UNO MEDIA

Tarcísio marca reuniões, sonda marqueteiros e evita visita a Bolsonaro por corrida ao Planalto

Tarcísio marca reuniões, sonda marqueteiros e evita visita a Bolsonaro por corrida ao Planalto

Diante de resistências na direita à candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ampliou conversas políticas de caráter nacional, marcou reuniões com empresários e investidores da Faria Lima e intensificou a interlocução com profissionais de comunicação. Enquanto ensaia essa nova fase de articulação pelo Palácio do Planalto, o chefe do Executivo paulista também busca ganhar tempo, o que o fez adiar uma visita que faria hoje ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso na Papudinha, em Brasília.

  • PT: Gleisi diz ser pré-candidata ao Senado pelo Paraná
  • STF: Lula deve ter nova conversa com Alcolumbre antes de enviar indicação de Messias

As movimentações foram interpretadas por aliados como uma retomada da tentativa de se viabilizar na disputa pela Presidência, ainda que Tarcísio mantenha em público a afirmação de que disputará a reeleição no estado.

A avaliação no entorno de Bolsonaro e do próprio governador é que os gestos ganharam um caráter mais acentuado, o que, segundo interlocutores, chamou a atenção de Flávio. Em reação, o senador disse ao GLOBO que o governador ouviria do ex-presidente na visita que a postulação presidencial estava fora de cogitação e que a reeleição em São Paulo era essencial para a estratégia do bolsonarismo.

Tarcísio desmarcou a ida após a declaração, o que foi lido por aliados como uma tentativa de não se comprometer com a campanha de Flávio. Antes do recuo, ele havia afirmado que ficava “satisfeito com a oportunidade de ver um amigo”.

Iniciativa do ex-presidente

O desejo da visita havia sido manifestado por Bolsonaro, e Tarcísio foi avisado antes de a defesa apresentar o pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) e receber a autorização do ministro Alexandre de Moraes. A mudança de planos gerou reações entre aliados do ex-presidente.

— Fica realmente difícil entender. Milhões de brasileiros até pagariam para ter essa oportunidade — disse o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo.

Procurado, o governo de São Paulo reiterou que Tarcísio será candidato à reeleição e que não vai a Brasília por conta de compromissos que já estavam agendados. Na semana passada, o chefe do Executivo paulista disse publicamente que apoia a empreitada do senador.

Integrantes do Centrão, bloco que ainda resiste à candidatura de Flávio, avaliam que o governador entrou tarde no jogo nacional e agora tenta recuperar terreno. Por isso, dirigentes partidários próximos a Tarcísio não viam ganhos políticos na visita e alertaram sobre riscos de ele ser empurrado para uma associação precoce à estratégia eleitoral da família Bolsonaro. De acordo com um representante do Centrão, “quanto mais a visita for adiada, melhor”.

O movimento é influenciado por setores empresariais, do mercado financeiro e segmentos evangélicos. Dois nomes próximos a Bolsonaro participam dessa articulação, segundo interlocutores: o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten.

Após, a publicação da reportagem, Wajngarten enviou uma nota ao GLOBO. O ex-secretário afirmou que a única pauta política que vem trabalhando é a soltura dos presos do 8 de janeiro e a domiciliar para Bolsonaro. "Wajngarten anda afastado nas últimas semanas da sua rotina por conta de problemas de saúde de familiares", disse em trecho.

Tarcísio deve se reunir nas próximas semanas com um grupo que reúne empresários que estiveram com o senador no mês passado. O entorno do governador espera a presença de nomes como Flávio Rocha (Riachuelo), Richard Gerdau (Gerdau), Alexandre Ostrowiecki (Multilaser) e Mario Araripe (Casa dos Ventos). Eles foram procurados e não comentaram.

Entre o empresariado e na Faria Lima, ainda há desconfiança sobre a competitividade de Flávio contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente por causa da rejeição (55%), enquanto o índice de Tarcísio é de 43%. Assim, a leitura é que o governador teria mais capacidade de expandir o eleitorado.

A defesa da candidatura de Tarcísio encontra eco ainda em lideranças influentes do campo evangélico, como o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo:

— Para derrotar Lula e o PT, é Tarcísio presidente e Michelle vice. Flávio não tem musculatura.

O governador também fez sondagens no campo da estratégia eleitoral. Segundo interlocutores do Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio buscou conversas reservadas com marqueteiros para pedir análises de cenário e testar hipóteses. Segundo relatos, três nomes passaram pelo radar: Lula Guimarães, Duda Lima e Paulo Vasconcelos, que atuou em disputas à Presidência e hoje está na pré-campanha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União).

A ideia do governador, de acordo com aliados, é discutir o cenário nacional e em São Paulo, mapear possíveis desenhos de chapa nas duas hipóteses e ouvir análises sobre o comportamento do eleitorado num cenário em que a direita deve chegar dividida ao pleito, com mais de uma candidatura.

Interlocutores relatam que, nessas conversas, o governador quis ouvir leituras sobre o limite de crescimento eleitoral de seu nome — hoje mais conhecido do campo conservador — e sobre o grau de competitividade de outros pré-candidatos.

Interlocutores de Tarcísio descrevem a iniciativa como uma consulta preliminar, sem tratativas formais de contratação, voltada a medir a viabilidade de uma eventual operação nacional. Procurados, os marqueteiros não comentaram.

Com essas movimentações, um deputado federal e liderança paulista do PP, partido que teve desentendimentos recentes com Tarcísio em São Paulo, diz que o governador “nunca deixou o jogo nacional” e está “falando com todo mundo” manifestando o desejo de concorrer ao Planalto em outubro.

Há ainda um outro fator que serve de estímulo. No entorno do governador, posicionamentos recentes de Michelle foram interpretados como um aval para que ele retomasse as articulações. Ela tem mantido distância de Flávio desde o lançamento da pré-candidatura e, segundo aliados, chegou a dizer que prefere o governador como alternativa para enfrentar Lula. Procurada, a ex-primeira-dama não se manifestou.

A impressão é reforçada por atritos recentes, como os episódios em que Flávio divulgou uma carta de Bolsonaro em apoio à pré-candidatura sem que Michelle tivesse conhecimento e após a queda do ex-presidente na prisão. Na ocasião, a ex-primeira-dama se irritou com o comportamento do senador, que estava nos Estados Unidos e dava declarações políticas em meio à crise familiar.

O ruído aumentou após uma sequência de acontecimentos nas redes sociais. A postagem de Michelle com um vídeo de Tarcísio e o comentário feito por Cristiane Freitas, mulher do governador, dizendo que “o Brasil precisa de um novo CEO”, alimentaram a leitura no entorno de Flávio de que o governador estaria sendo impulsionado pela ex-primeira-dama. A curtida de Michelle no comentário de Cristiane foi tratada por aliados do senador como estímulo ao “fator Tarcísio” no momento em que Flávio tenta se firmar como candidato. Publicamente, o senador negou indisposição.

Caso a articulação ganhe fôlego, aliados de Tarcísio citam como hipótese ideal uma chapa com Michelle ou o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), como vice. Zema, no entanto, tem insistido que não abre mão de seu próprio projeto:

— Irei até o fim com minha pré-candidatura — disse.

Pecha de ‘traidor’

Aliados do chefe do Executivo paulista evitam ações mais contundentes, com o receio de que ele ganhe a pecha de “traidor” no bolsonarismo. Além disso, a tática é parte de um “jogo de espera” por eventuais notícias ruins que possam complicar naturalmente a candidatura do filho mais velho do ex-presidente.

O maior obstáculo para uma eventual candidatura de Tarcísio, no entanto, segue colocado: a disposição de Flávio com o sinal verde de Bolsonaro. Mesmo com os estímulos, aliados veem poucas chances de o governador se lançar sem o apoio do padrinho político.

— Acho muito difícil este arranjo. Flávio já está muito forte nas pesquisas e Tarcísio não vai disputar contra Bolsonaro — afirmou o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).

O argumento se apoia no desempenho recente do filho do ex-presidente. A pesquisa Quaest mais recente mostrou que Lula segue na liderança das intenções de voto em todos os cenários, mas com avanço de Flávio, que marca entre 23% e 32% no primeiro turno. Interlocutores apontam ainda um prazo apertado para uma reviravolta e a dificuldade de deixar uma gestão com a complexidade de São Paulo de uma hora para outra, sem planejamento. (Colaborou Camila Turtelli)

Movimentações recentes

  • 19/01
  • Pedido de vista - Defesa de Bolsonaro pede a Moraes autorização para visita de Tarcísio na Papudinha.
  • 20/01
  • Confirmação de Tarcísio - O governador afirma, pela manhã, que vai visitar o ex-presidente para manifestar solidariedade e apoio.
  • Recado ao governador - Flávio afirma, durante a tarde, que Tarcísio ouvirá de Bolsonaro, na visita marcada para daqui a dois dias, que a disputa presidencial está descartada para o governador e que sua reeleição em São Paulo é "fundamental".
  • Visita cancelada - Tarcísio cancela a vista que faria a Bolsonaro. Em nota divulgada à noite, o governador alegou compromissos no estado e disse que nova data será solicitada.
  • 21/01
  • Bolsonaristas reagem - Aliados do ex-presidente criticam a mudança de planos de Tarcísio, entre eles o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo. O adiamento da visita foi interpretado por lideranças do Centrão como um movimento para ganhar tempo em meio à indefinição da direita na disputa pela Presidência.