As alegações de Jair Bolsonaro de que decidiu "meter ferro" na tornozeleira eletrônica por "alucinação" decorrente de suposta interação medicamentosa ganharam destaque na imprensa internacional nas últimas 24 horas. Preso preventivamente desde sábado, o ex-presidente afirmou em audiência de custódia no Supremo Tribunal Federal (STF) que uma "certa paranoia" o motivou a mexer no equipamento. A atitude foi um dos motivos citados pelo ministro Alexandre de Moraes para determinar a custódia cautelar do ex-mandatário para uma sala na Superintendência Regional da Polícia Federal.
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"Jair Bolsonaro alega que 'surto psicótico' o fez violar tornozeleira eletrônica", diz o título do jornal The Guardian. O diário britânico destacou que o ex-presidente brasileiro afirmou ter usado um ferro de solda para danificar o aparelho, pois, segundo ele, "estava alucinando que estava grampeado". As declarações foram feitas "em meio a suspeitas de que ele planejava fugir para uma embaixada estrangeira para evitar ser enviado para a prisão e cumprir uma sentença de 27 anos por arquitetar uma tentativa fracassada de golpe", contextualizou o Guardian.

Na audiência de domingo, conforme relatou The Guardian, Bolsonaro disse não se lembrar de sofrer um episódio psicótico semelhante antes e atribuiu o surto a dois medicamentos que começara a tomar dias antes.
O jornal New York Times descreveu a cronologia dos fatos — do primeiro alerta recebido pelas autoridades à detenção de Bolsonaro na PF. O jornal escreveu que Bolsonaro alegou, na audiência de custódia, "que havia queimado a tornozeleira eletrônica porque seus medicamentos lhe causaram 'alucinações' e 'paranoia' de que o dispositivo pudesse ser usado para espionagem". O NYT pontuou que as suspeitas de articulação de uma fuga não são novas e lembrou contatos do ex-presidente e parentes com aliados de outros países.
"Após uma operação policial no ano passado que teve como alvo ele e seu círculo íntimo, o Sr. Bolsonaro pareceu estar planejando pedir asilo na Argentina , segundo a polícia, embora não esteja claro se ele chegou a concretizar o pedido. Dias após a operação policial, Bolsonaro passou duas noites na Embaixada da Hungria no Brasil, numa aparente tentativa de obter asilo num país liderado por um aliado de direita, o primeiro-ministro Viktor Orbán. E este ano, um dos filhos do Sr. Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, pressionou o presidente Trump para que ajudasse seu pai, alimentando temores de que o Sr. Bolsonaro pudesse fugir para lá", destacou o NYT.
A rede BBC também destacou que Bolsonaro atribuiu os danos à tornozeleira "à 'paranoia' induzida por medicamentos". O canal britânico disse, ainda, que o ex-presidente brasileiro admitiu ter tentado abrir o aparelho com um ferro de solda na sexta-feira, "até que 'recobriu os sentidos', segundo documentos judiciais". Ressaltou que, para as autoridades, a situação representou risco de fuga do político, descrito como um condenado por conspiração para golpe de Estado.

A agência Reuters escreveu que, na audiência, Bolsonaro negou qualquer intenção de fugir ou tentar remover a tornozeleira. "O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro disse a um juiz neste domingo que a paranoia e as alucinações induzidas por medicamentos o levaram a adulterar uma tornozeleira eletrônica, segundo documentos judiciais, um dia depois de a polícia tê-lo detido por medo de que ele pudesse fugir", resumiu o veículo de imprensa, que destacou o fato de outras pessoas — a filha, o irmão mais velho e um assessor — estarem dormindo na casa naquela hora.
A justificativa dada em audiência de custódia também foi destaque no Al Jazeera. O canal publicou uma imagem do filho do ex-presidente, o senador Flávio Bolsonaro, às lágrimas — durante a vigília convocada para as proximidades do condomínio onde o pai estava em prisão domiciliar desde agosto — e reportou a menção às "alucinações" supostamente decorrentes da mudança de medicação. Al Jazeera também ressaltou que, para os advogados de Bolsonaro, a prisão cautelar na sala da PF representa um risco dado o "estado de saúde precário" do cliente.
A agência AFP, por sua vez, também reportou o "estado de paranoia" citado por Bolsonaro e deu destaque ao vídeo divulgado na véspera, que mostrava os danos ao aparelho e outra "justificativa".
"Em um vídeo divulgado pelo tribunal no sábado, Bolsonaro admitiu ter usado um ferro de solda na tornozeleira eletrônica por 'curiosidade'. O vídeo mostrava o dispositivo gravemente danificado e queimado, mas ainda preso ao tornozelo dele", diz trecho da reportagem da agência.
Outros veículos da imprensa francesa, como Le Parisien, RTL e BFMTV, também publicaram a alegação de "paranoia" de Bolsonaro, assim como os portugueses Público e Expresso.