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Economia de ideias: polarização e falta de marca própria levam presidenciáveis a driblar propostas concretas para a área

Economia de ideias: polarização e falta de marca própria levam presidenciáveis a driblar propostas concretas para a área

Diante da permanência de um cenário de polarização e sem conseguir apresentar marcas próprias na economia, pré-candidatos à Presidência vêm recorrendo a propostas vagas para a área, com chavões ou ações imediatistas. A lista inclui promessas de “tesouraço” em gastos, redução de impostos de combustíveis e ajuda a endividados.

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Para especialistas, a falta de medidas econômicas concretas ocorre, em parte, devido à prioridade de candidatos da oposição, como Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), de se diferenciar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em outras áreas, como segurança pública, política externa e relação com o Judiciário. Lula, por sua vez, tem dedicado discursos e pronunciamentos públicos a ações com impacto no período de campanha, mas que não são, necessariamente, duradouras.

Reembalagens

Um exemplo é o plano do governo de lançar, na semana que vem, uma versão do Desenrola, programa de refinanciamento de dívidas proposto por Lula ainda na campanha de 2022, e implementado no primeiro ano de mandato. Como O GLOBO revelou na sexta-feira, a nova versão deve ser voltada para pessoas com renda de até cinco salários mínimos e que têm dívidas vencidas no cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado. O volume total renegociado pode chegar a R$ 140 bilhões. Estudos apontam que o endividamento caiu entre 2023 e 2024, quando o primeiro Desenrola entrou em vigor, mas disparou após o fim do programa a um patamar acima do que havia antes.

Em entrevista ao portal ICL, Lula afirmou que “vai tentar encontrar a solução, e vai ser boa”, para o endividamento da população, e lembrou que o governo reduziu tributos sobre combustíveis para evitar um efeito dominó de alta de preços em meio à guerra do Irã, outro tema com impacto no bolso.

Para o cientista político Josué Medeiros, um dos coordenadores do Observatório Político e Eleitoral da UFRJ, a instabilidade internacional ajuda a explicar a maior dificuldade de propostas de longo prazo para a economia neste ano — diferentemente da campanha de 2022, diz o pesquisador, quando havia maior clareza sobre a adoção de uma reforma tributária e de revisão do teto de gastos no governo.

— A tendência é que Lula escolha pautas mais mobilizadoras para levar a esta campanha, como o fim da escala 6x1 e talvez a tarifa zero, que são assuntos que afetam a economia, mas que escapam da discussão de ajuste fiscal. Já a oposição levanta o tema do corte de gastos para fazer um contraponto ao Lula. Há uma disputa de radicalidade, principalmente de Zema e Caiado, para tentar tomar alguns votos na base mais à direita que hoje está com o Flávio — avalia Medeiros.

Ex-ministro

Zema divulgou um conjunto de propostas de governo na semana passada sob o mote “Brasil sem intocáveis”, prometendo “privatizar todas as empresas estatais” e “acabar com indexações” nos gastos públicos, o que tende a afetar benefícios sociais e os pisos de áreas como Saúde e Educação. O ex-governador de Minas vem batendo na tecla de que uma “elite” política faz com que o país seja “sufocado por impostos”, e que é preciso “aliviar a pressão sobre famílias e empresas”.

Caiado, que por ora navega com maior cautela na área econômica, escolheu Roberto Brant, ex-ministro da Previdência do governo Fernando Henrique, para elaborar seu plano de governo. Em participação na semana passada no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, o ex-governador de Goiás disse “não ser economista, mas é fácil aprender”, e desenhou uma plataforma econômica centrada em críticas ao atual governo.

— Lula recebeu a relação dívida/PIB em 72% e está entregando em 80%. Um governo que der conta de baixar um ponto percentual dessa dívida, todos os empresários vão voltar a investir e a acreditar — disse Caiado.

No mesmo evento, o senador Flávio Bolsonaro defendeu, a exemplo de Lula, um programa de renegociação para a inadimplência, mas culpou o governo petista pela alta do endividamento, que ele atribuiu a um “ambiente caótico no contexto dos negócios”. Flávio também afirmou que “infelizmente” pretende fazer “propostas genéricas por enquanto” para a economia, porque “se entrar em detalhes, isso acaba sendo usado contra a própria campanha”.

Flávio tem procurado tomar para si as posturas do presidente da Argentina, Javier Milei, com um discurso de “tesouraço” nos gastos, e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), seu pai, que delegou as propostas econômicas ao “posto Ipiranga” Paulo Guedes na campanha de 2018. O senador ainda não conseguiu apontar um interlocutor considerado de peso junto ao mercado financeiro, mas tem reiterado em entrevistas que um futuro ministro da Fazenda teria “autonomia” em sua gestão.

— Já vimos como é que se governa: escolhendo um time de estrelas e dando autonomia — declarou o senador.

Coordenador dos planos de governo de Ciro Gomes nas eleições de 2018 e 2022, o economista Nelson Marconi pondera que, na pré-campanha, é natural que as discussões de propostas estejam em “estágio embrionário”, mas diz que “não entrar em pormenores na economia já foi um erro” dos candidatos em 2022.

Ele cita como exemplo que a decisão de Lula de incorporar o Desenrola ao seu programa ocorreu já durante a campanha daquele ano, em uma tentativa de atrair votos de Ciro, que já tinha uma proposta de refinanciamento de pequenas dívidas desde a eleição anterior. Segundo Marconi, a falta de tempo de maturação da proposta no debate público “aumenta o risco de ser algo capenga”.

— A polarização acaba chegando às propostas, e os candidatos ou não detalham nada ou radicalizam. Você acaba vendo discursos como o de extinguir todas as estatais, que é como jogar para a plateia. O objetivo, especialmente de Lula e Flávio, é chamar atenção se diferenciando do outro — opina.

Máquina pública

O discurso de redução de despesas e de impostos também aparece em propostas de outros dois presidenciáveis, Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante), que aparecem tecnicamente empatados com Zema e Caiado na última pesquisa Genial/Quaest de intenção de votos, realizada em abril. Santos já defendeu que municípios que “dependem de verbas federais ou estaduais” precisam se fundir a outras cidades e “deixar de existir”, sob pretexto de enxugar o repasse de verba pública a governos locais. Ele também propôs o fim da Zona Franca de Manaus e o incentivo à industrialização em outras regiões do país, “principalmente o Nordeste”.

Cury, em entrevistas recentes, também se disse favorável a reduzir a máquina pública, mas sem detalhar ações concretas. Mais conhecido pela carreira como psiquiatra e escritor, o pré-candidato do Avante afirmou não ter posição formada, por exemplo, sobre um possível fim da indexação de benefícios previdenciários ao salário mínimo, tampouco sobre uma eventual extinção do piso de gastos em saúde e educação.

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