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'Museu do golpe': exposição no Rio reúne registros digitais compartilhados por invasores do 8 de Janeiro

'Museu do golpe': exposição no Rio reúne registros digitais compartilhados por invasores do 8 de Janeiro

O Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, vai receber a partir de 31 de março uma exposição com imagens e vídeos feitos pelos próprios participantes dos atos de 8 de janeiro de 2023, muitos deles posteriormente apagados das redes. O material circulou nas plataformas digitais entre novembro de 2022 e fevereiro de 2023.

A matéria-prima da exposição faz parte do Acervo Digital 8 de Janeiro, projeto desenvolvido pelo Condado Lab, da PUC-Rio, com apoio do Instituto Democracia em Xeque e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT/DSI).

A iniciativa foi criada para preservar conteúdos que circularam nas redes e que poderiam desaparecer ao longo do tempo. Por mais de dois anos, pesquisadores reuniram cerca de 1,2 milhão de metadados, 400 mil imagens e mais de 100 mil vídeos, organizados a partir de metodologias acadêmicas, coleta sistemática de dados e curadoria digital.

Coordenado pelo pesquisador Marcelo Alves, professor da PUC-Rio e integrante do Instituto Democracia em Xeque, o projeto busca transformar esses registros em fonte para pesquisa, ensino e reflexão pública. A exposição é um desdobramento desse trabalho, ao apresentar parte do acervo em um percurso que combina fotos, vídeos e sons com linguagem artística.

— O desafio foi transformar um volume grande de dados em uma experiência que permita ao público compreender como esses conteúdos circularam e o que eles revelam sobre aquele momento — explica Alves.

A mostra é organizada em quatro ambientes — labirinto, mosaico, acampamentos e caverna — que podem ser percorridos livremente pelo visitante. Ao longo do trajeto, reprodução de cenários, mosaicos de fotos e composições sonoras feitas artistas convidados dialogam com o acervo digital e ampliam as possibilidades de leitura da exposição. Alguns desses trabalhos incorporam elementos da bandeira nacional, símbolo amplamente presente nas manifestações do dia 8 de janeiro, mas o deslocam de seu uso recente para provocar uma reflexão sobre as tensões sociais e políticas que atravessam o país.

— Esta mostra traz à tona uma pesquisa atual sobre o apagamento digital e a fragilidade da memória em tempos de plataformas digitais. Ao articular dados, arte e tecnologia, nossa universidade se consolida como um espaço ativo de reflexão, onde a justiça de transição e a cidadania são debatidas para garantir que o passado não seja silenciado, mas sim compreendido para protegermos o futuro — afirma o reitor da UFF, Antonio Claudio da Nóbrega.

A exposição ficará em cartaz até o dia 10 de maio no Centro de Artes da UFF, Rua Miguel de Frias, número 9, em Niterói (RJ).