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Após derrota e fuga de Flávio, 76% dos eleitos pelo PL não endossam carta golpista

Após derrota e fuga de Flávio, 76% dos eleitos pelo PL não endossam carta golpista

A carta golpista publicada pelo candidato derrotado à Presidência Flávio Bolsonaro não foi endossada publicamente por 76% dos políticos eleitos pelo PL. Levantamento do GLOBO com os 155 escolhidos para representar o partido no Congresso e nos governos estaduais mostra que 118 ignoraram o texto, enquanto 37 compartilharam ou defenderam o teor. A análise também revela que 86% dos eleitos pelo partido não reconheceram publicamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial em suas manifestações sobre o resultado. O universo engloba 121 deputados federais, 28 senadores e seis governadores. Após deixar o Brasil e descumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes, Flávio divulgou uma carta na qual alegou fraude eleitoral e chegou a se declarar o "verdadeiro presidente eleito". Ele foi derrotado por Lula por uma diferença de 4,4 milhões de votos. Posteriormente, retirou essa afirmação do texto e passou a se apresentar como “líder do Brasil”, mas manteve os questionamentos ao resultado das urnas. O episódio provocou desconforto entre dirigentes partidários, que temem novas declarações do senador nos Estados Unidos. O GLOBO analisou publicações nas redes sociais, entre vídeos e mensagens dos políticos eleitos pelo PL após o segundo turno. O levantamento considera a ausência de manifestações públicas, rejeição e questionamento ao resultado das urnas e o reconhecimento da vitória de Lula. A porcentagem de 86% dos que não reconheceram publicamente a vitória de Lula, portanto, não significa que esse contingente concorde com o questionamento das urnas. Parte dos eleitos se limitou a lamentar a derrota, enquanto outros levantaram suspeitas de fraude ou defenderam a anulação da votação. Entre os que endossaram a carta de Flávio estão o senador Magno Malta (ES) e os deputados Gustavo Gayer (GO), Zé Medeiros (MT), Jorge Seif (SC) e Nikolas Ferreira (MG). A adesão de integrantes próximos ao ex-candidato evidencia as dificuldades da direção partidária para afastar a legenda do discurso de contestação eleitoral. Uma das manifestações mais enfáticas foi a da deputada Magda Mofatto (GO), que compartilhou o documento e incentivou sua divulgação no Brasil e no exterior. "Essa carta estará nos livros de história e é um relato sincero e puro do momento que vivemos em nosso país", escreveu. O deputado Lucas O Federal da Direita (ES) também defendeu a anulação do segundo turno e acusou, sem apresentar provas, a ocorrência de irregularidades. "Essa eleição não foi ganha, foi tomada! Iremos pedir a anulação desse segundo turno. O povo brasileiro não merece ser roubado mais uma vez na cara dura", afirmou. Gustavo Gayer sustentou que o resultado seria matematicamente impossível e divulgou um vídeo no qual leu a carta de Flávio. Magno Malta também levantou acusações de fraude e questionou a vitória de Lula. Nenhum dos dois apresentou evidências que sustentassem as suspeitas. "Será que ganharam mesmo?", questionou. Carlos Jordy (RJ) classificou a eleição como “muito duvidosa”, enquanto Sanderson (RS) defendeu uma nova votação após criticar a atuação do STF. Já Capitão Contar (MS) descreveu o pleito como o mais controverso do país, “entupido de aberrações jurídicas”. Parte das críticas se concentrou na decisão que prorrogou o horário de votação no segundo turno, um dos argumentos utilizados pela campanha de Flávio para tentar questionar judicialmente o resultado. A medida foi explorada por aliados do senador como justificativa para pedir a anulação da eleição, embora não haja comprovação de fraude. A diferença final entre Lula e Flávio foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos. Flávio questionou a prorrogação de duas horas para o fechamento das urnas — de 17h até 19h —, mas só 35 mil votos, número inexpressivo, foram computados neste período. Reconhecimento da derrota Na direção oposta, um grupo minoritário de eleitos pelo PL reconheceu publicamente a vitória de Lula. Entre eles estão o senador Marcio Bittar (AC), os deputados André Fernandes (CE) e Major Vitor Hugo (GO), além de Rosangela Moro (PR). Ex-líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara, Major Vitor Hugo afirmou que a diferença de votos e o reconhecimento do resultado pelas instituições tornavam improvável uma reversão. "Nós somos 60 milhões de brasileiros que votaram no Flávio, somos uma grande bancada no Congresso. O TSE e vários chefes de Estado já reconheceram a eleição, não importa o que você ou eu achamos. Foram mais de quatro milhões de votos de diferença e é muito difícil haver uma reversão deste resultado", declarou. André Fernandes também descartou alimentar questionamentos sobre as urnas, embora tenha atribuído a derrota à campanha adversária. "O resultado foi esse. Eu não vou aqui falar sobre urna, golpe, não vou falar sobre isso. Porque eu sei que muita gente votou sim no Lula porque acreditou em mentiras, em promessas vazias que não serão cumpridas. Muita gente acreditou em muitas fake news contra Flávio, campanha de terror nas ruas. E o sistema venceu. Nos resta bater a poeira do corpo e continuar", afirmou. Outros parlamentares trataram a vitória do petista como um fato consumado, mas mantiveram críticas ao novo mandato. A deputada Daniela Reinehr (SC), por exemplo, associou o resultado à reação negativa do mercado financeiro. "Dólar em disparada, Bolsa em forte queda e insegurança para quem trabalha e produz. A reação do mercado após a vitória de Lula preocupa e exige responsabilidade", escreveu. Silêncio e divergências Entre os 133 eleitos que não reconheceram expressamente a vitória de Lula, há posicionamentos distintos. O grupo inclui desde políticos que não publicaram qualquer manifestação sobre o resultado até aqueles que contestaram a eleição. Outros manifestaram solidariedade a Flávio ou criticaram decisões judiciais sem necessariamente aderir às acusações de fraude. A deputada Carol de Toni (SC), por exemplo, destacou a votação recebida pelo senador e questionou sua situação judicial após a saída do país. "Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, 48,21% dos votos válidos. Quase metade dos brasileiros que foram às urnas escolheu seu nome para a Presidência da República", escreveu. Na mesma publicação, a parlamentar afirmou que Flávio poderia ser preso caso retornasse ao Brasil. Já Nikolas Ferreira, apesar de ter comentado sobre a carta, reconheceu a dificuldade de reverter o resultado eleitoral. "Conhecendo o nosso país, a chance de anular é praticamente nula, então temos que seguir", afirmou. As diferentes reações expõem o impasse do PL após a eleição. Nos bastidores, dirigentes avaliam que a insistência do senador em alegações de fraude sem provas pode ampliar o desgaste da legenda, sobretudo diante da expectativa de novas manifestações públicas nos Estados Unidos. A preocupação é que Flávio volte a questionar a legitimidade do presidente reeleito e dificulte a tentativa do partido de concentrar sua atuação na oposição ao governo.