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Veja como votou cada ministro em julgamento que derrubou decisão de Mendonça para prorrogar CPMI do INSS

Veja como votou cada ministro em julgamento que derrubou decisão de Mendonça para prorrogar CPMI do INSS

Em meio ao avanço do escândalo do Banco Master e do acirramento político causado por investigações, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou ontem, por 8 votos a 2, a decisão do ministro André Mendonça que prorrogou a CPI do INSS. Nos últimos meses, o colegiado investiu na análise de documentos relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro e em Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O aumento do escopo da investigação já havia gerado a reação do próprio Supremo e de lideranças de PT e Centrão.

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Veja como votou cada ministro abaixo:

  • André Mendonça: Ao votar para manter sua decisão, sustentou que ao presidente do Senado não cabe deliberar sobre o assunto, sob risco de subtrair um dos principais instrumentos da minoria.
  • Flávio Dino: Defendeu limites à atuação do Judiciário sobre o funcionamento interno do Congresso, e alertou para o risco de abrir precedente para invasões recíprocas entre os Poderes.
  • Alexandre de Moraes: Criticou a possibilidade de prorrogações sucessivas de CPIs. Afirmou ainda que, no caso específico, há desvio de finalidade, já que a comissão foi criada para investigar desvios no INSS.
  • Cristiano Zanin: Apontou que o próprio regimento do Senado utiliza a expressão “poderá” ao tratar da prorrogação de CPIs, o que indicaria margem de decisão política pela Casa.
  • Nunes Marques: Apesar de ressaltar que há omissão por parte de Alcolumbre, afirmou ser necessário preservar a autonomia do Legislativo para disciplinar o funcionamento de suas comissões.
  • Luiz Fux: Defendeu que o direito das minorias parlamentares de instaurar CPIs abrange a possibilidade de prorrogação dos trabalhos, sob pena de esvaziar o objetivo da investigação.
  • Cármen Lúcia: Disse não ver “certeza de que os parlamentares tenham um direito automático à prorrogação”. Segundo a ministra, “CPI é prorrogável, não prorrogada automaticamente”.
  • Dias Toffoli: Defendeu autocontenção do Judiciário em relação ao funcionamento interno do Congresso e alertou para os riscos de intervenções da Corte em decisões de natureza política.
  • Gilmar Mendes: Afirmou que a divulgação de dados de quebra de sigilo por CPIs é “abominável e crime coletivo”. Sustentou ainda não ser possível votar esse tipo de requerimento em bloco.
  • Edson Fachin: Considerar não ser possível fazer o debate sobre a prorrogação das apurações parlamentares no bojo da ação proposta pela CPI do INSS, por uma questão técnica.

Sem o aval do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para a continuidade dos trabalhos, coube à Corte se pronunciar sobre o assunto após a oposição apresentar um pedido e ser atendida de forma provisória por Mendonça. Prevaleceu o entendimento de que obrigar o Congresso a estender uma CPI seria invasão de competência.

O julgamento foi marcado por uma série de recados ao Legislativo, especialmente sobre a condução de investigações e divulgação de dados sigilosos. O tom mais incisivo partiu do ministro Gilmar Mendes, decano da Corte, que classificou a prática como “abominável” e um “crime coletivo”.

Gilmar já havia entrado em rota de colisão com outra CPI, a do Crime Organizado, ao derrubar a quebra de sigilo da empresa do ministro Dias Toffoli, a Maridt, bem como do fundo Arleen, usado por parceiros de Vorcaro. O fundo comprou fatia de um resort no Paraná que pertencia à empresa de Toffoli e família.

— É deplorável, abominável, um crime coletivo (os vazamentos) — afirmou o decano. — Quem tem poder tem responsabilidade.

Votações em bloco

O decano também criticou a forma como quebras de sigilo vêm sendo conduzidas e, sobretudo, a divulgação posterior de informações. A quebra de sigilo de Lulinha pela CPI foi derrubada após o STF se pronunciar pela ilegalidade de votações em bloco desse tipo de requerimento.

— Não existe quebra de sigilo em bloco. Tem que decidir em cada caso. Mas o problema maior é depois a falta de total escrúpulo, porque se divulga confiando exatamente na imunidade. Todos nós somos sócios do crime — disse.

As críticas foram reforçadas por Alexandre de Moraes, que, apontou desvio de finalidade na CPI. Como mostrou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, Moraes conversou com Vorcaro no WhatsApp no dia em que o banqueiro foi preso pela primeira vez.

— A CPMI fez um link com dados sigilosos de toda a prova da Polícia Federal, contatos, agendas, e distribuiu para jornalistas. Foi necessário determinar o retorno disso. Um total desrespeito — disse.

A discussão principal em plenário, porém, foi a validade da decisão de Mendonça sobre a prorrogação da CPI. A maioria da Corte seguiu a divergência aberta por Flávio Dino, formando um bloco contrário que incluiu Moraes, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia, Toffoli, Nunes Marques, Gilmar e Edson Fachin. Apenas Fux ficou ao lado do relator.

A maioria defendeu, em linhas gerais, a necessidade de autocontenção do Judiciário e a preservação da autonomia do Congresso para decidir sobre a prorrogação de seus próprios instrumentos de investigação. Com isso, o relatório da CPI deve ser lido em sessão hoje. O prazo de funcionamento da comissão vai até amanhã.

No início do julgamento, Mendonça apelou aos colegas que mantivessem sua decisão. O ministro frisou que a Corte iria fixar um precedente para futuras apurações parlamentares.

— Não estamos decidindo só uma CPMI. Estaremos decidindo a possibilidade de prorrogação ou não de outros instrumentos de futuras minorias. Quem sabe hoje são minoria, amanhã são maioria, porque esse é o ciclo da democracia — assinalou, ao defender que o prazo para a conclusão dos trabalhos seja de mais 60 dias.

Após o voto de Mendonça, Dino abriu divergência ao defender limites à atuação do Judiciário sobre o funcionamento interno do Congresso.

— Imaginemos que o Congresso resolvesse votar uma proposta dispondo sobre o plenário virtual do Supremo. Nós concordaríamos com a constitucionalidade disso? Não, porque é matéria regulada pelo nosso regimento — afirmou. — Se nós ultrapassamos e vamos a matéria puramente regimental do parlamento, estamos nos desautorizando a repudiar eventuais iniciativas dos outros Poderes que invadam essa esfera de auto-organização.