Após viver a maior parte do seu terceiro mandato presidencial com uma relação de ida e vindas com a cúpula do Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora tem conseguido fazer um movimento de reaproximação com os principais nomes do Poder Legislativo. Nas duas últimas semanas ele teve uma série de reuniões com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com que fez na segunda-feira sua primeira aparição pública após meses de afastamento no Oiapoque (AP), e recebeu o apoio explícito na eleição presidencial do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Em outra frente, viu o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e o ex-presidente da Câmara Artur Lira (PP-AL) agirem para a legenda não indicar o vice de Flávio Bolsonaro, candidato do PL a presidente e principal rival do petista.
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Alcolumbre fez um aceno público a Lula ao agradecer ao petista pela descoberta de petróleo na costa do Amapá. Os dois visitaram, no norte do estado, um navio-sonda da Petrobras que trabalha na exploração de petróleo na Margem Equatorial, que inclui o litoral amapaense (leia mais na página 17).
Ao discursar, Alcolumbre evocou a defesa da soberania nacional — um dos pilares da campanha de Lula em meio à investida tarifária dos EUA — ao citar “soberania energética” e dizer que “outros países” querem “tutelar o futuro do Brasil e dos brasileiros”:
— Sob a sua liderança como presidente da República e a trincheira de defesa do Congresso Nacional dizemos de uma vez por todas: deixem que nós brasileiros, que lutamos pela defesa do nosso Brasil, que nós decidamos o que nós queremos do Brasil.
Na sua fala, em seguida, Lula também devolveu elogios e agradecimentos ao senador.
— Essa semana teve uma atitude muito importante para o Brasil. Conversei com o senador Alcolumbre e ele mandou três projetos de importância vital ao Brasil— disse Lula.
Antes da reaproximação, Alcolumbre travava iniciativas de interesse do governo no Senado, como a PEC que dá fim à escala de trabalho 6x1, a PEC da Segurança, e o projeto que regulamenta a exploração de minerais críticos.

Neutralidade favorável
O diálogo com os caciques do Centrão ora é feito de forma direta, como nos casos que envolvem Motta e Alcolumbre, que se reúnem com Lula, ora indireta, como é o caso de Ciro Nogueira, que usa aliados para intermediar acordos, como o líder do PP na Câmara, Dr. Luizinho (RJ).
A federação União-PP e o Republicanos adotaram neutralidade nas eleições. Há uma avaliação desses caciques partidários de que Lula, que lidera as pesquisas, têm mais chances de vencer a eleição. Há um interesse desse grupo de se manter no comando do Congresso em 2027.
O caso “Dark Horse”, que mostrou que Flávio pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para financiar a cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, contribuiu para afastar nomes do Centrão do candidato do PL. Nogueira, que já foi alvo de mandado de busca e apreensão em uma operação da Polícia Federal (PF) que investiga se ele teria atuado a favor dos interesses de Vorcaro, o que ele nega, passou a adotar um distanciamento de Flávio.
Nogueira fez aliança com o PL no Piauí, mas evita fazer campanha para Flávio. O candidato do PL à Presidência também não citou o nome de Ciro no início de agosto, quando listou os candidatos ao Senado apoiados por ele.
A distância também é vista em Alagoas. Flávio chegou a mencionar que apoia Arthur Lira ao Senado, mas Lira não retribuiu o gesto e tem silenciado sobre a eleição presidencial. Integrantes do PP dizem que Lira articulou para que a federação com o União adotasse neutralidade e que ele foi um dos atores que barrou a senadora Tereza Cristina (PP-MS) de ser vice de Flávio, após ela ter sido convidada pelo presidenciável.
O ex-presidente da Câmara chegou a ser visto em uma casa em Brasília onde Flávio recebia aliados que iam se candidatar ao Senado, mas o deputado minimizou a presença e disse que estava lá porque deu carona a um aliado. Lira é aliado do PL em Alagoas, mas também tenta manter pontes com o governo Lula.
Na relação entre o PL de Flávio e Alcolumbre também há estremecimentos. O PL tem a expectativa de ter a maior bancada de senadores e, independentemente de uma vitória nas eleições presidenciais ou não, ameaça lançar um candidato próprio ao comando do Senado para emplacar impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Entre os nomes que podem aparecer como concorrentes de Alcolumbre no ano que vem, com apoio do bolsonarismo, estão os senadores Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, e Tereza Cristina, que foi cotada para ser vice dele em uma operação que falhou, mas que permanece aliada do candidato do PL.
Por sua vez, Alcolumbre tenta apoio de Lula e do PT para se reeleger e se manter na presidência da Casa Legislativa. O presidente do Senado tem uma relação próxima de diálogo com ministros do STF, inclusive Alexandre de Moraes, alvo de diversos pedidos de impeachment feitos por parlamentares bolsonaristas devido a casos que miram o grupo político na Corte, e tem resistido a pautar esses pedidos de afastamento.
Diferentemente de Motta, Alcolumbre não fez uma declaração direta de apoio eleitoral a Lula e nem declarou voto no petista. Apesar disso, fechou uma aliança com o PT no Amapá, seu reduto eleitoral, e apoia a reeleição do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso. O PT de Lula, por sua vez, apoia a reeleição do governador do Amapá, Clécio Andrade (União Brasil), aliado de Alcolumbre.
Sucessão no Congresso
A agenda de segunda-feira no Amapá foi a primeira aparição pública de Lula e Alcolumbre desde a derrota histórica imposta pelo Senado ao indicado do presidente ao STF, Jorge Messias, no fim de abril. Antes disso, Lula e Alcolumbre tiveram três encontros nos últimos dias, que marcaram o início do processo de reaproximação. O primeiro ocorreu na casa do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e os demais no Palácio da Alvorada.
No período, Alcolumbre atuou para que a federação União-PP adotasse a neutralidade em nível nacional e também facilitou acordos locais. Em Minas, por exemplo, ainda que não apoie candidatos a governador do grupo do PT e nem do PL, o diretório estadual da federação é comandado desde julho pelo prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União Brasil), próximo do PT. No Rio, integrantes do PP são próximos do candidato do PSD a governador, Eduardo Paes, apoiado por Lula e pelo PT.
Da mesma forma, Motta tenta se manter no comando da Casa com o apoio do governo. Ele declarou publicamente apoio a Lula em evento na Paraíba na semana passada e foi um dos responsáveis por articular a neutralidade do Republicanos. Após o aceno, Lula fez uma ligação ao presidente da Câmara para agradecer e o convidou para uma reunião, que ainda não foi marcada.
Motta tem interesse em eleger o pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley (Republicanos) ao Senado, se reeleger como deputado e também se manter no comando da Câmara em 2027. Para isso, conta a popularidade de Lula na Paraíba e o apoio institucional do governo, caso o petista seja reeleito, para se manter no comando da Casa.
Integrantes da campanha de Flávio minimizam o apoio dos representantes do Centrão a Lula e dizem que, se o candidato do PL vencer a eleição, é natural que Alcolumbre, Motta e os outros integrantes dos partidos do bloco procurem se aproximar de Flávio.
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