Nos Estados Unidos com a família desde setembro, a procuradora do estado de Roraima Rebeca Ramagem afirmou na quarta-feira que a ordem de retorno ao trabalho presencial representa uma “perseguição política” pelo governo estadual. Ela alega que o procurador-geral, Tyrone Mourão, age de forma “desproporcional e arbitrária” ao determinar a suspensão do seu regime de teletrabalho.
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A mulher de Alexandre Ramagem disse desejar continuar trabalhando mesmo tendo o salário suspenso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e uma perícia realizada por meio da telemedicina invalidada pela junta médica. Ela está nos Estados Unidos há cinco meses com o marido, que é considerado foragido e foi condenado a 16 anos e um mês de prisão por tentativa de golpe de estado.
Segundo a procuradora, as atividades são “integralmente online” e tanto protocolos quanto audiências e despachos ocorrem virtualmente. Rebeca alega que trabalha de forma não presencial desde 2016 e diz que “não há justificativa técnica e operacional para exigir presença física, quando a própria natureza do trabalho é remota”.
— Eu estou pedindo para ir trabalhar, mesmo com o salário suspenso. Mantenho a minha disposição de exercer minhas funções por compromisso com o serviço público. Ainda assim, tentam me impedir de contribuir. Trata-se de um ato arbitrário, que reforça de forma inequívoca o cenário de perseguição política — disse a procuradora em vídeo publicado nas redes sociais.
Lotada desde 2020 na Coordenadoria da Procuradoria-Geral do Estado de Roraima (PGE-RR) em Brasília, Rebeca atua em ações que tramitam nos tribunais superiores. O GLOBO não conseguiu contato com a PGE-RR. O espaço segue aberto.
No mês passado, Rebeca solicitou uma licença médica de 60 dias do trabalho, a serem contados a partir do dia 22 de dezembro. Ela alegou que o pedido foi motivado por “impactos reais, concretos, emocionais e psicológicos” decorrentes da situação vivida por sua família nos últimos meses.
Segundo a procuradora, o afastamento não foi uma escolha pessoal, mas uma “necessidade clínica”, indicada por médicos diante do que classificou como um contexto “desumano e cruel”. Rebeca estava de férias desde novembro, com sucessivos pedidos de prorrogação, até o dia 19 de dezembro. O Judiciário entrou em recesso no período e retomou as atividades em 6 de janeiro.
Em paralelo, a procuradora tenta reverter o bloqueio das contas no STF. Em mandado de segurança distribuído ao ministro André Mendonça, ela afirma não ter sido previamente notificada da decisão e sustenta que a medida a impediu de receber salário, gerando, segundo a defesa, um quadro de “insegurança alimentar” para ela e as duas filhas, de 14 e 7 anos.
Fuga de Ramagem
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou em dezembro que Ramagem saiu do Brasil de "forma clandestina", sem passar por nenhum posto migratório.
— A rota foi clara. Foi via Guiana, saindo clandestinamente do Brasil, não passando por nenhum ponto migratório, embarcando do aeroporto de Georgetown para Miami. Esse foi o caminho, a investigação agora segue para ver se há outros envolvidos e quais são as circunstâncias — disse o diretor-geral.
Segundo coluna da Malu Gaspar, do GLOBO, Ramagem chegou a Boa Vista no final da noite de 9 de setembro, dia em que Alexandre de Moraes leu o voto pela condenação dos oito réus do núcleo crucial da trama golpista.
No dia seguinte, já estava na Guiana. No dia 11, pegou um voo direto de Georgetown para a Flórida, em Miami, onde entrou com passaporte diplomático de parlamentar e está até hoje com a mulher e as filhas.
Os investigadores da PF descobriram a fuga de Ramagem quando foram verificar a localização de cada um dos condenados do núcleo crucial do plano golpista – entre os quais estão também Jair Bolsonaro, os generais Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira, o almirante Garnier e o ex-ministro da Justiça Anderson Torres. Os seis não fugiram e cumprem a pena no Brasil.
- Alexandre Ramagem