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'Alinhamento político': o que diz a PF sobre a relação entre Castro e Vorcaro, e os aportes do Rioprevidência no Master

'Alinhamento político': o que diz a PF sobre a relação entre Castro e Vorcaro, e os aportes do Rioprevidência no Master

A relação próxima entre o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro viabilizou aportes de R$ 3 bilhões sem critérios técnicos feitos pelo Rioprevidência no Banco Master e em fundos vinculados, aponta a Polícia Federal. Castro e outras cinco pessoas, incluindo ex-dirigentes da autarquia, foram alvos na terça-feira de mandados de busca e apreensão, autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O inquérito lista um “almanaque de irregularidades” nos investimentos feitos pelo órgão responsável por pagar aposentadorias e pensões de servidores estaduais.

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Os agentes também recolheram documentos e equipamentos eletrônicos em uma empresa suspeita de operar pagamentos para envolvidos no esquema e em uma corretora que vendia títulos do Master. A suspeita da PF é que um lobista era remunerado com 0,6% dos valores que conseguia angariar junto a fundos de previdência, como o do Rio, para aplicações no Master.

Foi a segunda operação mirando Castro neste mês — no dia 15, ele foi alvo de buscas no curso de uma apuração sobre supostas irregularidades na concessão de benefícios à Refit. Castro negou relação indevida com Vorcaro. O advogado do ex-governador, Carlo Luchione, afirmou que a defesa está analisando a decisão, porém é necessário mais elementos, como o acesso integral à investigação, para definir qual medida será tomada .

‘Papel relevante’

Policiais estiveram pela manhã na cobertura de Castro em um condomínio na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste (leia mais na página 6). Mensagens extraídas do celular de Vorcaro, a cronologia de encontros entre o banqueiro e o ex-governador, seguidos de aportes do Rioprevidência, documentos da própria autarquia e alertas feitos pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) embasaram a operação. Todos os detalhes ainda não vieram a público porque a representação da PF solicitando a operação e o parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) concordando com as medidas estão sob sigilo.

A investigação sustenta que o “alinhamento político” entre Castro e Vorcaro possibilitou o direcionamento das verbas num momento em que o Master já enfrentava problemas de liquidez, o que aumentava a necessidade de captar recursos para honrar compromissos. A instituição foi liquidada pelo Banco Central em novembro do ano passado diante das evidências de fraudes, e Vorcaro está preso.

“Os elementos reunidos indicam, em tese, que Cláudio Castro mantinha vínculo próximo com Daniel Vorcaro e exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes do Rioprevidência no Banco Master. A representação (da PF) aponta sincronismo entre encontros mantidos entre ambos e os aportes financeiros subsequentes do RPPS (Regime Próprio de Previdência Social), além de conversas encontradas no celular de Vorcaro indicando que a liberação de determinados investimentos dependia de alinhamento político com o ex-chefe do Executivo estadual”, diz Mendonça na decisão.

Segundo os investigadores, Castro estabeleceu um “vínculo pessoal estreito” com o dono do Master. Eles tinham encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e fora do país, custeados pelo ex-banqueiro — a decisão de Mendonça não detalha datas e locais. A PGR acrescentou que a relação entre os dois “ultrapassou o mero contato institucional, alcançando indícios concretos da ocorrência de tratativas ilícitas que viabilizaram a captação”.

A investigação aponta dois períodos em que as aplicações foram realizadas. Entre outubro de 2023 e julho de 2024, houve o direcionamento de R$ 970 milhões a letras financeiras do Master, um tipo de investimento. Depois, de dezembro de 2024 a outubro de 2025, foram repassados R$ 2,01 bilhões a fundos estruturados pela instituição de Vorcaro. De acordo com a PF, a mudança foi necessária diante de “entraves regulatórios que dificultaram a continuidade das aplicações” na modalidade anterior de investimento.

Para que fosse possível repassar os recursos, houve a “nomeação estratégica” de dirigentes do Rioprevidência, de acordo com a investigação. Assim, as verbas poderiam ser aplicadas em “desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master”. Segundo a corporação, não foram apresentadas “justificativas formais idôneas” para os investimentos. A PF apontou ainda “alterações deliberadas nos procedimentos internos, credenciamentos meramente formais, ausência de análises técnicas, concentração excessiva de risco e uso de intermediários para elevação de comissões e ocultação do pagamento de vantagens indevidas”.

Além disso, a corporação encontrou indícios de que as aplicações continuaram a acontecer mesmo após alertas formais de órgãos de controle e pareceres técnicos desfavoráveis.

Outros fundos na mira

A autarquia era comandada à época por Deivis Marcon Antunes, indicado por dirigentes do União Brasil. Ele está preso e teve os endereços residenciais revistados pela PF. A defesa de Deivis disse que não vai se manifestar por ora.

A PF aponta que Antunes seria um dos agentes nomeados para praticar gestão fraudulenta. Como mostrou O GLOBO, Antunes revogou em agosto de 2023, as regras que só permitiam aportes do Rioprevidência em instituições financeiras que tivessem a melhor avaliação possível (AAA ou AA) conferida por agências de risco. O Master, à época, tinha avaliação BBB- e, com a mudança, passou a poder receber os recursos.

Conforme as apurações, Antunes foi nomeado ao cargo por Castro com o objetivo de viabilizar os repasses ao Master mesmo após alertas do TCE-RJ. “Estão indo para cima do RJ”, disse Antunes em mensagem a um lobista do Master ao encaminhar a cotação de uma instituição financeira concorrente. Para a PF, foi uma tentativa de gerar um alerta no banco de Daniel Vorcaro.

Além do caso do Rio, há investigações em andamento sobre aportes no Master feitos por fundos de previdência do Amapá e do Amazonas. Investigadores suspeitam que Vorcaro usava as relações políticas para obter vantagens comerciais.

Em nota, o Rioprevidência afirmou que em dezembro de 2025 resgatou R$ 1,4 bilhão de um dos fundos administrados pelo Master e que estuda medidas para reaver o dinheiro alocado em outros fundos.

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