Derrotado na disputa para deputado federal em São Paulo, o ex-ministro José Dirceu (PT) avalia, em entrevista ao GLOBO, que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi uma vitória do partido e defende que o governo abra mais espaço para outras forças políticas e setores da sociedade no quarto mandato. Entrevista: Aspecto descentralizado' da virada de Lula 'é inédito', diz cientista político Miguel Lago MAPA DA APURAÇÃO: Veja os resultados de Lula e Flávio Bolsonaro em cada cidade e estado neste segundo turno Dirceu também cobra diálogo inclusive com eleitores de Flávio Bolsonaro (PL) e diz ser “urgente” uma renovação no PT. Leia a seguir a entrevista: O que Lula tem de mudar no quarto mandato para que o caminho do PT não seja tão difícil na próxima eleição? Ele já se comprometeu a ouvir a voz que se expressou nas ruas. Houve uma revolução pacífica e democrática pelo voto no Brasil. A sociedade clamou para que Lula fizesse um governo que retratasse as forças que o elegeram na composição. O presidente tem uma oportunidade histórica de chamar o país a um pacto político. O Brasil precisa de reformas, que precisam ser pactuadas: tributária, financeira, política e do Judiciário. Ele tem autoridade para liderar isso. Que critérios devem ser usados para a formação do governo? O governo precisa expressar as forças políticas parlamentares, pelos partidos, mas tem que representar também essa expectativa de amplos setores sociais que não votariam no Lula. Votaram com compromisso democrático e com o compromisso de que o governo vai espelhar as expectativas e as reivindicações. O presidente conhece a minha visão sobre isso e já expressou publicamente qual caráter quer dar para o governo. Nossa expectativa, conhecendo o Lula, é que ele seja fiel a esse compromisso. Há um contrato com o povo brasileiro que ele firmou no discurso da vitória na Avenida Paulista. E o futuro do PT? Nosso futuro é o da esquerda. Não é o de uma liderança, um substituto do Lula. Precisamos unir forças progressistas e democráticas. A vitória na eleição não foi do PT. Temos que tirar consequências disso, não pode só falar. Temos que fazer quase uma reconstrução do PT. E dialogar com PSOL, Rede, PDT e PSB para constituir uma força mais orgânica. Temos de compreender melhor os setores da sociedade, sobretudo a juventude, insatisfeitos com a esquerda. Precisamos superar essa questão que o PT é antievangélico. Não podemos ter preconceito de que os evangélicos são bolsonaristas. Quem será o sucessor do Lula? Terão de provar isso governando ou liderando. Alguém vai se destacar. O (Fernando) Haddad se destacou como ministro da Fazenda e da Educação e ganhou espaço. Perdeu a eleição, mas isso não quer dizer nada. O Lula perdeu três e se elegeu quatro vezes presidente. Acho que elas (as lideranças) vão ter que surgir na construção do país, do próprio PT e da luta democrática. A direita já tem nomes enfileirados. O PT do Nordeste ganhou força. Esse grupo vai liderar o partido? Terá uma representação maior. É um fato já concretizado. O PT só tem renovação de direção em 2029, mas vai ter um congresso e uma discussão de estatuto para abrir espaço a essas realidades novas, das mulheres, dos jovens... Temos de democratizar mais o PT, melhorar a formação política e a atuação nas redes. A renovação no PT é urgente. Em 2022 já havia a expectativa por um governo mais amplo, o que não ocorreu. Por quê? Mas ele já deu a entender que estava errado, pelo modo como se expressou. Ele ouviu as vozes nas ruas e entendeu o recado do país. Não podemos decepcionar essas pessoas e temos que ganhar a juventude que votou legitimamente no Flávio. Nós não devemos estigmatizar, atacá-la como se fosse um pecado votar na direita. Temos que dialogar. Como é possível construir o ajuste fiscal? Existe um problema real no Brasil, que é a dívida pública. Mas tem que baixar o juro. Precisa fazer reforma, mas então vamos começar pela renúncia fiscal. O Lula tem que chamar as forças políticas, empresariais e o movimento sindical para debater. O que pedem? O que dão em troca? Não podem pedir para o governo fazer um ajuste que vai contra os interesses da maioria que votou a favor do Lula. Uma das razões da mobilização foi o medo de perder a vinculação do salário mínimo, a aposentadoria, a saúde, a educação... Não nos peçam para fazer aquilo que o eleitorado não aprovou. Houve uma mudança de perfil nos nomes de esquerda eleitos, mais jovens e ligados a pautas identitárias. A sua derrota tem relação com isso? É verdade que houve um movimento no voto jovem de mulher e no voto do PSOL, no caso de São Paulo. O PT perdeu 700 mil votos para a Câmara no estado. Houve um fenômeno, me prejudicou em parte. Eu não fui eleito porque não fiz campanha. Fiquei em casa de 10 de maio a 22 de setembro (em tratamento contra um linfoma). Eu teria sido eleito, não com uma votação expressiva. Já virei essa página. Não serei mais candidato.
Entrevista: 'Vitória não foi do PT', e sucessor de Lula terá que se provar 'governando ou liderando', diz José Dirceu