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Amiga de Lulinha e contrato com ‘Careca do INSS’: quem é a empresária que fez pagamentos a ex-assessor de Lula

Amiga de Lulinha e contrato com ‘Careca do INSS’: quem é a empresária que fez pagamentos a ex-assessor de Lula

A lobista Roberta Luchsinger é apontada pela Polícia Federal como uma peça-chave de um suposto esquema de tráfico de influência que vigorou no terceiro mandato do governo Lula. Amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o primogênito do presidente Lula, herdeira de um banqueiro suíço e ex-candidata a deputada estadual pelo PT, Luchsinger foi alvo de um mandado de busca e apreensão no fim de 2025. Desde então, a PF vem avançando nas apurações que a indicam como empresária do ramo da tecnologia e saúde que "abria portas" na administração federal.

Procurado, o advogado Roberto Podval disse que só se manifestará nos autos sobre as suspeitas. Ele protocolou um pedido ontem ao Supremo Tribunal Federal para ter acesso ao conteúdo das investigações.

A mais recente descoberta da PF trata de um pagamento feito por Roberta ao ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência da República Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que deixou o cargo há duas semanas. Procurado, Marcola negou qualquer ilícito no pagamento. Ele diz que recebeu os valores na forma de um empréstimo, posteriormente quitado. Marcola não revelou o valor. A explicação dele foi revelada pela coluna de Lauro Jardim.

Dona de uma empresa de consultoria, Luchsinger percorria a Esplanada dos Ministérios e órgãos públicos, representando empresas que tinham interesse em fechar contratos públicos. Há registros de oito agendas dela no Palácio do Planalto e pelo menos 32 visitas em gabinetes dos ministérios da Saúde, Desenvolvimento Social e no BNDES, entre outros locais. A informação foi divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO.

Um dos serviços de consultoria oferecido por ela foi prestado ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", que chegou a lhe repassar R$ 1,5 milhão. Segundo as investigações da PF, Antunes estava tentando fechar um contrato milionário com o Ministério da Saúde para o fornecimento de medicamentos à base de cannabis no Sistema Único de Saúde (SUS). O convênio acabou não sendo assinado.

Uma reportagem do GLOBO revelou um áudio do início de 2025 em que Roberta fala a Antunes sobre a possibilidade de dispensa de licitação na contratação do Ministério da Saúde.

— É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação — diz ela, na gravação.

Próxima da família de Lulinha, a empresária já chamou a esposa dele de “irmã de alma” nas redes sociais. Em depoimento à Polícia Federal ocorrido em maio, Luchsinger afirmou que foi ela quem apresentou o filho do presidente a Antunes. Em entrevista à Folha de S. Paulo no mesmo mês, ela negou irregularidades e afirmou que foi “criminalizada” por ser amiga do filho do presidente.

Segundo ela, Lulinha tinha uma "curiosidade" sobre o assunto da cannabis medicinal em função de um dos seus familiares fazer tratamento com esse tipo de remédio. Isso teria levado Antunes a convidar Fábio Luís a viajar juntos à Europa, em novembro de 2024, de acordo com a versão de Luchsinger.

No interrogatório, a empresária negou que tenha repassado valores de Antunes a Lulinha. De acordo com ela, os pagamentos feitos por ele se referiam ao seu trabalho de consultoria.

Crítica da Lava-Jato

Luchsinger ficou conhecida em 2017 por anunciar que iria lançar um movimento de apoio financeiro a Lula, que na época havia tido as contas bloqueadas pelo então juiz Sergio Moro na Operação Lava-Jato. À época, ela anunciou que faria uma doação pessoal de R$ 500 mil ao ex-presidente. Em 2018, ela se candidatou a deputada estadual pelo PT em São Paulo, mas não se elegeu.

A empresária é herdeira de um ex-acionista do banco Credit Suisse e ex-companheira do delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz. Conhecidos da empresária dizem que ela sempre teve uma fortuna e que dinheiro nunca foi problema para ela.

Investigações da PF apontam que Luchsinger se apresentava como “pessoa com acesso a estruturas de poder capazes de influenciar decisões de natureza política” e faria parte do "núcleo político" do grupo comandado por Antônio Camilo Antunes. "Sua atuação se revela essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais", diz trecho da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso do INSS na Corte.

No último mês, a PF entendeu que as suspeitas envolvendo Luchsinger se referiam a um esquema diferente do caso de desvios do INSS. Por isso, pediu a abertura de três novos inquéritos contra Lulinha por suspeita de tráfico de influência. Em pelo menos dois deles, a empresária é citada.

A defesa de Lulinha chamou os pedidos da PF de "pirotecnia" e tentativa ilegal de fazer uma "pesca probatória", uma investigação genérica sem foco específico.

— É mais do mesmo. A Polícia Federal está adotando a estratégia da tentativa e erro. "Não achei aqui, vou tentar ali". É a chamada "melhor de três", isso é pirotecnia, é pesca probatória. Ninguém quer que o Fábio esteja acima da lei, mas não podemos permitir que ele esteja abaixo dela — afirmou Marco Aurélio.

A defesa de Antunes afirmou que não vai se manifestar sobre o caso, porque ainda não teve acesso a nenhum auto sobre as novas investigações e ficou sabendo da informação pela imprensa.

"Joga fora"

A PF cita uma troca de mensagens entre Luchsinger e Antunes para sugerir que ela poderia ter tido acesso a informações privilegiadas na PF.

— E só para você saber, acharam um envelope com nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão — disse ela, em possível referência a Lulinha, em diálogo de abril de 2025.

Na conversa, Antunes reage com preocupação, e Luchsinger respondeu orientando que ele "suma" com os telefones. "Joga fora", acrescentou ela.

No depoimento à PF, Luchsinger explicou que o aviso se deu em função da preocupação de vazamento de dados pessoais do lobista. Ela também declarou que naquela época ainda não tinha conhecimento sobre papel de Antunes no suposto esquema do INSS.