UNO MEDIA

Erika Hilton acusa PSOL de 'rasgar' acordos sobre distribuição de recursos e 'inviabilizar' candidatura

Erika Hilton acusa PSOL de 'rasgar' acordos sobre distribuição de recursos e 'inviabilizar' candidatura

A deputada federal Erika Hilton (SP) acusou a presidência nacional do PSOL de “rasgar” acordos firmados internamente sobre distribuição de recursos para a campanha deste ano. A parlamentar afirma que a sigla estaria “inviabilizando” sua candidatura e a de outros nomes da legenda que, assim como ela, permaneceram no partido para que ele consiga “superar a cláusula de barreira e eleger bancadas fortes” no pleito deste ano.

  • Pezão lembra câncer e diz: 'A doença tenho certeza que veio pelo que passei no governo do estado'
  • Datafolha: Maioria apoia classificar PCC e CV como terroristas, aponta pesquisa

"Tenho um orgulho imenso de ter ajudado a levar a luta pelo fim da escala 6x1 para o Brasil inteiro. As ruas estão do nosso lado. Mas fazer campanha no nosso país não é igual para todos. Sou uma deputada negra e travesti", destacou Erika em postagem nas redes sociais.

"Para viajar São Paulo, maior estado do país, puxando votos, preciso de uma logística imensa e de um esquema de segurança fortíssimo. Nossos corpos correm riscos que a burocracia do partido não pode simplesmente ignorar, com o risco de inviabilizar nossa pré-candidatura à reeleição, rebaixar o máximo potencial dos nossos votos… e colocar em risco nossa integridade física", completou.

Em março, o grupo de Erika decidiu disputar as eleições deste ano pelo PSOL, mesmo após o diretório nacional decidir não ingressar na federação PT-PCdoB-PV. A união era defendida pela deputada e pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL).

Comparação de recursos

A deputada questionou os critérios adotados para financiamento das campanhas e comparou o valor a ser recebido por ela com a verba prevista para outros nomes, com menos tempo no Congresso ou na federação PSOL-Rede. Erika cita os deputados estaduais Renata Souza (RJ) e Carlos Giannazi (SP) e o vereador Rick Azevedo (RJ) como outros parlamentares insatisfeitos com a gestão.

"Hoje, Juliano Medeiros, presidente da Federação PSOL-Rede, em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade que eu. Manuela d'Ávila, que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro. Respeito a trajetória deles e adoraria vê-los eleitos, mas isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo: os acordos feitos conosco, cálculos eleitorais sérios… A inteligência política passou longe", afirmou.

Manuela d'Ávila disputa neste ano uma vaga ao Senado no Rio Grande do Sul, enquanto Medeiros é pré-candidato à Câmara por São Paulo.

Erika defende haver uma "tentativa de asfixiar quem está na linha de frente em detrimento de um perfil de pré-candidaturas bem específico, de grupos que só pensam em si mesmos e estão, mais uma vez, arriscando a viabilidade do PSOL".

A direção nacional do PSOL rebateu a deputada afirmando que "posiciona a campanha de Érika Hilton como maior investimento entre todas as candidaturas proporcionais do partido" (leia a íntegra da nota no pé da reportagem).

"A distribuição de recursos eleitorais está em conformidade com esses objetivos. O incentivo — inclusive financeiro, no qual o PSOL é pioneiro — a candidaturas de mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTs e PCDs é uma política consolidada, não havendo debate em torno de mudanças nesse sentido", diz a sigla.

Política de inclusão

Outro ponto criticado pela deputada é a condução da atual presidente nacional da legenda, Paula Coradi, da política nacional de inclusão da sigla para critérios de gênero, raça e pessoas com deficiência.

“O PSOL simplesmente desmontou a sua política nacional de inclusão que garantia repasses nacionais justos com ajustes por gênero, raça e para pessoas com deficiência (PCD), exatamente no momento em que o próprio Tribunal Eleitoral reconhece a importância histórica e a necessidade dessa política. É um retrocesso inaceitável”, disse.

Reação de aliados

Após a postagem de Erika, aliados citados por ela como insatisfeitos com o diretório nacional se pronunciaram nas redes sociais.

A deputada estadual Renata Souza (RJ) diz que por uma decisão do partido, em instância nacional, o repasse do fundo eleitoral não vai garantir a priorização por gênero e raça. Ela pede que "essa decisão seja reconsiderada", para que o PSOL "não caia na vala comum dos partidos brasileiros, que nunca quiseram que nossa gente acessasse os espaços de poder".

"Isso é uma clara violação à lei que garantiu uma divisão mais justa à esse recurso (...) O partido de Marielle Franco tem que ser exemplo. Não basta se dizer diverso e plural, é preciso ter uma prática política coerente e responsável com a representação popular", escreveu.

O vereador Rick Azevedo (RJ) defende que o PSOL "deve apoiar novas lideranças, mas também reconhecer quem carrega suas principais bandeiras e expande seu alcance".

"Sofro ameaças por denunciar ao mundo que a classe trabalhadora brasileira sofre. Não tenho problema com divergência política, mas me recuso a aceitar a repetição de erros", escreveu ele, que atua no debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1.

O deputado estadual Carlos Giannazi (SP), por sua vez, afirma que a distribuição dos recursos do fundo eleitoral "não pode ser pautada simplesmente por acordos de bastidores entre forças que não refletem a expressão eleitoral da população".

"Errar neste momento custará não apenas espaço de representação política ao nosso partido, mas poderá colocar em risco a sua própria existência", escreveu Giannazi.

Leia a íntegra da nota da direção nacional do PSOL:

"O PSOL empenha toda a sua energia para derrotar a extrema-direita nas eleições de outubro, ampliando sua bancada de deputados federais e estaduais, conquistando cadeiras no Senado e reelegendo Lula presidente da República.

A distribuição de recursos eleitorais está em conformidade com esses objetivos. O incentivo — inclusive financeiro, no qual o PSOL é pioneiro — a candidaturas de mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTs e PCDs é uma política consolidada, não havendo debate em torno de mudanças nesse sentido.

A proposta, que ainda será votada nas instâncias partidárias, leva em conta essas metas e estabelece um teto, com o maior valor possível, para todos os detentores de mandato que buscarão a reeleição, considerados nossos principais puxadores de voto.

Ao mesmo tempo, posiciona a campanha de Érika Hilton como maior investimento entre todas as candidaturas proporcionais do partido, diante do limite de recursos disponíveis e da necessidade de financiamento das demais candidaturas, tanto majoritárias quanto proporcionais em todas as Unidades da Federação.

O PSOL tem como missão fazer a política brasileira se parecer mais com o povo. Por isso, nossa bancada é a mais diversa do Congresso Nacional. Em 2026, vamos novamente transformar esse compromisso em representação concreta."

  • Erika Hilton