Em mais um movimento de afastamento do bolsonarismo, o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) disse que "se arrepende" de ter tratado o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como "mito" e afirmou que tem preferido "andar sozinho do que mal acompanhado". Em discurso na tribuna da Câmara, o parlamentar, que atua como pastor da Assembleia de Deus Missão, também afirmou que não quer mais ser visto como "extremista". A declaração foi feita ontem, no dia seguinte à determinação de trânsito em julgado da condenação de Bolsonaro e dos outros sete réus do núcleo crucial da trama golpista.
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— Me arrependo quando gritei mito num lugar onde só deveria cultuar o Senhor. A culpa nunca foi de Bolsonaro. A culpa foi minha mesmo. Por isso, resolvi alertar meus irmãos que estão no mesmo lugar que ainda estive — disse. — Estou envergonhado, porque não parecia um pastor. Parecia um louco, que acha que tudo se resolve na bala e no tiro.
Durante o mandato de Bolsonaro na presidência, Otoni chegou a ocupar a função de vice-líder do governo na Câmara. O parlamentar, no entanto, tem intensificado sinais de distanciamento do bolsonarismo e de aproximação do governo Lula (PT) nos últimos meses. No ano passado, por exemplo, ele agradeceu publicamente e fez elogios ao petista pela criação do Dia Nacional da Música Gospel. À época, o aceno gerou acusações de traição política por expoentes protestantes.
O afastamento também se aprofundou após o parlamentar agir como articulador da candidatura à reeleição do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), e não apoiar o nome escolhido pelo bolsonarismo na disputa municipal do ano passado, o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). Já em fevereiro deste ano, ele perdeu a disputa pelo comando da Frente Parlamentar Evangélica no início deste ano para o deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), que angariou o apoio do ex-presidente e seus aliados.
Recentemente, Otoni também ficou do lado do governo ao se manifestar a favor da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal, após o anúncio da aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso. Ele também foi crítico à realização da megaoperação contra o Comando Vermelho, que resultou na morte de 122 pessoas, realizada pelo governador Cláudio Castro (PL-RJ).
— Ao invés de ficar ao lado da Justiça, eu preguei que bandido tem que morrer. Em vez de denunciar o pecado do racismo, preferi dizer que racismo não existe na minha nação. Em vez de ser a favor da equidade, resolvi ser a favor da tal meritocracia. Como se filho de pobre pudesse concorrer com o rico — acrescentou em seu discurso na Câmara ontem.
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