Mais de um terço dos 1.059 deputados estaduais das 27 assembleias legislativas brasileiras trocou de legenda com a janela partidária deste ano, segundo levantamento do GLOBO. Os dados mostram que a movimentação dos 397 parlamentares beneficiou partidos de centro e de direita, sobretudo o PL e o PSD, que aumentaram suas bancadas em 34 cadeiras. Por outro lado, siglas pequenas não conseguiram expandir e o tradicional PSDB teve sua presença reduzida quase à metade. Especialistas associam a movimentação à dinâmica de poder nos estados após os resultados das eleições municipais de 2024 e à influência de governadores nas políticas locais.
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O PL, de Valdemar Costa Neto e Flávio Bolsoanro, expandiu a liderança com os atuais 161 deputados, um crescimento de 26,8% na comparação com o cenário anterior, quando tinha 127. O PSD, por sua vez, cresceu 41,5%. A sigla criada por Gilberto Kassab em 2011 tem apostado em diferentes frentes para aumentar a composição, incluindo a filiação de governadores, como Eduardo Leite (RS) e Raquel Lyra (PB), além de se apresentar para a corrida presidencial pela primeira vez. O partido tem hoje 116 deputados estaduais, ante os 82 pré-janela partidária.
— A janela confirma a tendência de expansão do bloco de centro-direita e direita nos estados, com a desidratação do campo progressista. Os parlamentares estaduais migraram para onde enxergam poder, proteção e possibilidade de vitória. O PSD cresceu muito porque hoje concentra governadores fortes em vários estados — avalia Murilo Medeiros, cientista político da UnB.
O PT também está entre as legendas que ampliaram a bancada, ainda que de forma mais moderada. A sigla do presidente Lula, cuja campanha pela reeleição passa pela articulação de palanques estaduais, foi de 117 para 126 deputados estaduais — alta de 7,7%. Além de nomes de PSOL e PCdoB, a legenda recebeu parlamentares do PP e Republicanos, expoentes do Centrão.
O levantamento mostra também uma dificuldade para as legendas de esquerda atraírem novos quadros. Com exceção de PT e PV, as siglas do campo perderam cadeiras. O PSOL, por exemplo, passou de 22 para 20, enquanto a Rede Sustentabilidade foi de sete para quatro.
Para a cientista política Mayra Goulart, professora da UFRJ, o “campo progressista é caracterizado como mais comprometido com a coerência ideológica e partidária”. Esse cenário, na visão dela, dificulta a transferência, além de haver oferta menor de legendas alinhadas.

Apesar de ainda representar o maior contingente de deputados quando somados os dois partidos, a federação União Brasil-PP encolheu e reúne agora 185 parlamentares, sete a menos do que tinha antes da abertura da janela. Durante o período de migração, o União chegou a perder 44 dos seus 102 parlamentares, mas recebeu outros 46, ficando com 104 nomes. Já o PP perdeu 35 deputados e ganhou apenas 26. Entre os que deixaram a federação, 14 optaram pelo PSD, oito pelo MDB e nove pelo Republicanos.
Ao longo do período de migração, 17 deputados da federação trocaram os partidos pelo PL, enquanto apenas seis fizeram o caminho contrário. Cenário semelhante já havia sido visto na Câmara dos Deputados, onde o PL conquistou nomes antes filiados ao União, como o deputado federal e ex-governador de Pernambuco Mendonça Filho, que é contra a federação com o PP.
— É um dos dilemas da federação. O União Brasil e o PP são muito capilarizados. Qualquer tipo de verticalização de alinhamento é limitador para as bases locais — avalia a professora Mayra Goulart.
Já o cientista político Josué Medeiros, também da UFRJ, vê na movimentação entre os partidos da direita reflexos da disputa presidencial:
— Existe a expectativa de poder que Flávio Bolsonaro está gerando, o que faz os candidatos refazerem os cálculos.
Entre os partidos, o mais prejudicado foi o PSDB, que viu 44 dos seus 59 deputados estaduais deixarem a sigla; no caminho inverso, 17 foram filiados. No Rio Grande do Sul, a sigla perdeu cinco parlamentares e desapareceu da assembleia, o que também se repetiu em Pernambuco. Em São Paulo, estado que nos últimos 20 anos teve seis governadores tucanos, o partido perdeu oito nomes e se viu reduzido a uma única deputada, egressa do Cidadania. Uma exceção foi o Ceará, onde, impulsionados pela pré-candidatura ao governo e filiação do ex-pedetista Ciro Gomes, seis parlamentares ingressaram ao PSDB. A maior parte desses deputados optou por migrar para o PSD, MDB e PL.
Nanicos desaparecem
No caso dos partidos pequenos, há os que ficaram sem representante algum nas assembleias, como PRTB e do Cidadania; este último, que passa por uma disputa interna, viu todos os seus 13 deputados trocarem de sigla. Mobiliza e Democrata (antigo PMB) agora contam com apenas um parlamentar, cada.
— A janela repercute a legislação que criou a cláusula de barreira, com o objetivo de fortalecer os partidos grandes, que foram os que mais cresceram. O processo de enxugamento do quadro partidário também está descendo para as assembleias estaduais e, provavelmente, veremos o mesmo movimento nas Câmaras de Vereadores em 2028 — conclui Josué Medeiros.
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