No momento em que o Brasil estreava na Copa do Mundo 2026, ontem à noite, uma outra disputa se dava no campo político: a de qual dos principais concorrentes ao Palácio do Planalto mais vai conseguir se associar aos símbolos da seleção. De um lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem reforçado a vinculação feita nos últimos anos da camisa canarinho ao bolsonarismo. Do outro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu partido, o PT, buscam formas de romper essa relação, apostando em um discurso patriótico e no uso das cores da bandeira nacional em sua campanha.
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Marqueteiros e estrategistas de campanha tratam o torneio mundial, que desde 1994 é realizado em anos em que há disputa presidencial no Brasil, como um ativo eleitoral. A comoção gerada pela seleção é vista como oportunidade para unir diferentes segmentos da sociedade em torno de uma identidade comum. Neste sentido, a tática é tentar associar os pré-candidatos a essa imagem, com a exploração da camisa verde-e-amarela, jingles e mobilizações em torno dos jogos.
Amarela ou vermelha? A camisa da Seleção vira ativo eleitora em ano de Copa e eleição
A estratégia também visa manter os pré-candidatos em evidência, em um momento em que a atenção dos eleitores deixa de ser a corrida presidencial e passa a ser a participação do Brasil no campeonato. Um exemplo desse esforço ocorreu na quinta-feira, data da abertura da Copa. Em discurso durante agenda no Pará, Flávio explorou a vinculação das cores da seleção ao seu grupo político para pedir que vestissem a “camisa do Bolsonaro”. Na sexta-feira, véspera da estreia do time brasileiro, divulgou um vídeo em que critica Lula ao dizer que o petista usa o verde e amarelo na eleição e na Copa do Mundo.
Neymar na campanha
A pré-campanha do senador do PL também aposta na figura de Neymar, maior estrela da seleção, que declarou voto em Bolsonaro nas eleições passadas, para tentar politizar a Copa. Em maio, Flávio comemorou a convocação postando uma foto ao lado do jogador. Nas redes do PL, um vídeo produzido com inteligência artificial exibiu o pré-candidato com a camisa da seleção, imitando comemorações características do atleta do Santos.
— Não acredito que (a associação à seleção brasileira) dê vantagem a este ou aquele candidato, mas estamos na frente. O jogador mais importante, que é o Neymar, é Bolsonaro para valer — diz o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.
A apropriação política da seleção ganhou força a partir da campanha de 2018, quando o verde e amarelo passou a ser associado aos atos da direita e da oposição ao PT. Desde então, o uniforme oficial tem sido evitado por parte dos eleitores da esquerda. No ano passado, uma versão alternativa, vermelha, chegou a ser cogitada pela patrocinadora do time brasileiro, mas foi vetada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Agora, a estratégia mudou. Lula tem dito a seus aliados que a esquerda não pode permitir que as cores nacionais sejam usadas apenas pelos adversários e que é preciso “desbolsonarizar” a camisa verde-e-amarela. Além de o presidente também aparecer com o uniforme nas redes sociais, ele foi orientado a incluir o tema em seus discursos, comentando sobre os jogos e dando palpites sobre placares.
A equipe de comunicação da pré-campanha do petista também entrou em campo para reforçar a artilharia pela amarelinha. O tom da mobilização durante a Copa foi alinhado junto à militância na segunda-feira passada, quando o PT lançou uma plataforma para unificar o discurso. A primeira ação neste sentido ocorreu na quinta-feira, quando a sigla divulgou um clipe inspirado no tema da seleção, com imagens que reforçam valores como união, soberania e confiança no futuro.
— Copa do Mundo sempre mobiliza a sociedade brasileira, eleva o sentimento de orgulho e pertencimento nacional. Lula sempre trabalha, torce e joga pelo Brasil. E é nesse espírito que vamos dialogar nas redes sociais: o orgulho de ser brasileiro, de gostar do nosso povo e respeitar o Brasil — afirma o secretário nacional de Comunicação do PT, Eden Valadares, um dos coordenadores da pré-campanha de Lula.
Ontem, antes da estreia, Lula publicou um vídeo nas redes de incentivo à seleção e ao técnico Carlo Ancelotti:
— Já acompanhei muitas Copas, mas o que vale agora é o time que você convocou. A meninada que está aí, a meninada que você escolheu.
Pesquisa Genial/ Quaest divulgada na quarta-feira mostra que a estratégia petista de incorporar o discurso patriótico, historicamente vinculado à direita, tem funcionado. O levantamento questionou eleitores sobre quem tem se mostrado mais patriota e representa melhor a defesa dos interesses do Brasil: 47% disseram que é Lula, e 37%, Flávio.
O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, alerta que essa exploração da imagem da seleção e o tom ufanista tende a diminuir em caso de mau desempenho na Copa. Já uma vitória brasileira, na sua visão, tende a ser mais favorável para quem está no poder.
— A ideia de que “olha como o Brasil está bem, olha como a gente está até ganhando a Copa do Mundo” se torna mais fácil de se traduzir para o incumbente do que para a oposição. No que pese a oposição buscar monopolizar o nacionalismo e a camisa da seleção, para o governo, isso é mais automático.
‘Sensação de unidade’
A antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, por outro lado, lembra que o sucesso do Brasil no campo esportivo nem sempre se traduz em dividendos políticos para os governantes, mas o entusiasmo da população com o evento raramente deixa de ser aproveitado pelos chefes de Poder Executivo.
— A Copa não cria um governo forte, mas os governos frequentemente tentam se aproximar da força afetiva, emocional e simbólica do torneio. O que o futebol oferece é esse espaço, essa imagem de uma comunidade de imaginação e sensação de unidade, mesmo passageira — disse Schwarcz.
Um dos casos mais notórios aconteceu na Copa de 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato e o governo do ditador Emílio Garrastazu Médici aproveitou o clima ufanista na propaganda estatal. Na época, ficou célebre a marchinha “Pra Frente Brasil”, que tinha na letra o verso “setenta milhões em ação, para frente Brasil, salve a seleção”, além do slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Além de Lula e Flávio, outros pré-candidatos tentam aproveitar a Copa para tentar ganhar a atenção do eleitor. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, presidenciável do PSD, fez referência ao primeiro jogo deste ano para lembrar sua atuação no estado.
Paulo Vasconcelos, marqueteiro de Caiado, diz que apesar de a Copa ser um tema presente nas publicações do pré-candidato, não há expectativa de ganho eleitoral. Na avaliação dele, toda campanha precisa estar atenta aos assuntos da ordem do dia para estar em evidência.
— Algumas publicações acontecerão. Isso não significa que seja uma força (eleitoral), significa abastecer o eleitorado de um sentimento que faz parte do momento.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, pré-candidato do Novo, também aposta no tema para divulgar suas pautas. Em uma publicação no início do mês, apareceu com a camisa da seleção para criticar a participação de mulheres trans na categoria feminina, tema explorado pela direita na Olimpíada de 2024.
Já o pré-candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, diz ser contra a vinculação de política com futebol e que não explorará o tema.
- Flávio Bolsonaro
- Lula
- Romeu Zema
- Ronaldo Caiado