Aliados da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro avaliam que o vídeo divulgado por ela, no qual relata desentendimentos com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e diz que foi “maltratada” por ele, pressiona o pré-candidato à Presidência a reabrir o diálogo e oferecer espaço para sua participação na campanha eleitoral. Na avaliação de interlocutores de Michelle, é necessário que o enteado demonstre interesse em receber apoio para que isso aconteça.
Ainda na avaliação de interlocutores de Michelle, a gravação serviu para responder às críticas que ela vinha recebendo de integrantes do bolsonarismo, esclarecer sua versão dos fatos e criar as condições para uma reaproximação entre os dois.
A gravação foi publicada por Michelle no final da tarde de quarta-feira. No vídeo, ela relata uma série de descontentamentos com críticas recebidas por sua posição contrária a uma aliança no Ceará entre o PL e o candidato do PSDB ao governo do estado, Ciro Gomes. Ela expôs também ter ficado incomodada com ataques vindos inclusive dos enteados, com quem não nutre uma relação de proximidade.
A principal queixa foi contra o primogênito de Jair Bolsonaro (PL), Flávio. Segundo Michelle, depois do episódio do Ceará, ele teria sido desrespeitoso com ela durante uma ligação.
— Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política — afirmou.
Michelle disse ainda que, desde essa conversa, nunca mais voltou a procurar o enteado e que, apesar do episódio, continua apoiando sua candidatura à Presidência da República. Ao encerrar a gravação, agradeceu às dirigentes estaduais e municipais do PL Mulher pelo apoio que, segundo ela, vêm dando à pré-candidatura de Flávio.
Segundo uma pessoa próxima à ex-primeira-dama, Michelle decidiu gravar o vídeo após meses sendo alvo de ataques de perfis ligados ao bolsonarismo e de críticas públicas de integrantes da família Bolsonaro. A avaliação é que ela permaneceu em silêncio por receio de agravar a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro enquanto ele enfrentava restrições impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas decidiu falar quando considerou que a situação havia se tornado "insuportável".
Na leitura desse interlocutor, o vídeo não representa necessariamente um rompimento com Flávio, mas um movimento para forçá-lo a procurá-la em busca de uma trégua.
Aliados da ex-primeira-dama afirmam que ela continua reconhecendo Flávio como o candidato do PL à Presidência, algo afirmado por ela durante a gravação, e lembram que a própria Michelle encerra o vídeo agradecendo às dirigentes estaduais e municipais do PL Mulher pelo apoio à pré-candidatura do senador.
Reservadamente, porém, integrantes do entorno de Michelle avaliam que a iniciativa também coloca sobre Flávio a responsabilidade por um eventual processo de reconciliação. A expectativa é que, após a exposição pública do episódio, o senador procure a madrasta para uma conversa reservada, encerrando o impasse antes do início do período mais intenso da campanha.
Na avaliação de um interlocutor, a oportunidade para um gesto de pacificação está aberta e agora ambos podem “sentar, conversar, se entender e vida que segue”.
Defesa legítima
Um dos pontos mais abordados por Michelle em seu vídeo foi o fato de defender, inclusive como liderança do PL Mulher, a candidatura de suas aliadas em chapas do PL. A principal citada foi Priscila Costa, vereadora no Ceará e pré-candidata ao Senado pelo estado.
Segundo a ex-primeira-dama, ela e Jair Bolsonaro defendiam que o partido lançasse Priscila ao Senado e apoiasse Girão na disputa pelo governo. Michelle afirmou que a definição teria sido feita por ela, pelo ex-presidente e pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
— Essa candidatura foi muito bem definida por três pessoas. Meu marido, eu e o presidente Valdemar. Não foi sugestão. Foi preferência, foi decisão — disse.
Aliada de Michelle, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que integra a pré-campanha de Flávio, considera legítima sua insistência para manter a vereadora Priscila como candidata ao Senado pelo Ceará porque entende que a indicação representa um compromisso assumido pelo próprio PL Mulher.
A avaliação é que a ex-primeira-dama percorreu o país nos últimos anos identificando e formando lideranças femininas a pedido da direção nacional do partido e que retirar Priscila da disputa significaria desautorizar o trabalho desenvolvido pelo movimento.
— Eu acho legítimo ela lutar pela Priscila, porque a ela foi dada uma missão de identificar lideranças com potencial de voto. É um desrespeito ao movimento que ela criou. Não à vontade pessoal dela, mas a tudo que ela pregou. ‘Mulheres, venham, se preparem, vocês serão apoiadas’. E na hora da mulher ser apoiada, está sendo preterida — disse.
Apesar da crise, interlocutores afirmam que a ex-primeira-dama considera que a prioridade do grupo continua sendo derrotar o PT em outubro e que, superado o episódio, pretende se engajar na candidatura do enteado.