O produtor musical Preto Zezé, presidente da Central Única das Favelas (Cufa) e colunista do GLOBO, avalia que os jovens brasileiros têm se afastado dos políticos tradicionais por crescerem em um cenário de crise, frustração e descrença nas instituições, marcado por promessas não cumpridas de mobilidade social e estabilidade. Para o ativista, o governo Lula passa por uma “crise de criatividade” por não conseguir responder às novas demandas por autonomia e perspectivas concretas de futuro dessa parcela da sociedade.
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Existe uma falta de identificação dos jovens brasileiros com os políticos mais tradicionais?
Os jovens nasceram em um período no qual encontraram o mundo político em um caos. Um cenário polarizado, com o Estado tendo uma dificuldade enorme de atuar onde os mais pobres moram. Há aquele cara que conseguiu entrar na universidade, mas o título não garantiu mobilidade. Há uma frustração com tudo. A questão é como vamos redistribuir esses horizontes.
O governo Lula tem como uma de suas bandeiras a promoção de políticas sociais, parte delas voltada a jovens. É suficiente para dialogar com o que eles vivem no cotidiano?
O governo Lula teve a palavra “acesso” como lema. Acesso à universidade, ao consumo, ao trabalho, a políticas públicas. Só que, agora, há jovens que querem autonomia, não querem depender do Estado. Eles querem construir seus próprios futuros e ter estabilidade.
O senhor é crítico das tentativas de “falar a língua do jovem”, em especial nas redes sociais. Na prática, o que pode diferenciar uma aproximação autêntica de uma estratégia genérica?
A nova crise do lulismo é a ausência de criatividade para dar respostas a esse público jovem, e também para essa nova fração do pobre que eles veem como uma coisa tão homogênea. Eu vejo muita dificuldade do governo em conversar com um público que o boleto o atravessa mais que o sindicato, que o algoritmo pauta mais que a política de comunicação. Que a porta de fábrica virou a tela de um celular. Há uma crise de criatividade para dar um passo e fazer com que haja permanência na inclusão que foi conquistada.
Houve uma quebra de expectativa dos jovens com o que está sendo entregue?
Criou-se uma expectativa muito grande de um impacto forte na vida da população com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, por exemplo, mas as pessoas ainda não têm essa percepção de que houve tanta mudança como foi propagado.
Eu era trabalhador, meu filho foi o primeiro de uma geração a entrar na universidade. Todos dizendo que, ao se formar, teria um bom emprego e um bom salário, mas isso não se configurou. É um efeito frustrante em cadeia. Nesse ambiente polarizado, a insatisfação é canalizada com a repulsa às instituições democráticas. Eles passam a odiar os políticos por perceberem que atuam muito em causa própria ou em projetos que não fortalecem a população.
Esse afastamento atinge lideranças de todos os campos?
Atinge todos, mas como a esquerda é o governo, a tendência contra ela é mais forte. Esse argumento de “dane-se todos” pega bem entre os jovens que precisam dar uma resposta de enfrentamento a esse descontentamento, mesmo que depois o pensamento antissistema passe a ser o sistema da vez.
Entre temas como segurança pública, emprego e educação, quais pautas têm mais impacto concreto com esses eleitores?
Hoje, muita gente quer abrir o seu próprio negócio. O empreendedorismo é uma questão latente. Infelizmente, parte da esquerda tem uma visão preconceituosa e não consegue entender que o acesso ao consumo e a abertura de um negócio é uma afirmação de dignidade, de construção de relacionamentos. Sem essa agenda, o endividamento passa a forjar a realidade dessas pessoas, porque sempre estarão pensando em honrar seus compromissos, tendo que se submeter às plataformas para trabalharem 12, 14, 16, 18 horas. Essa população fica refém, e o Estado, em vez de ajudá-la, vai atrapalhar, multar e tributá-la ainda mais.
Ao mesmo tempo em que as pesquisas demonstram o cansaço com a polarização, nomes que se colocam como alternativas ainda enfrentam dificuldades para se firmar. Por que eles não conseguem atrair a população mais jovem?
Os jovens hoje são muito críticos, têm muita informação. Eles estão vindo de eleições em que votam, na visão deles, no menos pior. É uma eleição por rejeição: eu não gosto desse, mas odeio mais aquele.
Se outubro chegar sem que nenhum candidato consiga se conectar com os jovens, o que acontece com esse voto ainda sem endereço fixo?
Esse jovem tende a nem sair de casa para votar. É uma pena, mas é para aonde está caminhando a negação da política. Isso é muito curioso, porque é um sentimento justamente contrário ao que seria esse sentimento antissistema de mudança. Porque a frustração não te engaja. Ela ou te leva para um caminho de culpa, que você incorpora que o erro foi seu; ou te mobiliza e faz você não ver mais perspectiva de mudança.