O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, minimizou nesta quinta-feira o apoio de parte do bolsonarismo a uma eventual candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A declaração ocorre após o cancelamento da visita que ele faria hoje ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), na unidade conhecida como “Papudinha”. Ao GLOBO, Valdemar afirmou considerar “normal” a insistência em torno do nome do governador, mas disse que o chefe do Executivo paulista já está alinhado ao projeto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para 2026.
— É normal insistirem no nome dele. Tarcísio já está com Flávio, mas é que ainda não é hora de fazer campanha. Agora é hora de entregar trabalhos executados — afirmou Valdemar, ao ser questionado sobre a hipótese de uma candidatura de Tarcísio ao Palácio do Planalto.
O cancelamento da visita à Papudinha — autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) — abriu nova frente de ruído dentro do bolsonarismo. A agenda seria o primeiro encontro presencial entre Tarcísio e Bolsonaro desde a prisão do ex-presidente, em novembro, e tinha potencial de gerar imagens públicas de unidade em torno do núcleo bolsonarista, em meio à resistência de parte da direita à pré-candidatura de Flávio.
A possibilidade de uma candidatura presidencial do governador voltou a ganhar tração nas últimas semanas. Como mostrou O GLOBO, Tarcísio ampliou conversas políticas de caráter nacional, marcou reuniões com empresários e investidores e fez sondagens com marqueteiros para testar hipóteses sobre 2026, movimento interpretado por aliados como sinais de reposicionamento para a disputa presidencial, ainda que ele reafirme publicamente que disputará a reeleição em São Paulo.
Nos bastidores, aliados do ex-presidente afirmam que o recuo na visita foi recebido com incômodo por ocorrer em um momento de disputa sensível na direita e por ter sido interpretado como tentativa de o governador preservar margem de manobra.
O desconforto por parte de Tarcisio cresceu após uma declaração pública de Flávio, na qual ele antecipou que Bolsonaro diria ao governador que a hipótese presidencial estava descartada e que a reeleição em São Paulo deveria ser tratada como prioridade estratégica do bolsonarismo. A leitura no entorno de Tarcísio foi de que o encontro deixaria de ser um gesto de solidariedade e passaria a carregar peso eleitoral, com potencial de abrir espaço para cobranças para que ele se engaje mais explicitamente na campanha do senador.
Valdemar, no entanto, descartou qualquer motivação política e atribuiu o cancelamento a um problema de “força maior”. O governador alegou compromissos em São Paulo, mas tem apenas despachos internos.
Segundo Valdemar, o recuo não muda o alinhamento do governador com Bolsonaro e tampouco altera a estratégia do PL para 2026.
— Tarcísio cancelou porque deve ter tido um problema de força maior. Esses dias não vai acontecer nada de novo. Flávio viajou e depois vem o carnaval. Todas as decisões começam a acontecer depois do Carnaval. Não tem outro motivo para o cancelamento. O Tarcísio jamais ficará contra o Bolsonaro — declarou.
A linha adotada por Valdemar busca reduzir espaço para a narrativa de que Tarcísio seria um “plano B” da direita.
Apesar disso, interlocutores do bolsonarismo reconhecem que a insistência no nome do governador continua sendo alimentada por fatores externos e internos: setores do mercado e do campo evangélico tratam Tarcísio como alternativa mais competitiva contra Lula, enquanto parte do entorno de Bolsonaro vê a candidatura de Flávio como desafiadora por resistências dentro do próprio campo conservador.
A atuação de Michelle Bolsonaro no Supremo em torno do pedido de prisão domiciliar do ex-presidente, por sua vez, reforçou nas últimas semanas a leitura, em segmentos bolsonaristas, de que ela e Tarcísio formam uma dupla com potencial eleitoral, ainda que o PL insista publicamente no alinhamento com o senador.