A empresária Roberta Luchsinger foi alvo nesta quinta-feira de busca e apreensão em operação da Polícia Federal que apura descontos indevidos de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ela é suspeita de envolvimento com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", figura central na investigação.
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Luchsinger é herdeira de um ex-acionista do banco Credit Suisse. A investigação revela que ela e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", mantiveram contato e articulações mesmo após o início das investigações.
Conforme a Polícia Federal, Luchsinger faria parte do "núcleo político" da organização criminosa. "Sua atuação se revela essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais", diz a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a PF, a empresa de Luchsinger, a RL Consultoria, recebeu um total de cinco pagamentos de R$ 300 mil, totalizando R$ 1,5 milhão. Conforme a investigação, os contratos firmados entre o Careca do INSS e Roberta Luchsinger fugiam das atividades da empresa do lobista.
Em uma das trocas de mensagens, ela alerta sobre as apreensões e pede que ele se livre de aparelhos celulares.
— E só para você saber, acharam um envelope com nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão — escreveu a empresária.
No diálogo, Antunes reage com preocupação, e Luchsinger responde apenas que o Careca "suma" com os telefones. "Joga fora", escreveu a empresária. Segundo a investigação, os dois formaram uma sociedade que tinha interesses em decisões da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde.
Na decisão, Mendonça pontuou que mesmo após a realização da primeira fase da Operação Sem Desconto, em abril deste ano, Antônio e Roberta continuaram "a se falar e a planejar a continuidade dos ilícitos". Ele cita que em um momento, ela diz:
— Distantes nesse momento, mas seguimos. Tudo vai se resolver.
O advogado Bruno Salles, que faz a defesa de Lucshinger, afirmou que ela já tinha se colocado à disposição para prestar esclarecimentos, que nunca teve envolvimento com descontos do INSS e que a relação comercial com Antunes não passou da fase de "prospecção".
Em nota divulgada anteriormente, a defesa pontuou que ela e sua empresa "atuam com a prospecção e intermediação de negócios com empresas nacionais e estrangeiras", e que foi procurada por uma empresa do Careca do INSS para atuação na regulação do setor de empresas de canabidiol.
"Filho do rapaz"
A investigação da Polícia Federal identificou uma série de pagamentos feitos por empresas de fachada ligadas ao lobista. Em uma delas, Antunes conversa com um dos seus diretores sobre o pagamento à empresa de propriedade de Luchsinger. Questionado pelo interlocutor sobre quem seria o beneficiário do repasse, Antunes respondeu que seria "o filho do rapaz", sem citar nomes.
Em outra mensagem, já após o início das investigações, os dois continuam tratando do tema. Em maio deste ano, Luchsinger enviou um áudio a Antunes, comparando a situação dele a de outros escândalos.
— Na época do Fábio falaram de Friboi, de um monte de coisa... igual agora com você — disse.
De acordo com interlocutores da empresária, ela é amiga de um dos filhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luiz Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Ele não é investigado no caso.
CPI INSS
Parlamentares de oposição tentaram aprovar na CPI do INSS requerimentos de quebras de sigilo telemático e fiscal, além de um pedido de convocação, mas as iniciativas foram rejeitadas por articulação da base governista. Nos pedidos, parlamentares pontuaram que o objetivo era esclarecer as relações comerciais e financeiras entre ela e Antunes.
Lucshinger já esteve junto com o lobista em agenda no Ministério da Saúde como representante de uma empresa do setor de tecnologia em telessaúde. A informação sobre esta agenda foi revelada pelo site Metrópoles em agosto.
"Embora negue vínculo formal entre ambos, a empresa confirmou que Roberta Luchsinger representou institucionalmente a empresa junto ao governo federal, o que reforça a necessidade de apurar se houve intermediação de interesses privados junto ao poder público e se a atuação conjunta entre ambos envolveu benefícios financeiros diretos ou indiretos decorrentes das atividades empresariais do Sr. Antonio Antunes", diz um dos requerimentos rejeitados.
O documento dizia, ainda, que "a proximidade profissional e pessoal entre Roberta Luchsinger e o investigado, evidenciada em mensagens obtidas pela imprensa e em registros de lobby coincidentes, suscita indícios suficientes para se verificar eventual movimentação atípica de recursos, fluxos financeiros entre empresas relacionadas e repasses decorrentes das atividades sob investigação".