UNO MEDIA

Planalto muda tom, veta ministros, mas Janja mantém planos de desfilar em carro na Sapucaí

Planalto muda tom, veta ministros, mas Janja mantém planos de desfilar em carro na Sapucaí

Após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontar em julgamento a possibilidade de cometimento de crimes eleitorais na Marquês de Sapucaí, o Palácio do Planalto recuou e decidiu vetar a participação de ministros no desfile da Acadêmicos de Niterói, que abrirá o Grupo Especial amanhã. A agremiação vai homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em evento cercado de riscos políticos para a campanha à reeleição. Apesar do receio de parte do governo com uma repercussão negativa, a primeira-dama Janja da Silva deve ser a única no círculo do poder a desfilar. A previsão é de uma aparição no último carro alegórico.

  • 'Tiro sai pela culatra': Ex-marqueteiro do PT critica presença de Lula e Janja na Sapucaí
  • Presidente e carnaval: Única vez de Lula na Sapucaí teve parceria com Cabral e Paes e benção a casamento de Neguinho da Beija-Flor

Lula vai acompanhar o desfile no camarote da prefeitura do Rio, acompanhado do prefeito Eduardo Paes (PSD) e de aliados. Será apenas a segunda vez que o petista irá à Sapucaí no cargo, repetindo 2009. Com a decisão de vetar presença na avenida, o governo tenta controlar “excessos” que podem caracterizar propaganda eleitoral antecipada.

Na quinta-feira, o plenário do TSE rejeitou, por unanimidade, dois pedidos apresentados pelos partidos Novo e Missão que tentavam barrar o desfile da escola de samba de Niterói. Os ministros apontaram que a proibição seria uma censura, mas ressaltaram que foram apresentados indícios de riscos de ilícitos eleitorais. O caso segue sob análise da Corte, e o Ministério Público Eleitoral foi citado para se manifestar.

Parecer da AGU

O veto aos ministros foi decidido em paralelo a um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) sobre o tema. O órgão listou uma série de orientações sobre conduta repassadas a integrantes do governo, como pagar com recursos próprios a viagem ao Rio para assistir aos desfiles, não solicitar voos da Força Aérea Brasileira (FAB) e também não transmitir o desfile em redes institucionais do governo.

A agremiação, que pela primeira vez desfilará no Grupo Especial, apresentará um enredo que conta a história de Lula, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”.

As legendas acusam Lula, o PT e a escola de samba de propaganda eleitoral antecipada. A presença de Janja na avenida preocupa parte do governo sobre possíveis efeitos políticos negativos, mas aliados da primeira-dama defendem a decisão dela.

— Não há impedimento de nenhuma natureza para que a primeira-dama possa desfilar, cabe a ela a escolha de ir ou não ao sambódromo. Não foram assegurados a ela direitos que possam ser equiparados a ministros de Estado ou a outras figuras do governo federal. Não há sentido em impor restrições que são próprias a eles. Estão tentando criminalizar o desfile, o que é um equívoco e chamará ainda mais atenção à apresentação — afirma o coordenador do Grupo Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho, que acompanhará Janja no desfile.

Na quarta-feira, em vídeo nas redes sociais, o ex-marqueteiro de Lula João Santana criticou a ida do petista e da primeira-dama ao carnaval do Rio. Segundo ele, a exposição cria um “cenário de soma negativa, onde todos saem perdendo” e que o “tiro pode sair pela culatra”, diante de um cenário de judicialização na política.

Na quinta-feira, a presidente do TSE, Cármen Lúcia, afirmou que a decisão da Corte que manteve a realização do desfile não representava um “salvo-conduto”.

— Não está entrando em uma área de que a matéria foi resolvida, ela foi resolvida só em indeferimento de liminar, o processo continua. O MP vai ser citado para manifestação — disse, acrescentando que a Justiça Eleitoral estará atenta. — É um ambiente propício para que haja excessos, abusos e ilícitos. A festa de carnaval não pode ser fresta para ilícitos. Anunciam-se como participantes possíveis candidatos. Há risco concreto e plausível de que venha a acontecer algum ilícito que será objeto com certeza da Justiça Eleitoral, que já foi acionada — disse.

Lula embarcou na sexta-feira para um tour de carnaval que começará pelo Recife, onde irá ao Galo da Madrugada, passará por Salvador, onde verá apresentação de trios elétricos, no sábado, e terminará domingo na Marquês de Sapucaí.

Como mostrou O GLOBO, há um clima de preocupação generalizada no governo com a disseminação de críticas. Há o receio de que Lula fique exposto, especialmente a vaias — algo que poderia ser explorado por adversários nas redes sociais num momento considerado por eles como sem grandes crises envolvendo o governo.

Outro grupo de integrantes do governo, no entanto, defende que a ida do presidente às festividades o aproxima do povo, pontuando que é importante Lula estar mais na rua.

Recomendações

Na sexta-feira, a partir do parecer da AGU, a Comissão de Ética Pública da Presidência da República também fez uma série de recomendações às autoridades do governo federal em festejos de carnaval. Entre as recomendações está não receber diárias e passagens para desfiles ou festas, além da recomendação de recusa de convites de empresas com relações com seus órgãos. A comissão foi acionada pela Secretaria de Comunicação Social (Secom), chefiada por Sidônio Palmeira. As quatro recomendações da Comissão de Ética levam em conta o parecer da AGU.

Outra recomendação é a necessidade de que atividades de caráter institucional desempenhadas durante o carnaval sejam registradas no sistema de agendas públicas do governo. Há ainda orientação de que, em festividades, eventos e programas culturais, as autoridades “não realizem manifestações que possam vir a ser caracterizadas como propaganda eleitoral antecipada, por conter pedido explícito de voto ou veicular conteúdo eleitoral”.

  • Janja
  • Lula