O Partido dos Trabalhadores (PT) de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, estuda a possível desfiliação da militante e influenciadora Aline Bardy Dutra, conhecida nas redes sociais como “Esquerdogata”. Filiada ao PT há três anos e meio, ela foi presa na madrugada do último sábado (25) por desacatar policiais militares durante uma abordagem de trânsito, fazendo uso, inclusive, de falas racistas.
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— Não concordamos com nada do que ela disse e não compactuamos com nenhum de seus atos — disse para O GLOBO o presidente municipal do PT em Ribeirão Preto, Edson Fedelino, explicando que o assunto deve ser discutido internamente pelo partido na próxima reunião mensal da célula local da legenda, marcada para 4 de novembro.
Fedelino afirma que, apesar da repercussão, uma decisão sobre Aline ainda deve demorar para ser tomada porque, além de o trâmite de desfiliação envolver uma série de etapas, o tema não é visto com urgência pela legenda.

— Não é apenas pelo que saiu na imprensa que nós vamos tomar atitude, até porque todo filiado tem direito a defesa, e com ela não será diferente — explicou. — Vamos discutir o caso, mas este assunto não é prioridade no momento.
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Questionada, a defesa da influenciadora afirmou desconhecer que o partido tenha feito qualquer movimento no sentido de expulsar Aline Dutra dos seus quadros. "Caso o partido decida por abrir o aventado processo de expulsão, a defesa técnica estará pronta e apta a representá-la, confiante de que o procedimento respeitará o estatuto da agremiação e, que ao final deste, a justiça se realizará em favor da Esquerdogata", respondeu em nota.
Quem é a 'Esquerdogata'?
Com 880 mil seguidores em seu perfil no Instagram, a influenciadora de 45 anos se apresenta como uma “comunicadora popular”. Na rede, Aline compartilha conteúdos sobre política, cultura e direitos humanos, misturando humor e ativismo em vídeos sobre o cenário político atual. Em uma publicação recente, ela comenta uma fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o uso de drogas.
“Não é sobre ‘passar pano’, é sobre entender. O tráfico se fortalece porque existe demanda — e essa demanda vem de pessoas doentes, que precisam de tratamento, não de cadeia. É uma questão de saúde pública antes de tudo. O problema é uma frase dessa colocada por uma sociedade que tem a profundidade de um pires para tratar de assuntos complexos”, escreveu.
Em setembro, a influenciadora ganhou destaque ao gravar uma série de vídeos em frente à casa do ex-presidente Jair Bolsonaro vestindo uma camisa da Seleção Brasileira de futebol. Em um deles, Aline pergunta a um segurança se poderia se ajoelhar na calçada para uma oração. Ela encerra a fala com a frase “Deus que elimine”, o que gerou polêmica. A gravação foi republicada no perfil de um dos seus advogados, Roberto Bertholdo.
“Figura de linguagem, a gente aprende no fundamental dois”, diz em outro vídeo publicado no mesmo mês, explicando que não desejava a morte do ex-chefe do Executivo, mas sim que ele “fique vivo e pague pelos seus crimes”.
Entenda caso que pode causar expulsão de influenciadora do PT
Após a abordagem no sábado, a influenciadora foi detida e levada à delegacia. Durante a prisão, Aline, que apresentava sinais de embriaguez, fez comentários em tom irônico sobre o salário e a classe social dos policiais.
“Vocês acham que têm cacife para me mandar para algum lugar? Sério, de verdade, olha para mim e olha para vocês. A minha sandália vale o carro de vocês”, afirma ela em um vídeo que circula pela internet. “Faz até a nona série, presta (concurso) para a Polícia Federal, ganha R$ 2.500, tem síndrome do pequeno poder e acha que manda em alguma coisa. Não sabe nem como usar essa arma”, continua a mulher.
O caso foi registrado como desacato, resistência e preconceito de raça e cor. Ela foi solta ainda no sábado durante uma audiência de custódia, mas terá que cumprir medidas cautelares “de praxe”, como não sair à noite ou frequentar determinados lugares.
Por meio de nota encaminhada ao GLOBO, a sua defesa afirmou que ainda não teve acesso ao vídeo completo, "bem como a todo contexto da lamentável ocorrência" envolvendo a influenciadora e os policiais em Ribeirão Preto. Conforme o comunicado, "os excessos foram cometidos em decorrência do uso social de álcool logo após ter se utilizado de medicamentos de uso controlado, somados ao pânico que lhe é provocado pela conduta, muitas vezes excessiva, da Polícia Militar do estado de São Paulo”.
Os advogados Douglas Eduardo Marques e Roberto Bertholdo reforçam que Aline "não se exime" da necessidade de pedir desculpas ao policial e também "a quem mais se dirigiu de forma hostil". "Ela, sinceramente, pede desculpas para aqueles que ofendeu e também para todos os seus seguidores", finaliza a nota. De acordo com os registros do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Aline já foi condenada em outro processo, também por desacato contra policiais.
*Estagiário sob supervisão de Alfredo Mergulhão