A citação à atuação da família Bolsonaro na nota em que o governo brasileiro reage à decisão dos Estados Unidos de classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas teve um cálculo político. A inclusão foi sugerida pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, o marqueteiro Sidônio Palmeira, e avalizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cumpre agenda em Sergipe nesta sexta-feira.
O texto divulgado 12h35 desta sexta-feira foi feito a várias mãos. Além de Sidônio Palmeira, a elaboração contou com contribuições da ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, e dos ministros da Fazenda, Dario Durigan, da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e de Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Na avaliação de interlocutores de Sidônio Palmeira, a inclusão teve como objetivo evidenciar que a decisão dos EUA teve interferência direta dos Bolsonaro, com argumento de que não há motivo para esconder isso da sociedade. Sidônio foi responsável pela comunicação da campanha de Lula em 2022.
O governo atribui a designação das facções brasileiras como organizações terroristas internacionais como fruto da visita que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, fez a Donald Trump e ao secretário americano de Estado, Marco Rubio, nesta semana. O governo fará a disputa política a partir de agora focado na linha de que a família Bolsonaro age contra os interesses nacionais.
Flávio e aliados comemoraram a iniciativa de Trump. A avaliação do Planalto é que a adoção dessa medida pode produzir consequências sensíveis sobre a soberania nacional e sobre a forma de atuação bilateral em segurança. A principal preocupação do governo Lula não está relacionada às organizações criminosas em si, mas aos efeitos jurídicos, diplomáticos e institucionais que uma designação dessa natureza pode desencadear.
"É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país", diz a nota.
Instantes antes da divulgação da nota, ministros do governo se reuniram no Palácio do Planalto para uma reunião que definiu a linha de reação do governo anúncio de que os Estados Unidos. Em viagem ao Sergipe, Lula, no entanto, já havia avalizado a nota.
"A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros."
O governo levou quase 18 horas para reagir a decisão do Departamento de Estado Americano. A calibragem do tom da reação levou em consideração uma preocupação principal, de que a resposta do governo passe a imagem de que a gestão petista defende bandidos, no momento em que Lula tem endurecido o discurso contra o crime organizado.