresas podem "vender para a China, na Ásia, em qualquer país do mundo". Ele deve viajar para a Indonésia na próxima semana. Segundo o petista, não se pode depender economicamente "de um país ou do humor de um presidente" e que o chefe do Executivo brasileiro não pode "lamber botas" de outro líder global.
— No mundo, ninguém respeita quem não se respeita. Se você acha que lamber botas te ajuda, vai cair do cavalo. As pessoas só te respeitam quando percebem que você tem autoridade moral e caráter.
- Jair Bolsonaro
- Lula