Em um gesto para preservar capital político e evitar uma escalada de atritos com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador do Paraná, Ratinho Junior, anunciou ontem que vai se retirar da corrida à Presidência e permanecer no cargo até o fim do mandato. A desistência abre caminho para que o chefe do Executivo de Goiás, Ronaldo Caiado, se consolide como candidato do PSD, de acordo com integrantes da cúpula do partido.
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Entre os três nomes da legenda que disputavam a indicação que deve ser feita nesta semana — há no páreo também o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite —, Ratinho era visto internamente como o preferido do presidente da sigla, Gilberto Kassab. Ele chegou a indicar em conversas com aliados e integrantes de outros partidos que aceitaria a missão, reuniu aliados em almoço visto como uma despedida do Palácio do Iguaçu, ontem, mas recuou diante de mudanças no cenário político.
O movimento aconteceu menos de uma semana depois de Flávio Bolsonaro anunciar apoio à candidatura ao governo do Paraná do senador Sergio Moro, que vai deixar o União Brasil e se filiar hoje ao PL.
Resistências na família
Sob o risco de ver seu grupo político perder o comando do estado, Ratinho decidiu permanecer no cargo de governador e usar a força da máquina para impulsionar o secretário de Cidades, Guto Silva (PSD). A tendência é que o escolhido de Ratinho conte com o apoio da futura federação União-PP, que não deu aval para a candidatura de Moro. Familiares vinham mostrando resistência também à possibilidade de Ratinho embarcar na corrida ao Palácio do Planalto, segundo aliados.

Ao mesmo tempo, o governador paranaense evita um confronto nacional com Flávio e faz um gesto para distensionar os ânimos com o bolsonarismo no estado. Há dez dias, a campanha do PL havia oferecido ao governador do Paraná a vaga de vice na chapa ao Planalto, mas na ocasião Ratinho havia reiterado a candidatura. Flávio, então, optou pelo apoio a Moro.
Com a negativa, a campanha de Flávio havia decidido que seria necessário adotar um tom crítico contra Ratinho já na pré-campanha, buscando desgastá-lo e concentrar os votos da direita no PL.
A expectativa na cúpula do PL agora é que o governador apoie a candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro ou pelo menos faça acenos, ainda que o PSD lance candidato. No cenário local, Flávio deve contar com um palanque duplo. O PL estará formalmente com Moro, mas o senador também deve apoiar o candidato do PSD ao governo do Paraná. Ratinho tentou desfazer o acordo entre Moro e PL, mas não teve sucesso.
O PSD sempre tratou Ratinho como favorito internamente e havia uma avaliação de que ele só não seria candidato se não quisesse. Com a desistência, a legenda reforçou em nota que vai ter candidatura própria à Presidência e que o anúncio do nome será feito até o fim do mês.
“Eduardo Leite e Ronaldo Caiado são governadores muito bem avaliados, com inúmeras realizações ao longo de suas vidas públicas. Ambos têm apresentado seus projetos para o Brasil, que nortearão o plano de governo do candidato do PSD. A escolha, como afirmado anteriormente, deve ocorrer até o fim deste mês de março”, diz o texto.
A movimentação reconfigura a disputa interna do PSD e aponta para o favoritismo de Caiado. Segundo relatos, o governador goiano já avisou à equipe e marqueteiros que pretende disputar o Planalto e passou a cobrar dedicação integral ao projeto. Há, no entanto, resistências dentro do partido. Dirigentes avaliam que seu perfil mais à direita pode dificultar a montagem de palanques no Nordeste, região considerada estratégica. Ainda assim, com a saída de Ratinho, ele passa a ser o nome mais disposto a levar adiante a candidatura.
Já Leite afirmou ontem nas redes sociais que segue com a “disposição de liderar este projeto de um centro democrático que ofereça aos brasileiros um novo caminho de união, esperança e futuro”.
Ratinho disse, por sua vez, que decidiu concluir o mandato “após profunda reflexão com sua família” e que está “convicto de que deve manter o compromisso selado com os paranaenses”, acrescentando que não pode “interromper o projeto que tem garantido o ciclo de crescimento econômico do Paraná”. Ele acrescentou que vai se dedicar ao setor privado e assumir o comando do grupo de comunicação criado pelo pai, o apresentador Ratinho.
Intenção de voto
A pesquisa de intenção de voto mais recente, divulgada há duas semanas pela Quaest, mostra que Ratinho era o candidato do PSD mais bem posicionado.
Um dos cenários pesquisados mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 37% das intenções de voto, seguido por Flávio, com 30%, pelo governador do Paraná, com 7%, e pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), com 3%. Com o mesmo quadro de candidatos, mudando apenas o nome do PSD, Caiado marca 4%, enquanto Leite fica com 3%.
Somada à saída de Ratinho, uma eventual retirada de Zema pode beneficiar Flávio e encurtar a distância para Lula, segundo o levantamento. A distância entre o presidente e o senador é de dois pontos percentuais (36% a 34%) com Caiado representando o PSD e o nome do Novo fora, e de um ponto (36% a 35%) com Leite representando o partido de Gilberto Kassab. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou menos.
Até o início do ano, Caiado era apresentado como pré-candidato à Presidência pelo União Brasil. A saída ocorreu diante da falta de apoio no partido para o projeto nacional do governador de Goiás. O anúncio da filiação ao PSD ocorreu em 27 de janeiro, mas só foi concretizado no último dia 14 de março.
Com as pesquisas em mãos, aliados de Flávio tentam convencer Zema a desistir e já acenaram com a possibilidade de ele ser vice, posto ainda em aberto. O ex-governador, que deixou o cargo no fim de semana, resiste e afirma que seguirá na disputa pela Presidência.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a defender a indicação da senadora Tereza Cristina (PP-MS) para vice de Flávio, mas a parlamentar informou ao dirigente partidário não ter interesse. Ela disse que sua preferência é permanecer no Senado. A senadora era vista como parceira importante para atrair votos sobretudo de mulheres e do setor do agronegócio.
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