Em meio à sucessão de reveses acumulados pelo PL do Rio na pré-candidatura do deputado estadual Douglas Ruas ao Palácio Guanabara, coube ao senador Flávio Bolsonaro, postulante à Presidência da República, entrar em cena em busca de reverter o cenário. No fim de semana, o então vice na chapa fluminense do partido, Rogério Lisboa (PP), desistiu da empreitada — o que aumenta as chances de a federação de sua sigla com o União Brasil manter-se neutra na disputa, movimento que favoreceria o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD). Ontem, outro partido cortejado pelo PL, o Republicanos, anunciou que terá um nome próprio na corrida: o do ex-governador Anthony Garotinho.
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A principal movimentação de Flávio mirou a federação União-PP, vista como crucial também no enfrentamento particular contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O filho de Jair Bolsonaro (PL) procurou pessoalmente os presidentes dos dois partidos, Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União). Embora tenha como prioridade o jogo nacional, já que ainda alimenta a esperança de ter as siglas na sua chapa, o presidenciável e aliados temem os efeitos de uma eventual neutralidade nos estados, sobretudo no Rio.
A expectativa, ontem, era de que houvesse um encontro entre o candidato ao Planalto e os dirigentes, mas Rueda não compareceu à convenção paulista dos dois partidos em São Paulo, prestigiada por Flávio. A ausência, como noticiou a colunista do GLOBO Bela Megale, foi lida como um sinal cristalino de que a federação não entrará na coligação do PL no âmbito nacional. Em São Paulo, porém, PP e União apoiarão o filho de Bolsonaro e também o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
— Eu espero que nós possamos caminhar juntos, com a (executiva) nacional, a federação junto conosco, porque nós temos a consciência de que o Brasil não aguenta mais quatro anos de PT. O Brasil não aguenta mais ver sentado na cadeira de presidente da República alguém que esfola o povo trabalhador — discursou Flávio no evento de ontem, no qual não respondeu perguntas da imprensa.
Apesar do apelo do correligionário, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reconhece que a uma aliança com a federação, hoje, é distante:
— Difícil, mas vamos trabalhar — disse o cacique.
Em solo fluminense, o presidente estadual do PL, Altineu Côrtes, também tem atuado para tentar evitar o desembarque da federação. Aliados de Douglas Ruas acreditam que será possível anunciar outro vice para a chapa na sexta-feira, data da convenção local. O deputado assumiu a presidência da Assembleia Legislativa com a expectativa de ocupar o posto de governador interino até a eleição, o que turbinaria sua candidatura, mas um julgamento pendente no Supremo Tribunal Federal (STF) mantém o desembargador Ricardo Couto na cadeira. Apesar do cenário desfarovável, Altineu conversou com o presidente do PP fluminense, Dr. Luizinho, e com Rueda. Espera-se uma decisão nos próximos dias.

‘É bobagem’
Caso a federação de fato desembarque, o natural seria o PL cortejar o Republicanos, único partido de peso que não está, hoje, com Paes ou Ruas no estado. Ontem, no entanto, a sigla ligada à Igreja Universal do Reino de Reus anunciou a candidatura de Garotinho ao Palácio Guanabara. O ex-governador foi escolhido após vencer uma disputa interna com o ex-prefeito de Miguel Pereira André Português. Será a quarta vez que o político de Campos dos Goytacazes, vitorioso pelo PDT em 1998, concorrerá ao cargo.
— É bobagem. Garotinho não se elegeu vereador na última eleição no Rio — minimizou Valdemar, que vaticina mudanças antes do fim das convenções. — Até dia 5 de agosto tem muito tempo.
No PL do Rio, a despeito do desejo de ter o Republicanos, a candidatura de Garotinho é encarada como positiva por um aspecto pragmático. Ele é visto como alguém capaz de tirar votos de Paes em alguns setores do eleitorado, o que poderia, sob essa ótica, ajudar a evitar que a eleição acabe resolvida no primeiro turno. Para os bolsonaristas, não é interessante que o cenário fique desde o início polarizado entre Ruas e o candidato do PSD.
Recentemente, Garotinho — que teve o nome testado em pesquisas encomendadas pelo Republicanos — conseguiu no Supremo Tribunal Federal (STF), por decisão do ministro Cristiano Zanin, anular uma condenação eleitoral e retomar os direitos políticos. O partido também definiu que lançará ao Senado o deputado federal Marcelo Crivella, ex-prefeito do Rio.
Pelo lado de Paes, apesar de a provável neutralidade da federação União-PP já ser considerada uma vitória por aliados, o ex-prefeito afirmou ontem que tentará atrai-las para sua aliança:
— Nunca escondi de ninguém minha admiração por vários quadros do PP, especialmente pelo ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa. É uma pessoa por quem tenho respeito e admiração, assim como pelo Dr. Luizinho e tantos parlamentares e prefeitos do PP e do União Brasil. Alguns até já estão fazendo campanha ao meu lado — disse. — Queremos somar as boas forças do estado do Rio na nossa aliança. O que puder fazer para tê-los nessa aliança, nessa chapa, nesse grupo político que se forma aqui, farei.
A declaração foi dada após a convenção do PSD que o oficializou Paes como candidato ao governo. Até o momento, a chapa do ex-prefeito conta com MDB, PT, PSB, PDT, PSDB, Solidariedade, Podemos, PRD e legendas menores que integram federações com esses partidos.
Nas estimativas feitas pela classe política, a federação PP-União tem cerca de 20% do tempo de propaganda no horário eleitoral gratuito. Tê-la na aliança, portanto, significa para Ruas ou Paes a garantia de contar com a maior fatia do programa na TV e na rádio durante a campanha. Caso o conglomerado partidário fique neutro, os minutos são distribuídos entre os diferentes candidatos. Além desse trunfo, a federação elegeu cerca de um terço dos prefeitos do estado há dois anos.
O novo drama do PL se soma à sequência de problemas enfrentados pelo partido no Rio, berço do bolsonarismo. Além do fracasso da estratégia de colocar Ruas no Palácio Guanabara, o ex-governador Cláudio Castro (PL), inicialmente escolhido para disputar uma das vagas ao Senado, foi substituído pelo senador Carlos Portinho após ficar inelegível e ser alvo de duas operações da Polícia Federal (PF). Na outra vaga da chapa, o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União) deixou de ser considerado após prisão em flagrante por porte ilegal de um fuzil.
'Aqui não tem neutralidade'
Se no Rio o cenário é de incertezas, a convenção do União-PP em São Paulo reforçou um quadro menos turbulento. O encontro formalizou a candidatura ao Senado de Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança de Tarcísio. O outro candidato à Casa pela chapa, o deputado estadual André do Prado (PL), será oficializado no sábado, em encontro no Estádio do Pacaembu.
— Com todo o respeito à (federação) nacional, aqui não tem neutralidade: em São Paulo, a federação União-Progressistas é Flávio Bolsonaro. Eu já vou deixar isso muito explícito — assegurou Derrite.
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