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Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, morre aos 83 anos

Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, morre aos 83 anos

José Renato Rabelo, ex-presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), morreu neste domingo (15), aos 83 anos, após enfrentar a evolução de um câncer, segundo informou o partido. Ao longo de mais de seis décadas de militância, atravessou a resistência à ditadura militar, o exílio, a reconstrução partidária na redemocratização e a participação em governos neste século, tornando-se um dos principais formuladores do pensamento do PCdoB.

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Nascido em 22 de fevereiro de 1942, em Ubaíra, no sudoeste da Bahia, Renato Rabelo iniciou a militância ainda adolescente, no contexto da sucessão presidencial que elegeria Juscelino Kubitschek presidente e João Goulart vice, em 1955. Aos 13 anos, já era secretário-geral do grêmio estudantil da Escola Nossa Senhora das Mercês, em Santo Antônio de Jesus, depois de se aproximar da Juventude Estudantil Católica.

Em 1963, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e se destacou no movimento estudantil. Assumiu a presidência da União dos Estudantes da Bahia (UEB) em 1965 e, no ano seguinte, tornou-se vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), em meio ao endurecimento da ditadura militar. Perseguido pelo regime, fugiu da Bahia após investida do interventor Juraci Magalhães e passou a atuar na reorganização do movimento estudantil.

Foi um dos quadros da Ação Popular (AP) e participou da criação da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), incorporada ao PCdoB em 1973, em articulação com dirigentes como João Amazonas e Pedro Pomar. Na década de 1970, assumiu tarefas estratégicas do partido, como a organização de uma rede de apoio a sobreviventes da Guerrilha do Araguaia. Impedido de retornar ao Brasil após a Chacina da Lapa, em 1976, viveu no exílio, estabelecendo-se em Paris ao lado de Amazonas e outros dirigentes, onde integrou a direção provisória da legenda.

Com a anistia de 1979, voltou ao país e participou da reconstrução do PCdoB. Teve papel central na formulação política e programática da legenda, coordenando debates que resultaram no Programa Socialista para o Brasil e, mais tarde, no Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (NPND), aprovado no 12º Congresso, em 2009. Defendia que a construção partidária se assentava em três pilares: política, ideologia e organização.

Eleito presidente do PCdoB no 10º Congresso, em 2001, sucedeu a João Amazonas e comandou o partido até 2015. A morte de Amazonas, em 2002, foi, segundo relatou, um dos momentos mais difíceis de sua trajetória. À frente da legenda, ampliou a inserção institucional do partido, que alcançou sua maior bancada na Câmara dos Deputados em 2010 e elegeu, em 2014, o governador do Maranhão, Flávio Dino, além de parlamentares e senadores.

Renato Rabelo foi também entusiasta da criação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e ativo articulador da unidade das forças de esquerda contra o projeto neoliberal dos anos 1990 e, mais recentemente, contra a extrema direita. No 15º Congresso do PCdoB, em 2021, defendeu a construção de uma ampla frente democrática para derrotar Jair Bolsonaro e reconstruir o país.

Internacionalista convicto, manteve laços com organizações políticas de países como China, Cuba e Vietnã. Presidiu a Fundação Maurício Grabois, onde intensificou a produção teórica e promoveu debates para enfrentar a onda reacionária que levou Bolsonaro à Presidência, em 2018.

Em 2025, lançou a biografia “Vida, ideias e rumos”, escrita por Osvaldo Bertolino, em 848 páginas, com apresentações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-presidente Dilma Rousseff. No prefácio, a atual presidente do PCdoB, Luciana Santos, afirmou que conhecer a trajetória de Renato é fundamental para entender a influência do partido na construção do legado nacional e descreveu sua história como “um sopro de inspiração”.

Lula lamentou a morte do ex-dirigente e afirmou que a democracia brasileira “perdeu hoje um de seus maiores nomes”. Em publicação nas redes sociais, recordou a convivência com Rabelo desde as greves do ABC, passando pela campanha das Diretas Já e pelas campanhas presidenciais.

“A visão estratégica de Renato Rabelo e sua capacidade de reunir as forças políticas em prol da soberania e justiça social seguirão, sempre, ajudando a guiar o caminho daqueles que querem construir um Brasil melhor para todas e todos”, escreveu.

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, também divulgou nota de pesar, na qual destacou a capacidade de diálogo, construção e formulação de Rabelo.

“Rabelo é daqueles companheiros que fazem falta na política, em razão da capacidade de diálogo, de construção e de formulação. Neste momento de dor, deixo meu abraço fraternal à esposa, Conceição Leiro Vilan, aos filhos André e Nina, além de familiares, amigos e toda militância do Partido Comunista do Brasil”, afirmou.